Atrás fronteiras do Morro do Estado

Fonte: Jornal do Brasil, caderno Niterói – 28 de junho de 2007

Malu Muniz

Estive lá em 2007. Foi impressionante ver aquele amontoado de pessoas dividindo minúsculos espaços – uns ainda mais apertados e comedidos que outros. Entre as melhores coisas que vivi ao longo do breve contato com o jornalismo foi conhecer melhor as comunidades de Niterói, e atravessar ‘fronteiras’ (invisíveis) nunca ultrapassadas por – por receio e desconhecimento.

O primeiro produzido pelo último.

Quando possível, me auto-escalava para ‘pautas sociais’. Em algumas oportunidades, percorri cantos alheios à Niterói que conhecia até então. Distante da cobertura policial, a qual essas áreas estão quase sempre relacionadas, procurava novas abordagens. E uma delas me deixou particularmente satisfeita.

(Enquanto escrevo este texto, mais uma viatura do Corpo de Bombeiros percorre ruas próximas. O barulho vem se aproximando. Indica pressa e urgência.)

Num domingo de 2007, numa visita ‘exploratória’ pelo Morro do Estado, durante meu esvaziado plantão de fim de semana, fui levada a conhecer algumas famílias. Aquelas pessoas há tempos buscavam permissão e ajuda para remover uma enorme árvore que ameaçava desabar e atingir as casas semeadas ao seu redor.

A árvore era enorme, cheia de galhos e raízes que se misturavam com as casas ali assentadas. Após conversar com alguns moradores fui me dando conta de que tratavam-se de famílias migrantes, nordestinas, que viviam no pé da enorme árvore, e formavam elas próprias uma mesma árvore genealógica.

Um era irmão do outro, que era primo daquele, que era sobrinho de alguém mais adiante, que era filho… E por aí seguia.

Enfim a pauta da árvore que ameaçava famílias não chegou a agradar tanto quanto a ideia de retratar a vida de uma comunidade de migrantes nordestinos em torno daquele enorme pé-de-não-sei-o-quê. A matéria por fim ocupou as páginas centrais do caderno de Niterói do JB.

Hoje, ao receber o e-mail abaixo reproduzido, e tendo ouvido no rádio a contabilização dos cadáveres desse lado de cá da Baía, me lembrei daquela enorme família – de seus galhos e ramificações. Bateu uma curiosidade de saber como estão. Será que a velha árvore continua de pé? Será que os moradores ainda dividem espaço com aquelas enormes raízes e galhos? Teria a árvore sido retirada para evitar tragédias futuras como as que vejo noticiarem no rádio e na TV? Como estão aqueles quase conterrâneos (sou filha de nordestino e não consigo deixar de me sentir um pouco pertencente àquelas bandas mais próximas do Equador)? Incomodada, vou amaciar minha curiosidade… Mas como seria bom ‘pescar’ das ondas do rádio – ou de algum outro veículo – alguma informação. Qualquer uma… Ou melhor, uma das boas! Tento me convencer de que notícia ruim chega rápido. Agora pouco ligou um amigo contando sobre a morte de distantes conhecidos naquele mesmo morro.

Torço para que a árvore genealógica que conheci há três anos não tenha perdido um galho sequer. E que outras sejam poupadas.

Amém.

Algo me diz que as dezenas de edifícios, que surgem nesta cidade como se da terra brotassem do dia pra noite no lugar de velhas casas, não contribuem para uma urbanização planejada e responsável. Mas é só uma intuição…

Morro do Estado enterra seus mortos

Os moradores do Morro do Estado enterraram nesta quarta-feira, 7, os corpos de três pessoas, vítimas das enchentes que assolaram a região do Grande Rio. Mas já se mobilizam, através da Associação de Moradores, para reivindicar obras de contenção de encostas e limpeza. O município de Niterói contabilizou o maior número de mortes, em decorrência das enchentes. Dezenas de pessoas continuam desaparecidas. O número de feridos edesabrigados não para de crescer. Ainda em Niterói, oito bombeiros ficaram feridos durante um resgate. O prefeito Jorge Roberto Silveira decretou luto de sete dias e estado de calamidade pública. As aulas nas escolas municipais estão suspensas por tempo indeterminado.

Posto de arrecadação de donativos

O Clube Canto do Rio, no Centro, está recebendo doações para as vítimas das chuvas. O clube fica na Rua Visconde de Rio Branco, 701, no centro de Niterói (próximo às Barcas). O telefone para contato é (21) 26208018. Serão bem vindos colchonetes, cobertores, alimentos não perecíveis, leite em pó, roupas de cama, vestuário e produtos de limpeza. A Prefeitura de Niterói divulgou que 12 escolas municipais estão preparadas para receber os desabrigados. São elas: Rachid (Santa Bárbara); ErnaniMoreira Franco (Fonseca); Antonio Vieira (Morro do Estado); João Brasil(Morro do Castro); Paulo Freire (Fonseca); Nilo Neves (Boa Vista), JoséAnchieta ( Morro do Céu) e Senador Vasconcelos Torres (Jacaré). Já a escola estadual Capistrano, também em Santa Bárbara, serve de Posto de Alimentação.

***

A jornalista Malu Muniz, formada no IACS/ UFF, é uma das idealizadoras do site Calese como projeto de extensão da Universidade Federal Fluminense. Hoje é mestranda em Ciências Sociais.

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