Chacina de Acari vira arquivo morto

Ninguém foi condenado

Vinte anos depois da morte de jovens inocentes no subúrbio carioca, o crime vai prescrever nos próximos dias por falta de provas. 

Em 2006, as estudantes de Jornalismo e hoje repórteres Maria Luiza Muniz e Renata Cunha publicaram primeira vez no Cale-se o texto abaixo:

O caso

Em 26 de julho de 1990, 11 jovens desapareceram na região de Magé, no Grande Rio. Passados 16 anos, nenhum deles foi encontrado e os parentes das vítimas sofrem com a sensação de descaso por parte das autoridades.

Uma semana antes do desaparecimento, segundo moradores, policiais militares teriam entrado na favela de Acari, durante uma festa julina, procurando por Luiz Carlos Vasconcelos de Deus (Lula), 32 anos, Wallace Oliveira do Nascimento, 17 anos, e Moisés Santos Cruz (Moi), 26 anos. À época, os três mantinham uma ‘sociedade forçada’ com estes policiais, já que eram obrigados a dividir o produto dos roubos e seqüestros que realizavam. Moi e outros dois jovens, Edson de Souza Costa, 17 anos, e Viviane da Silva, 13 anos, ficaram detidos em um cárcere improvisado na casa de Edméia da Silva Euzébio, moradora de Acari, que viria a ser uma das mais ativas Mães de Acari. O movimento dessas mães surgiu a partir do desaparecimento de seus filhos em um sítio Suruí, local escolhido pelos rapazes extorquidos para se refugiarem durante alguns dias na companhia de amigos e, supostamente, para esconder o produto dos roubos.

Entre os desaparecidos estavam ainda as namoradas de Lula, Rosana Souza Santos, 17 anos, e de Wallace, Cristiane Souza Leite, 17 anos. O filho de Edméia, Luiz Henrique Eusébio da Silva (Gunga), 17 anos, a namorada Viviane, Hudson de Oliveira Silva, 16 anos, Antonio Carlos da Silva, 17 anos, e Hédio Oliveira do Nascimento, 30 anos, se juntaram aos demais e foram até o sítio de dona Laudicena Oliveira do Nascimento, mãe deste último, e avó de Wallace.

O caso que começou com o seqüestro de 11 jovens do subúrbio do Rio de Janeiro mudou a rotina de 11 mães, que ficaram conhecidas como as Mães de Acari. Vera Lucia Flores Leite, hoje com 58 anos, é mãe de Cristiane e conta que a procura pela filha fez com que ela largasse o serviço para acompanhar as investigações juntos com os policiais. Vera, que na época morava próximo a Acari, na Fazenda Botafogo, diz que enfrentou desconfianças das pessoas que moravam na favela, quando lá chegou em busca da filha. “Notei que as pessoas se retraíram quando eu cheguei, eles achavam que por eu ser mulher se policial ia passar informações, mas eu estava ali à procura da Cristiane”, lembra a mãe, que soube da viagem que a filha havia feito em companhia dos amigos apenas quando foi comunicada acerca do desaparecimento. Vera Lucia conta o marido saiu de casa no final de 1990: “Meu ex-marido teve uma reação estranha, não tomou partido, nunca participou de nenhum movimento”, afirma Vera Lucia, que logo passou encontrar apoio nas outras Mães de Acari.

A causa

Marilene Lima e Souza, 54 anos, e Vera Lucia são duas das mães mais envolvidas com a causa atualmente. Marilene, que também deixou o trabalho para dedicar-se à procurar pela filha, após 16 anos, constata: “Eu me desqualifiquei para o mercado”. A mãe de Rosana Souza Santos, que hoje estaria com 35 anos, tem outros quatro filhos, mas reconhece que a busca pela filha desaparecida “adormeceu não só profissional, mas a mãe e a mulher”. Logo no início da entrevista, realizada pouco antes de uma manifestação em frente ao Palácio das Laranjeiras, no Rio de Janeiro, Marilene desabafou: “Eu tenho a certidão de nascimento, mas não tenho certidão de óbito da minha filha. As Mães de Acari são mães de filhos pobres, com dificuldade para criar seus filhos com dignidade e querem enterrá-los com dignidade”.

Márcia Pereira Leite, professora de sociologia da UERJ, considera que a decisão de tornar a dor pública representa um desejo de transformar o caso em uma causa. “Esta luta está muitas vezes relacionada ao ato de limpar a memória do próprio filho, fazer justiça e dar um sentido para que a morte dele não tenha sido em vão”, observa a pesquisadora, que ressalta ainda a importância da formação de uma rede de apoio mútuo e da troca de informações para que as mães conseguissem persistir.

Para Carlos Nobre, jornalista e autor do livro Mães de Acari: uma história de luta contra a impunidade, a ausência dos corpos favoreceu a reação das mães em busca de informações sobre o paradeiro de seus filhos: “houve um vácuo de corpos e isso despertou nas mães outro tipo de interesse, porque se houvesse corpos, elas iam enterrar e sepultar, iam se conformar porque já estavam acostumadas com uma ação de grupos paramilitares.”

Vera Lucia e Marilene, na década de 1990, conseguiram entrar em contato com movimentos de mães de vários lugares do mundo, chamando a atenção de organismos internacionais de defesa dos direitos humanos para o desaparecimento de suas filhas e dos outros seqüestrados. Marilene ressalta um aspecto positivo de carregar o “rótulo de Mãe de Acari”: “Hoje nós temos inserção Há uma grande família de mães de vítimas da violência”. No início, não eram recebidas nas delegacias e nem por autoridades. “Eles diziam que não iam receber mães chorando”, se queixa. Para Vera, o contato com a Anistia Internacional foi muito importante. “Hoje eu sei onde eu posso entrar. Eu entro, saio e as pessoas têm que me respeitar,” afirma.

A advogada responsável pelo caso Acari, Cristina Leonardo, diz que “as Mães de Acari foram precursoras no Brasil”. Seis anos após o desaparecimento dos 11 de Acari, a advogada organizou uma campanha com as Mães da Cinelância e de Acari. A campanha ganhou grande notoriedade ao ser envolvida na trama da novela Explode Coração, da autora Gloria Peres, exibida em horário nobre. “Como as Mães de Acari tinham mais experiência do que as que estavam ali na Candelária, eu coloquei elas como monitoras, como agentes multiplicadores”, explica a advogada, que foi assistente de acusação nas chacinas de Candelária e de Vigário Geral. As duas ocorreram em 1993 e deixaram um saldo de 29 mortos.

No início deste ano, em 15 janeiro, uma das Mães de Acari mais ativas à época, foi morta a tiros quando deixava um presídio, onde dava continuidade às suas investigações paralelas para descobrir o paradeiro de seu filho. Edméia, mãe de Luiz Henrique da Silva Euzébio, testemunhou a extorsão que estaria ligada ao desaparecimento de seu filho e dos amigos no sítio em Suruí. Vera Lucia conta que Edméia sofria várias ameaças. “Ela era uma líder na comunidade e recebia bilhetes para que calasse a boca”, relata Vera, para quem “a morte de Edméia derrubou o grupo”.

O coronel da Polícia Militar Walmir Alves Brum, que investigou o caso atuando na corregedoria da PM, acredita que “as mesma pessoas envolvidas na morte de Edméia estariam envolvidas na Chacina de Acari. O coronel afirma que recebeu informações sobre uma testemunha capaz de identificar os executores da Mães de Acari. A investigação está em curso no Ministério Público do Rio e Brum garante: “Só não vão chegar aos culpados se não quiserem, porque eu indiquei o mandante e os executores, mas não tenho atribuição para fazer esse tipo de investigação. Somente a Delegacia de Homicídios poderia fazer isso”.

No mesmo ano do assassinato da Mãe de Acari, Mário Luis de Andrade Ferreira (Mario Maluco) foi preso, julgado e absolvido por unanimidade. Brum afirma que ele próprio foi uma das testemunhas que inocentaram Mario Maluco. “Ele foi confundido. Só participaram policiais da morte de Edméia. Até havia um que não era policial, mas que tinha envolvimento com eles”, defende o coronel.

Quanto ao episódio da extorsão realizada por policiais, Brum afirma que, na época, esta foi devidamente esclarecida. “Mas por uma manobra que a gente não conhece bem, a promotora do caso, da auditoria militar, arquivou o procedimento. Isso é um fato que chamou atenção porque a motivação do crime foi a extorsão que acontecia dentro da favela.” O coronel acrescenta que “os policiais acharam que foram enganados pelos criminosos”.

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Um comentário sobre “Chacina de Acari vira arquivo morto

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