Cidade Maravilhosa

Espaço Literário

Sheila Jacob

Era uma noite como outra qualquer, talvez diferente apenas no que diz respeito ao refrescamento da chuva após dias infinitos do sol escaldante de que é feito o calor carioca. Encostamos em uma bancada, pedimos o chopp de sempre, enquanto nos perdíamos em comentários antigos sobre a faculdade, projeções de trabalho, vontades intermináveis e grandes planos para a semana.

“O que vão querer?” Foi assim que Davi se apresentou: com os pés descalços sobre o chão molhado, a blusa cinza cuidadosamente remendada, dentes grandes da mesma cor daquele boné amarelo cujas inscrições desapareceram devido ao uso por meses ininterruptos; o olhar era doce, valente e ousado, compondo a figura daquele humilde vendedor, apenas um entre tantos outros que nos cercavam. “Com mais açúcar? Com mais limão? Vai aí a saideira?”, era o máximo que esperávamos ouvir, não despidas totalmente dos preconceitos que costumam habitar nossa mente ajuizada.

Logo logo, entretanto, através da voz calma e sem a corrupção das tais palavras de ordem, vimos descortinar-se um mundo de opiniões autênticas, que rasgavam cinismos e ironias em relação à situação atual do país. Naquela noite, quem se aproximasse do nosso pequeno grupo ouviria Davi falar sobre os abusos do imperialismo, criticar a falta de adesão popular, chorar a necessidade de engajamento, questionar a presença militar no Iraque, constatar o poder e o interesse no petróleo e maldizer tropas brasileiras no Haiti; pensamentos dourados revezando-se entre pedidos e pagamentos de outros clientes.

E o tempo simplesmente passaria assim, sem notar, sem querer, naquela conversa informal e inesperada sobre política e economia. Gritos selvagem, de repente, rasgaram o céu escuro que caía sobre aquela noite gelada. Sai daí, desarma essa barraca Ô porra, senão você vai ver o que te acontece. Me respeita que eu sou PM, me obedece porque sou superior. Um tom de desrespeito cortava toda aquela fala exaltada em que transbordavam palavras como poder, autoridade e respeito, e aquele rapaz de olhar sensível era tão rebaixado por aquele policial não identificado, tão humilhado, que abaixou prontamente a cabeça, serrando os punhos e engolindo as lágrimas que teimavam despontar a qualquer momento. A reação perplexa de todos os espectadores ficou resumida a um silêncio tenso, olhares atentos, uma indignação sufocante e a certeza de que aquilo não poderia passar em branco. Pelo menos não deixariam.

Mas…
…….
….
..
.
Passou.

E Davi, que trabalhava enquanto refletia sobre a sujeira do mundo, sentia mais nojo enquanto se lembrava de ter sido expulso de sua própria barraca sob uma chuva de berros, gritos e palavrões mugidos pelos representantes da Prefeitura assim que chegaram. Doía-lhe a injustiça, anotara a placa da viatura, ainda guardada no calor do momento a esperança de justiça. Vira os amigos apanharem e sofrerem humilhações enquanto pingos gelados de chuva caíam sobre sua testa. Vira também uma multidão quieta, passiva, acomodada, inerte, amorfa, calada. Uma caneta na mão, um guardanapo suado, um número anotado, uma vontade de mudar um mundo transbordante de injustiças. Seguiu seu caminho, foi para casa e deixou-se cair sobre a cama sedutora. Enquanto dormia, cortava-lhe o coração a certeza da impunidade.

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