Equipamentos e espaços adaptados…

… reduzem  barreiras de alunos portadores de deficiência

Camila Liporoni

Os brasileiros portadores de deficiência que frequentam a escola podem exigir da instituição a instalação de rampas de acesso, sanitários adaptados e equipamentos para o aprendizado. Esse direito está assegurado desde 2003 pela Portaria nº 3284, do Ministério da Educação.

De acordo com o censo do IBGE de 2000, dos 24,5 milhões de pessoas com algum tipo de deficiência, apenas 3,2 milhões freqüentaram algum tipo de escola. Este número cai para 700 mil quando se trata de portadores de deficiência entre 18 e 29 anos, idade média de ingresso no ensino superior.

Preocupada com a inserção de estudantes com necessidades especiais, a Pró-Reitoria de Assuntos Acadêmicos (PROAC) criou em 2006 o Núcleo de Acessibilidade e Inclusão- Sensibiliza UFF. O projeto nasceu de uma idéia da médica Luiza Santos Moreira da Costa, professora do Instituto de Saúde da Comunidade. Diferente de núcleos essencialmente assistencialistas de outras universidades, Luiza Costa explica que o Sensibiliza nasceu com uma proposta mais ousada. “Pensamos não só em disponibilizar equipamentos e softwares aos alunos, mas também adotar uma política inclusiva sejam por meio de um suporte técnico e pedagógico de professores e funcionários que trabalham diretamente com esses estudantes”.

Em 2006, o Núcleo de Acessibilidade aos Deficientes da Universidade iniciou projetos de parceria com instituições como a Associação Fluminense de Amparo aos Cegos (AFAC), Conselho Municipal da Pessoa com Deficiência (COMPEDE) de Niterói, Centro de Vida Independente (CVI), Associação de Pais e Amigos dos Deficientes da Audição (APADA) e Associação Niteroiense dos Deficientes Físicos (ANDEF). A proposta é promover a inclusão dos alunos com deficiência, como transtornos do desenvolvimento, dislexia e altas habilidades como a superdotação, por meio da redução de barreiras metodológicas, instrumentais, arquitetônicas e de comunicação.

No ano de 2007, a Secretaria de Educação Especial do MEC liberou uma verba de R$ 94 mil para aquisição de equipamentos e para mobiliar o espaço físico e, que será inaugurado no próximo dia 10 de junho, ás 15 horas, com a presença do reitor Roberto de Souza Salles, no Núcleo de Documentação (NDC), fundos, Campus Gragoatá, São Domingos, Niterói.

Com a verba do Projeto Incluir, a UFF comprou 3 laptops com adaptações especiais, 1 impressora em braile, 1 lupa eletrônica, 1 microfone de cabeça, cadeiras de roda, dentre outros, e contratou uma professora da linguagem de sinais (Libras). No caso da impressora, ela imprime em braille; nos computadores é instalado programa ledor de tela. Em sala de aula ou na biblioteca a pessoa cega usa um fone de ouvido; as pessoas com baixa visão podem ampliar a fonte de textos para leitura, sem qualquer outra alteração; a lupa eletrônica amplia e altera o contraste fundo das letras para permitir leitura de material impresso; o microfone de cabeça permite que pessoas com movimentos involuntários possam falar em público ao microfone. Alunos com deficiência poderão usá-los, sendo preciso entrar em contato com o Núcleo Sensibiliza UFF e efetuar o cadastro.

Cristina Delau, Luíza Costa e Camila Alves

Em maio a aluna Camila Araújo Alves, do 2º período de Psicologia, recebeu o primeiro laptop adaptado comprado pelo Sensibiliza, pelas mãos da idealizadora do Projeto e também pela psicóloga e integrante do Sensibiliza, Cristina Delau. Mineira de Ponte Nova, município da Zona da Mata, Camila, de 19 anos, começou a reduzir a visão progressivamente até a perda total, aos 15 anos. No vestibular a estudante optou pela prova oral, realizada em Juiz de Fora, Minas Gerais. “O atendimento foi ótimo e não tive problema com os leitores. Quando eu entrei na UFF, pensei que seria bem pior, mas me surpreendi. Fiquei sabendo do Sensibiliza, que me dá apoio desde o início”. O laptop será utilizado durante todo o curso pela estudante devendo ser en tregue ao final da graduação.

As barreiras arquitetônicas representam um grande desafio aos estudantes com deficiência. O campus do Gragoatá, que abriga os cursos de Letras, Serviço Social, Educação, História, Ciências Sociais, Psicologia, Relações Internacionais, tem calçamento de paralelepípedo, o que dificulta a circulação de cadeirantes e deficientes visuais. O calçamento do campus da Praia Vermelha apresenta o mesmo problema. Já os prédios de Direito, Economia e do Instituto de Arte e Comunicação Social, com menos pavimentos, não possuem elevadores, o que prejudica o acesso aos alunos com cadeiras de rodas aos andares superiores.

Antes de assumir a Pró-reitoria de Pesquisa e Pós Graduação, o professor Antônio Cláudio Lucas da Nóbrega, tinha dificuldade de freqüentar as salas da PROPP, no terceiro andar da reitoria. Há 10 anos, o carro de Antonio Cláudio foi atingido por tiros numa tentativa de assalto, perto do Túnel Rebouças, e uma das balas acertou a medula, deixando-o paraplégico. Depois do episódio, o pesquisador do CNPq e professor de Farmacologia e Fisiologia conta que precisava voltar para o Instituto Biomédico, quando os dois velhos elevadores da reitoria não funcionavam.

Antônio Cláudio admite falhas na acessibilidade dos campi universitários: “O acesso é ruim, mas existe uma boa vontade das pessoas de facilitar o acesso. Isso é um ponto positivo. Lógico que não é o ideal, mas temos o direito à cidadania plena e não deveria haver barreiras ao acesso, independente de ajuda ou não. Depois do meu acidente o diretor do Biomédico mandou construir rampas para facilitar o acesso”. .

A professora Luiza Costa defende a realização de um levantamento sobre o número de portadores de deficiência na Universidade. “A gente só conhece os alunos que pedem apoio no vestibular e que são aprovados”. De acordo com o cadastro do Sensibiliza, 15 estudantes portadores de deficiência frequentam os campi da UFF em Niterói, mas os responsáveis pelo projeto suspeitam que haja muitos outros ainda não identificados.

Na próxima inscrição em disciplinas, que ocorrerá em agosto, o Sensibiliza pretende organizar um censo para contabilizar o número de estudantes portadores de deficiência matriculados nos cursos da Universidade. A psicóloga Cristina Carvalho Delau reconhece que o Sensibiliza UFF tem um longo caminho a percorrer. “Enquanto não se respeitar o princípio de igualdade de oportunidades e do reconhecimento do direito humano no desenvolvimento das potencialidades dos estudantes com altas habilidades, como a superdotação, assim como de todos os alunos que fogem à média geral, programas como o Sensibiliza continuarão sendo indispensáveis para conscientizar a comunidade acadêmica”, frisa Cristina Delau.

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