Estrangeiros não merecem respeito?

O depoimento de Thaís Tibiriçá, uma brasileira que sofreu maus tratos na Irlanda

Durante quase um ano participei desse site como repórter. Nosso intuito sempre foi escrever sobre violações dos direitos humanos, censura, privação da liberdade. E foi preciso chegar à Europa para sentir tudo isso acontecer comigo.

Resolvi vir para a Espanha e estudar como intercambista em uma universidade conveniada com a Universidade Federal Fluminense (UFF/RJ). Tenho um visto de estudante para cursar um semestre na Universidade de la Coruña, em La Coruña, região da Galícia. Estou morando na Espanha há quatro meses, e nas minhas férias de Semana Santa fui com dois amigos para a Irlanda. Para nossa surpresa fomos impedidos de entrar em Dublin e levados para uma penitenciária feminina (eu eu minha amiga Maria Dias) e masculina (nosso amigo André São Pedro).

A justificativa da polícia de imigração irlandesa foi a de que não tinhamos dinheiro suficiente para passar seis dias no país. Entretanto, nós três tínhamos 350 euros cada um em dinheiro efetivo, além dos nossos cartões de créditos internacionais. Segundo a imigração, cartão de crédito não é prova de dinheiro. Será que Visa não funciona lá?

Após sermos impedidos de entrar, fomos levados sem sabermos para prisões, além de ficarem com nossos passaportes e a documentação original das universidades que estamos estudando aqui na Europa. Ignoraram os papéis das universidades, e ainda questionaram por que eles não estavam em inglês. Contestamos que estavam na língua do país em que estamos vivendo, pois é uma documentação original. Percebemos que não iriam deixar a gente passar de qualquer maneira, então pedimos uma ligação para a Embaixada brasileira. Novamente fomos ignorados.

Ao entrar na prisão Dochas Centre tive que deixar todos os meus pertences com a policial, quando digo todos são todos mesmo. Recebi um saco plástico com toalha, lençol, uma calcinha e uma blusa (que pelo menos eram minhas). Maria já não teve tanta sorte: a policial deixou ela apenas pegar seus óculos e o colírio da lente de contatos, nada mais. Permaneceria com suas roupas por dois dias.

Nesses dois dias tivemos que tomar banho na frente das guardas, além de responder ao questionário da enfermeira do presídio, passar por uma médica, participar das refeições com as presidiárias comuns… No nosso presídio havia mulheres que estavam cumprindo pena por tráfico de drogas e outras por homícidio. Conhecemos e conversamos com algumas delas, mesmo a Embaixada brasileira em Dublin, na voz de Elza Soares, ter dito que não convivemos com essas pessoas.

Sim, nós convivemos com essas pessoas, e não estou aqui para julgá-las. A violação dos nossos direitos não foi cometida por elas, mas sim pela polícia de imigração irlandesa que, alegando algo irreal, simplesmente não nos deixou entrar na Irlanda, e, para completar, nos levou para uma prisão e nos privou de nossa liberdade, deixando a gente ali por dois dias sem a possibilidade de fazer uma ligação.

Nosso pedido de ligação só foi atendido no segundo dia. A freira Mary, que cuida das presas, nos ajudou a falar com a diretora do presídio, que se sensibilizou e nos deixou fazer uma ligação de 6 minutos. Meu amigo André, que estava na penitenciária masculina, não pôde fazer nenhuma ligação, e ao questionar sua presença ali recebeu a seguinte resposta: “Aqui não é imigração, é um presídio”.

Foram meus pais e o de Maria que avisaram a Embaixada do Brasil em Dublin, e no sábado pela manhã um representante nos visitou, avisando da nossa possível saída. Para tentar nos acalmar, disseram que esse era o procedimento normal, mas isso só me deixou mais inconformada e fiquei imaginando quantos brasileiros já passaram por isso e nunca puderam relatar essa humilhação. Outros tantos devem ter se sentido envergonhados e só pensaram em esquecer tudo. Eu e meus amigos só sentimos aversão à maneira como são tratados os estrangeiros na Irlanda. O guarda da imigração deixou muito claro conversando com a gente que a presença de brasileiros não é bem vinda e que não temos nada para conhecer na Irlanda. Sim, foram essas palavras utilizadas.

Ficamos mais indignados por nossos governantes tratarem o caso de forma despreocupada, e terem coragem de dizer que esse é um procedimento comum, porque a Imigração Irlandesa não tem um local para os deportados. Leitores, imaginem se estudantes universitários irlandeses fossem barrados para entrar no Brasil, e levados para uma cadeia. Aconteceria uma guerra diplomática. A experiência valeu para vermos como o mundo está de cabeça pra baixo. A tão falada globalização está deixando os países considerados mais desenvolvidos malucos. E a Europa é o lugar mais vísivel para se notar todas essas mudanças. A imigração dos países menos desenvolvidos da União Européia e um crescimento econômico que não acompanha toda essa circulação de pessoas estão deixando os europeus aversos aos países chamados por aqui de subdesenvolvidos.

A xenofobia dos irlandeses fica clara ao entrarmos na sala de deportados do aeroporto. As mensagens nas paredes sempre são dos povos considerados de segundo escalão. Junto com Maria e eu estava também na mesma situação uma brasileira de seus 35 anos, cujo nome prefiro não mencionar, pois ela não sabe que estou escrevendo. Essa mulher é enfermeira no Brasil há mais de 10 anos, levava em dinheiro efetivo 1500 euros, passagem de ida e volta do Brasil, dois cartões de crédito, hotel reservado e pago. A resposta da polícia de imigração foi que ela era uma pessoa simpática, mas não tinha como comprovar sua profissão no país. É só na Irlanda que para viajar de férias você precisa ter uma comprovação da profissão que exerce no país de origem.

A situação está caótica no país de James Joyce. As autoridades irlandesas haviam assinado uma semana antes da nossa chegada uma lei que vai deixar cada vez mais díficil a entrada dos povos não bem vistos por eles. Lamentável, depois dizem que a censura e violação dos direitos humanos foi coisa apenas das ditaduras. E hoje como os países estão tratando os estrangeiros?

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