Fuga de alemães pela fronteira

Da Hungria faz ruir muro de Berlim

João Batista de Abreu

No dia 9 de novembro de 1989, os berlinenses tomaram as ruas para comemorar a eliminação física e simbólica daqueles imensos blocos de concreto que dividiam em duas, desde agosto de 1961, a antiga capital alemã. Herança da Guerra Fria que incendiou a disputa entre as duas maiores potências do pós-guerra – Estados Unidos e União Soviética – o Muro de Berlim marcou a separação de famílias, ideologias, amigos, conceitos, colegas de trabalho, relação com o capital, deixando uma ferida aberta na sociedade alemã.

Ainda hoje os principais meios de comunicação pouco divulgam os episódios que antecederam a derrubada do muro de Berlim, como a decisão das autoridades da Hungria, também integrante do Pacto de Varsóvia, de abrir as fronteiras com a Áustria em Sobron, no verão de 1989, para a passagem de cidadãos da Alemanha Oriental. Muitos abandonaram seus velhos carros a poucos metros da fronteira verde e, malas na mão e crianças no colo, se aventuraram pelos cinco quilômetros da zona de exclusão, sujeitos a tiros dos guardas da milícia dos trabalhadores, e ingressaram em território austríaco rumo à Alemanha Ocidental.

O presidente da Hungria, Miklos Nemeth, o ministro das Relações Exteriores, Gyula Horn, e os líderes soviéticos Mikhail Gorbatchov e Edward Schevarnadze desempenharam papel fundamental neste processo de abertura de fronteira que plantou a semente das negociações que fizeram florescer a queda do muro. Gorbatchov deixou claro a Erick Honecker, secretário-geral do Partido Socialista da RDA, que não mandaria tropas soviéticas para evitar a debandada de cidadãos alemães rumo ao Ocidente. Em março, o Parlamento húngaro aprovara a adesão à Convenção de Genebra para Refugiados, que condenava o uso de armas de fogo contra pessoas que tentassem ultrapassar a fronteira.

Outro episódio que entrou para História foi a ocupação da embaixada da República Federal da Alemanha (RFA) em Praga por 3 mil cidadãos da Alemanha Oriental, entre os quais 300 crianças. Com a ajuda de organismos humanitários, da Igreja Católica e do prefeito da capital tcheca, no dia 4 de outubro os refugiados conseguiram embarcar em trens que deixaram Praga pouco antes da meia-noite para chegar a Baviera, do lado ocidental, na manhã seguinte. À tarde, mal a equipe da Cruz Vermelha retirava os colchonetes do pátio, novo grupo de alemães invadiria a mesma embaixada para tentar empreitada semelhante, num processo de êxodo que parecia não ter mais fim. De janeiro a 9 de novembro de 1989, 130 mil alemães cruzaram a linha divisória que um dia o primeiro-ministro britânico, Winston Chrchill, batizara de “cortina de ferro”. A expressão passou a ocupar lugar de destaque nos jornais, emissoras de rádio e de TV do mundo ocidental, quando se tratava de tomar partido na Guerra Fria contra os países integrantes do Pacto de Varsóvia.

O curioso é que o episódio, até hoje desconhecido por boa parte da população brasileira, mereceu apenas um registro (nota coberta) no Jornal da Globo, em 1989. O locutor descreve, num texto curto, as imagens de alemães atravessando a pé a fronteira entre a Hungria e a Áustria, na região de Sopron. A impressão é de que aquilo poderia ser um rompante idealista de um guarda de fronteira, quando na realidade se tratava de uma decisão de Estado.

Os documentários de TV “O sonho de Budapeste” e “A embaixada em Praga”, ambos produzidos por Joseph Stader e exibidos tempos atrás pelo canal GNT de TV por assinatura, trazem relatos comoventes de pessoas que largaram praticamente tudo por uma chance de alcançar o lado austríaco. Vale lembrar que, impedidos de chegar ao lado ocidental, centenas de alemães costumavam atravessar a Tchecoslováquia no verão para passar as férias às margens do Lago Balatan, na Hungria. Era o pretexto de que precisavam para planejar fugas em massa. Estima-se que entre agosto e setembro de 1989, dois meses antes da queda do muro, havia 60 mil alemães orientais acampados na Hungria aguardando o momento de cruzar a fronteira.

Mas nem todos tiveram a mesma sorte. O documentário mostra que Werner Schultz morreu após levar um tiro de fuzil de um soldado da chamada milícia dos trabalhadores, ligada ao Partido Comunista, ao tentar atravessar a zona de exclusão com a mulher e o filho. A mãe e a criança conseguiram escapar.

A construção, com 155 quilômetros de concreto na cidade e arredores de Berlim, estendia-se sob a forma de cerca de arame farpado e 1 mil torres de controle ao longo dos 900 quilômetros de fronteira entre as duas Alemanhas tomadas como botim de guerra. Significava um divisor inflexível entre o mundo capitalista, representado pela República Federal da Alemanha (RFA), beneficiada pelo Plano Marshall, e o bloco comunista, personalizado pela República Democrática da Alemanha (RDA), integrante do Pacto de Varsóvia. A Guerra Fria e seu muro inspiraram livros, filmes, músicas e serviram de pano de fundo para uma luta surda entre os serviços de espionagem dos países que saíram vencedores da Segunda Guerra Mundial.

Duas décadas após a queda do muro e 19 anos depois da reunificação, a Alemanha enfrenta problemas sérios para conciliar as relações políticas, sociais e econômicas a que os trabalhadores alemães se acostumaram em 40 anos de coexistência nem sempre pacífica. Os investimentos maciços da Alemanha Ocidental na modernização do parque industrial do lado oriental e os esforços de reciclagem da mão-de-obra operária ainda não surtiram os efeitos desejados para garantir uma reunificação de fato. Mesmo sem o muro, os mundos do trabalho e das relações sociais continuam a impor barreiras.

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