REALENGO, 7/4/2011

De que monstro falamos?

João Batista de Abreu

A chacina da Escola Municipal Tasso da Silveira, em Realengo, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, se reveste de aspectos surpreendentes, seja pelo caráter inédito da ação violenta, seja pela morte de 12 jovens e adolescentes de camadas médias. Algo aparentemente sem razão que ameaça o que chamamos de índole pacífica da sociedade cristã brasileira.

O drama das famílias, o relato dos sobreviventes, a disposição do policial, o perfil do atirador, o comportamento introvertido, as denúncias de bullying, a carta deixada pelo jovem Wellington Menezes de Oliveira, de 24 anos, com detalhes sobre como gostaria de ser sepultado. Todos esses fatores compõem um caldo jornalístico capaz de consumir a atenção de qualquer leitor.

Mas o que tem essa tragédia de desconcertante aos olhos do poder público e da sociedade civil? O que agrava a sentimento de inconformismo e de injustiça social, além da sensação de impotência do Estado?

Como espelhos

Certamente, a ausência de um culpado vivo. Alguém que pudesse ser preso, ameaçado de linchamento, condenado e exposto à execração pública, como se fosse capaz de aplacar o profundo sofrimento das famílias. Para preencher esse vazio, jornais de viés sensacionalista cunharam a expressão “monstro de Realengo”. Outros buscaram nas entrelinhas da carta deixada pelo jovem vestígios de terrorismo e estimularam, mesmo que indiretamente, um sentimento antimuçulmano, uma vez que nos últimos anos boa parte dos atos violentos, de natureza política, são atribuídos a grupos radicais islâmicos.

Tudo isso coroado pelas palavras apressadas do governador Sérgio Cabral – travestido de psiquiatra – que diagnosticou um quadro psicótico para o assassino. Como se o cenário brasileiro não mostrasse rotineiramente casos de “esquizofrenia política” a cada véspera de eleição.

Religião, medo, violência e ignorância são ingredientes indispensáveis a um caldo cultural que faz florescer preconceitos. Se não tiverem cuidado, os meios de comunicação podem cozinhar em fogo alto esse prato de preconceitos. Não é preciso conhecer muito de psicologia social para saber que pessoas execradas publicamente numa situação extrema podem com o tempo transformar-se em mártires e servir de espelho para atos semelhantes. Estado e meios de comunicação não constroem heróis, nem mártires, nem beatos, mas ajudam muito a globalizar suas personalidades.

Quinze minutos

E nada melhor para reforçar a idéia de martírio do que enterrar Wellington em plena Sexta-feira Santa, porque venceu o prazo legal de 15 dias para a reivindicação do corpo pela família. Menos mal que tenham realizado o sepultamento no Cemitério São Francisco Xavier, no Caju, e não no Cemitério de Santa Cruz, reservado aos indigentes.

A ressurreição midiática não acontecerá no terceiro dia, mas pode cristalizar-se na repetição de chacinas semelhantes, praticadas por jovens que também sofrem de desvios comportamentais e se sentiriam gratificados com os 15 minutos de glória previstos por Andy Warhol.

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