CARLOS MARIGHELLA

Da Aliança à ação

João Pedro Soares

Baiano, guerrilheiro e poeta erótico. Este era Carlos Marighella, o inimigo número um da ditadura militar brasileira. Em entrevista ao Cale-se, Mário Magalhães, autor da mais completa biografia sobre a principal liderança da luta armada, Marighella, o guerrilheiro que incendiou o mundo, falou sobre a relação de Marighella e das organizações guerrilheiras com a imprensa e contou histórias inusitadas presentes no livro.

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Carlos Marighella

Natural de Salvador, Marighella ficou famoso na cidade por responder a uma prova de física em versos. O que não significava um baixo conhecimento da disciplina, tanto é que cursou Engenharia Civil na Escola Politécnica da Bahia até ingressar no PCB, em 1934, quando abandonou o curso. Fundou a Ação Libertadora Nacional (ALN), maior organização guerrilheira durante a ditadura militar, e foi assassinado pelo Estado brasileiro em 1969.

Após nove anos de trabalho, Mário lançou finalmente a obra que lhe demandou tanto trabalho em pesquisas e entrevistas. O premiado jornalista, que já foi repórter especial e ombudsman da Folha de São Paulo, buscou, no livro, apresentar ao público o que havia em Marighella além do famoso guerrilheiro. O amigo de Jean-Paul Sartre, Joan Miro e Gláuber Rocha e companheiro de cela de Graciliano Ramos no Estado Novo foi uma fonte extensa de histórias sobre o passado brasileiro e funcionamento dos grupos guerrilheiros.

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Mário Magalhães

Cale-se: O que foi possível constatar sobre a relação de Carlos Marighella com jornalistas durante a luta armada?

Mário Magalhães: Marighella chegou a dirigir jornais do PCB. Por exemplo, em 1960, os comunistas tinham um jornal diário no Rio para apoiar a candidatura presidencial do general Henrique Lott contra a do Jânio Quadros, que acabou sendo vitoriosa. Foi um jornal que durou poucos meses, chamado “Hoje”. O diretor era o Marighella; o diretor chefe faleceu fazem poucos meses, Luiz Mario Gazzaneo; o tesoureiro, João Saldanha, aquele que depois viria a ser técnico da Seleção Brasileira; o colunista de futebol, Didi – como é que os comunistas conseguiram o Didi de colunista? João Saldanha; o colunista social: Milton Coelho da Graça, que viria a dirigir várias publicações no país, entre elas O Globo. O Armênio Guedes também trabalhava no comando do jornal. Aí houve uma reunião lá com o Marighella e o Prestes pra decidir como ia ser o novo jornal. Então o pessoal comentou: “vamos precisar de carros”. Ai o Marighella e Prestes responderam prontamente “não, vai ficar tudo bem, temos os carros”, aí o João Saldanha virou pro Gazzaneo e falou: “ih, tá muito estranho isso aqui, vai dar merda”. Semanas depois o Lott perdeu a eleição e acabou o dinheiro que eles recebiam, então o jornal quebrou. O Marighella sempre foi muito ligado à imprensa comunista. E o Partido Comunista tinha legiões de militantes jornalistas, grandes jornalistas, como Carlos Lacerda, comunista na juventude. O primeiro grande baque no grupo de jornalistas comunistas foi no racha entre 1956 e 57, com a revelação dos crimes do Stálin. Boa parte das redações de publicações comunistas no Rio não quis continuar no partido. Grandes jornalistas, vou citar Milton Rodrigues, Zanetti de Castro, Isaac Akcelrad, muita gente boa, Aydano Couto Ferraz e muitos outros. Mas mesmo assim o partido continuou forte e tinha uma imprensa muito importante. A primeira capa do semanário comunista, do fim dos anos 50 até o golpe, foi sobre Yuri Gagarin, primeiro homem a viajar no espaço. E a manchete é linda: “Vitória do socialismo: o homem já pode ver as estrelas de perto”. Quando eu vi na Biblioteca Nacional, falei “Essa página tem que entrar no livro”, e a pagina tá lá inteira, no segundo caderno de imagens, são três cadernos. Quando Marighella vai para a guerrilha, a verdade é que ele passa a achar secundário manter uma imprensa partidária. Do instante em que Marighella volta de Cuba, em novembro de 77, até ser morto em novembro de 79, o jornal que deu origem à ALN, “O Guerrilheiro”, em São Paulo teve somente uma edição, não mais do que isso. No fundo, ele achava que não era importante o funcionamento da imprensa partidária, ao contrario do militante que dirigia a ALN com ele, um grande jornalista, Joaquim Câmara Ferreira, o Toledo. Tanto que depois que o Marighella morre, a primeira coisa que o Toledo faz é rearticular a imprensa partidária. Imprensa na qual tem uns poemas do Marighella inéditos até hoje, que estavam na imprensa partidária. Para vocês terem uma ideia, quando o embaixador americano é sequestrado, no dia 4 de setembro de 1969, quem redige o manifesto são dois jornalistas, Franklin Martins, da organização que a partir de então passou a se chamar MR-8 (ex-ministro, estava no lançamento do livro em São Paulo, me deu essa honra na semana passada) e o Joaquim Câmara Ferreira, que fez emendas. E havia mais um jornalista, que era o Fernando Gabeira na casa. Havia muitos jornalistas na luta armada. Mas a visão que o Marighella tinha de imprensa não era a visão que o Partido Comunista tinha da importância de ter um porta-voz estreito próprio. Embora o que o Marighella persiga até o fim da vida seja chegar aos ouvidos e olhos da população, por isso as invasões de rádio para leituras de manifestos e por isso várias outras iniciativas. E o livro trata disso, gente, como em 68 o Jornal do Brasil publica inteiro um documento do Marighella. Em 69, depois do AI-5 em 13 de dezembro de 1968 isso já é impossível. Tem um capítulo tratando de comunicação, imprensa e jornalismo no livro, chamado “Quem não se comunica se trumbica”, que era uma expressão do Abelardo Barbosa Chacrinha, o maior comunicador que o país já teve, e que era adorado pelo Marighella. Ele não tinha militância política, mas a censura, a repressão não simpatizava com ele, porque o “caos anárquico” do programa era um incentivo à rebeldia contra o governo de então.

Cale-se: Além das publicações partidárias, havia algum mecanismo a fim de manter contato com a imprensa?

Mário: A ALN dirigiu uma redação de jornal em São Paulo. Na redação da Folha da Tarde, em São Paulo, o diretor colaborava com a ALN; o chefe de reportagem, Frei Beto, era militante da ALN; o editor do caderno de variedades, Luiz Roberto Clauset, militante da ALN, a repórter do caderno de variedades, Rose Nogueira, militante da ALN. Vários outros colaboradores da ALN, e isso tá explicado em detalhes no livro. Por exemplo, a ALN não foi a primeira organização armada a tomar uma rádio e divulgar um manifesto, o problema é que alcançava a audiência normal da rádio e morria ali, porque ninguém mais podia publicar o manifesto. Quando eles invadem a Rádio Nacional de São Paulo, que era a rádio de maior audiência do estado, no programa policial matinal, o de maior audiência. O problema deles era como fazer para publicar um texto que a audiência da rádio tá ouvindo e fazê-lo chegar a mais pessoas. E ai eles comunicaram ao diretor de um jornal em São Paulo, que se chamava Hermínio Sachetta. Isso vem no capítulo “Quem não se comunica se trumbica”. Aí ele chega, publica e vai preso. O único cara que paga imediatamente com prisão e desemprego por cinco anos. A operação da rádio era contra a luta armada, então ele publicaria o manifesto para ajudar. É a ideia do Marighella, com base no manifesto que é publicado, “Ao povo brasileiro”, e acaba tendo repercussão. Ele não invadiu a rádio, nem gravou a mensagem, mas o texto era dele e dizia que o ministro dos transportes de então, o coronel Mario Andreazza, era ladrão, chamava de ladrão, gatuno. O Mario Andreazza vai para as páginas amarelas da então jovem revista Veja responder ao Marighella. Ele cria um círculo de notícia e discussão que foi muito bem sucedido da parte do Marighella. Aí eu questiono no livro, por que o Andreazza parecia tão ingênuo a ponto de ir à Veja repercutir o manifesto do Marighella, o qual já tinha morrido ali em São Paulo, e tal? Provavelmente era pra dar satisfação aos pares do próprio Frei Betto, envolvido em disputas internas, de que não era corrupto, né. A invasão da Rádio Nacional em São Paulo não foi nada perto do que foi no Rio de janeiro, à meia-noite e pouco, entrando um locutor ao vivo e lendo o manifesto do sequestro do Charles Elbrick. O sequestro não era só a ideia de libertar companheiros para salvar a vida deles. Era também furar a censura. E ganharam. O manifesto foi publicado em todos os jornais do Rio e o manifesto foi lido na rádio e na televisão. Ganharam!

Dentro da ALN tinha imprensa, em muitas redações era muito forte, muito influente na Editora Abril. Havia um jornalista ex-militante da ALN que estava começando. O Marighella já tinha sido morto, e ele conseguiu autorização do Câmara Ferreira para, ao invés de pegar armas no serviço militar, estagiar como jornalista na Editora Abril.  O nome dele é Juca Kfouri, entrevistado e personagem do livro. Já fez uma coluna linda sobre o Marighella e a memória dele de militante da ALN. Estava no estádio vendo Corinthians e Santos quando os alto-falantes anunciaram a morte do Marighella. Então, a luta armada tinha muitos pés dentro do jornalismo. Depois do AI-5, os espaços para divulgação das ideias da luta armada foram reduzindo muito.

Cale-se: Carlos Marighella vivenciou as duas maiores ditaduras brasileiras. Quais as diferenças do Marighella da resistência ao Estado Novo em relação ao da ditadura militar?

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Capa do Livro

Mário: Marighella viveu o Estado Novo, no qual durante a maior parte do tempo o PCB apoiou Getúlio. Em julho de 1940, o comitê central inteiro do PCB tava preso. Marighella não era do comitê central ainda. Então eles apoiavam Getulio. O Partido Comunista racha e Marighella é mandado para São Paulo em 1937, porque o comando do PCB, então chefiado por um cara de apelido Bangu, de Mossoró, RN, resolveu apoiar José Américo de Almeida, grande escritor paraibano. Não havia ainda o Estado Novo, que entra em vigor por golpe em novembro e cancela eleições de 38. Se me derem a honra de ler o livro, vão ver que Marighella, chefiando parte minoritária do PCB que rachou em São Paulo tinha uma política de combater o flanco fascista do governo Getúlio. Eles combatem os integralistas e os pró-eixo nazifascista entro do governo. Ai quando vem a ditadura, ele diz “Estou de saco cheio de meios termos, composições e manifestos. A mesa de reuniões não reúne mais os revolucionários, o que reúne é a ação. Quem quiser ir pro pau vai”. É assim mesmo, ele escreve assim! Estavam discutindo na organização treinamento de luta pessoal, “Treinamento de luta pessoal? luta é dedo no olho, chute no saco e acabou”. Este é o Marighella guerrilheiro. Agora, o Marighella foi preso em 1936, quando ele passou três semanas na tortura. Tá dito no capítulo “Três semanas no inferno”. Ele estava organizando toda a imprensa, ele que levava os jornais e panfletos para imprimir, ele que distribuía, era uma coisa muito importante. Na época da guerrilha isso já é secundário, embora ele nunca tenha escrito tantos manifestos quanto na guerrilha. Eles imprimiam. O problema era como fazer chegar à população. A imprensa não publicava, uma parte porque tava censurada, outra parte porque apoiava não só a ditadura, mas seus órgãos de repressão mais pesados.

Em 66, já havia mais de uma ordem de prisão contra ele. Ele compôs e imprimiu livros de poesias na gráfica de um cunhado ali na zona portuária, um português casado com uma irmã dele, dona Tereza, a última dos 8 irmãos vivos. Ainda entrevistei, mas ela já faleceu. Ele distribuía livros de poesias, que o Jacob Groender, que não sabe como ele fazia, diz no “Combate das Trevas” que eram algo espetacular. Mas os poemas que dão o tom desse livro de 66 não são políticos, são eróticos. Isso era o Carlos Marighella.

O problema todo era como fazer chegar essa mensagem às massas. Vocês vão ver num capítulo chamado “É melhor ser alegre que ser triste”. Ele se trancava aqui no subúrbio, em Todos Os Santos. Não sei se algum de vocês aqui é do subúrbio aqui. Tem uma tradição no Rio hoje de achar que só tem um bairro no subúrbio, que se chama Méier. Agora o pessoal descobriu que tem o Engenho de Dentro por causa do Engenhão. Tem um monte de bairrozinho, como o Lins, e tem um ali que se chama Todos Os Santos, que é onde ele tinha o aparelho dele, seu último esconderijo, que literariamente me permite contar que quem tinha nascido na Bahia de todos os santos, tava em casa ali, né. O clipe dos Racionais tem um pouco desse áudio (a que ele se referia). É ele gravando mensagens para serem colocadas nos alto-falantes das praças do país. E o legal, pra Fortaleza, pro Doutor Silvio Mota, foi uma fita, entre um manifesto e outro, Martinho da Vila cantando. E aqui foi um desafio de descobrir. Acabei nem tendo que recorrer ao Ruy Castro, que mataria a charada, porque a internet resolveu. A gravação é muito ruim. Das quatro músicas, entre manifestos, que ele botava no toca-discos, as três mulheres que frequentavam lá me contaram de uma vitrolinha em que ele colocava o disco, só que era instrumental, muito mal gravado. Das quatro músicas reconheci três. Descobri que a quarta era de um disco instrumental do Milton Banana Trio de 68. Uma delas era o “Samba da Benção”. Apesar de instrumental, evocava a letra, “é melhor ser alegre que ser triste”. Pô, o cara é inimigo público número um, não podia sair de casa, e este era o espírito dele.

***

João Pedro Soares é estudante de jornalismo e bolsista do projeto de extensão Afasta de mim este Cale-se, da Universidade Federal Fluminense, em Niterói (RJ)

 

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