Protestos na Turquia

Os soldados de Ataturk

Simone Gugliotta

Em Antalya, no sudoeste da Turquia, em praça pública, o clima de protestos tem sido pacífico se comparado aos protestos na capital Ankara e, principalmente, na praça Taksim, em Istambul. Para evitar confrontos com a polícia, o município de Antalya decidiu não fornecer água para que não seja usada em forma de jatos contra os manifestantes (de acordo com a agência turca HurriyetDaily News). Os encontros na praça parecem um evento social e reúnem pessoas de todas as idades. Em Anatalya, muitas bandeiras, palavras de ordem, muita cerveja ao ar livre (já que este é um dos hábitos que o primeiro-ministro Recep Tayyip Erdoğan condena e quer proibir) e muita conversa boa para não ser jogada fora, enquanto se espera pelas próximas eleições, em 2014. Conhecida pelo turismo, pelo mar azul turquesa e pela belíssima parte antiga chamada Kaleiçi, Antalya também tem uma universidade pública, a Akdeniz, com 42,5 mil estudantes, como informa o site da instituição.

vista Antalya

vista Antalya

“Nós somos os soldados de Atatürk”, gritam os jovens em marcha nas ruas de Antalya. Em protesto contra o primeiro ministro e seu conservador Partido Justiça e Desenvolvimento (AKP), os jovens relembram Artatük, referindo-se ao homem que estabeleu a democracia e a modernidade ocidental na Turquia após a Primeira Guerra Mundial.

Recém chegados à Turquia, apenas começando nossas férias em Antalya, não havíamos entendido o significado exato das palavras, mas percebemos logo que se tratava do mesmo protesto que começou em Istambul, em maio deste ano e passou à capital Ankara e agora está presente em outras 70 cidades do país.

Enquanto as pessoas iam a pé ou de carro em direção à praça principal da cidade, a Cumhuriyet Meydanı, perguntamos a uma jovem que agitava a bandeira turca o que todo esse movimento representava para ela. Visivelmente emocionada com a nossa curiosidade, ela nos respondeu que a Turquia está unida neste momento. “O governo não pode nos tirar a liberdade que conquistamos. Somos uma sociedade moderna e queremos continuar assim. Somos os soldados de Atatürk, como eles estão gritando”. A moça é proprietária de um pequeno café no centro da cidade nova de Antalya.

Antes de nos unirmos ao grupo que protestava, caminhamos um pouco mais para tomar um “chay” o típico chá turco e no pequeno restaurante conhecemos uma família – pai, mãe e filha de 15 anos, que também estavam a caminho da praça para protestar. Os pais não falavam inglês, a filha adolescente sim. Vestida, com uma blusa com a bandeira turca e a foto de Artatük, a adolescente nos falou da importância deste momento em sua vida porque ela quer manter a liberdade que tem. E os pais, através da tradução feita pela filha, nos falaram sobre Atatürk e de alguns de seus feitos.

Artatürk consolidou Ankara como a capital turca, expulsou os gregos, reconquistou territórios turcos e deu fim ao sultanato. Originariamente Mustafa Kemal, ele acrescentou o nome Artatük, ou literalmente o “Pai dos Turcos” e emergiu como o herói na década de 1920, durante o fim da Primeira Guerra Mundial. Foi ele quem instaurou a moderna sociedade turca que, como no ocidente, representaria a criação de uma nação estado, mudando a configuração de séculos de co-existência de diferentes grupos étnicos.

Entre as suas reformas em prol da modernidade: a adoção do calendário gregoriano, do alfabeto e escritura romana, os sobrenomes que não eram até então usados pelos turcos, a instituição do sufrágio universal, entre outras ações. As mudanças feitas por Atartük foram importantes para os turcos quando o país se encontrava devastado por muitos anos de guerras. No entanto a consolidação do Império Otomano com o intuito de criar um estado-nação democrático deixou de fora a cultura curda que até hoje sofre as consequências. Contudo, o retorno à figura dos Pais dos Turcos não repercute da mesma forma para todos os turcos. Um músico que conhecemos, apesar de admitir a importância histórica de Artatürk e de sentir orgulho da força que os jovens turcos têm demonstrado nas últimas semanas de manifestações, acredita que chegou o momento de buscar outros modelos de liderança para seguir.

Praça Antalya

Praça Antalya

Voltamos à praça na tarde seguinte e já decidimos que vamos a cada praça principal todos os dias de nossas férias na Turquia. Passamos também por Kaş (lê-se Kash), outra cidade de mar no sudoeste da Turquia, onde também há protestos em praça pública, mas com menor número de participantes. Em Kaş há, no entanto um abaixo assinado para que o nome parque que está sendo construído, se chame Gezi, em homenagem ao parque em Istambul onde o governo quer construir o shopping mall e que foi o estopim para as manifestações no país.

***

Vamos ficar aqui até dia 17 de junho. Depois vamos à Grécia e à Itália, mas no dia 1 de julho vamos voltar à Turquia. Iremos diretamente à Istambul onde ficaremos até o dia 4 de julho, quando voltamos para Massachusetts.

Simone Gugliotta é ex-aluna do curso de Jornalismo da UFF. Atualmente cursa o doutorado em “Language, Literacy and Culture” na University of Massachusetts/Amherst, onde também ensina italiano. Simone também é professora de português no Smith College.

 

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