Gigante adormecido

Desperta e sonha acordado

As manifestações recentes em praticamente todas as capitais do país e mais de 80 cidades de médio porte, desencadeadas pelo Movimento Passe Livre, exigem a redução do preços das tarifas de transportes coletivos e a melhoria na qualidade do serviço. Os atos reúnem estudantes e trabalhadores dos mais distintos matizes sociais e ideológicos. O movimento se apresenta como apartidário, mas não se pode negar que reflete uma atitude política de indignação com autoridades, parlamentares e empresários que se beneficiam de concessões públicas e de obras sob suspeita de superfaturamento. Em meio a ações radicais de um pequeno grupo de manifestantes e atos de violência por parte da polícia, aqueles que vão às ruas para documentar as manifestações ocupam a linha de frente e são alvo de agressões e arbitrariedades. Um dos exemplos deste abuso de poder foi a prisão do estudante de Jornalismo da UFF Wesley Prado, que fotografava o ato público anteontem no centro do Rio. Wesley passou nove horas na delegacia e só saiu depois de pagar uma fiança de R$ 1 mil.

Brasileiros em Portugal também vão às ruas

Sandra Amâncio

 “Democracia não tem fronteiras”. A frase define o grupo de brasileiros que se manifestaram, nesta terça-feira (18), no Porto em apoio às manifestações que  acontecem no Brasil. De acordo com a polícia local, cerca de 300 pessoas participaram do ato, que durou duas horas e foi realizado na Praça da Liberdade, localizada numa das principais avenidas da cidade mais populosa do país.

A manifestação durou cerca de duas horas

A manifestação durou cerca de duas horas / Sandra Amâncio

Desde semana passada, um grupo foi criado na rede social Facebook para organizar a manifestação que reuniu brasileiros que moram não somente no Porto, mas também em cidades vizinhas, como Guimarães, Braga e Aveiro. Além de reivindicar a redução nas tarifas dos meios de transportes, o ato também levantou questões como a dos altos recursos públicos investidos nas obras para a Copa do Mundo de 2014, a falta de investimento em saúde e educação e a PEC 37 – a Proposta de Emenda Constitucional que limita o poder de investigação do Ministério Público.

Para a estudante de Direito Jana Maurer, da Universidade Federal do Paraná, a manifestação deixou claro que não há fronteiras para a democracia (frase exposta na capa do grupo na rede social). “O fato de estarmos longe do nosso país não pode ser um impedimento para que participemos desse momento único. Ainda que a pressão não seja a mesma como se estivéssemos nas ruas brasileiras e próximos daqueles que nos governam, o fato de reunirmos tantas pessoas numa cidade de Portugal mostra a expressividade do movimento e de como é possível participar mesmo morando no exterior”, destaca Jana, que é do Paraná e está estudando na Universidade do Porto.

A manifestação foi organizada em sua maioria por estudantes de intercâmbio, mas também contou com a participação de turistas e brasileiros que já moram há anos em Portugal. Com cartazes, rostos pintados e bandeiras do Brasil no corpo, eles cantaram o hino nacional e músicas marcantes na história do país como “Pra não dizer que não falei de flores” do cantor e compositor Geraldo Vandré – canção que se tornou um hino de resistência do movimento civil e estudantil nos anos 60 contra a ditadura militar.

A passeio na cidade, Maria de Jesus Guimarães, de 81 anos, foi surpreendida com a manifestação. “Estava caminhando aqui pela rua quando vi várias pessoas com a bandeira do Brasil. Daí, eu me dei conta do que estava acontecendo e não quis ficar de fora”, disse Maria, que veio a Porto para visitar a filha. Para a aposentada, esse é um momento especial que o Brasil vive. “O povo tem mesmo que levantar e lutar em busca de mudanças no nosso país. É um absurdo a PEC 37, é um absurdo as pessoas não terem atendimento decente nos hospitais”, destaca.

Para promover a manifestação, os estudantes pediram autorização à Câmara Municipal e também à Polícia local. A única exigência feita era de que o trânsito não fosse interditado. O ato público foi acompanhado por apenas dois policiais. Um deles, Jorge Rocha, comentou: “Vocês (brasileiros) estão certos em se manifestar contra os gastos financeiros causados pela Copa. Os portugueses não fizeram isso quando bilhões de euros foram gastos em estádios durante a Copa da Uefa, em 2004, em Portugal”.

Para a estudante de jornalismo da Universidade Federal Fluminense (UFF) Bárbara Abreu, o resultado da manifestação foi positivo. “Acho que conseguimos dar visibilidade por aqui ao momento que o Brasil está vivendo e às nossas principais reivindicações”, conclui Bárbara, que, no momento, faz intercâmbio na Universidade do Porto.

Ato foi realizado na Praça da Liberdade, uma das principais na cidade do Porto / Sandra Amâncio

Ato foi realizado na Praça da Liberdade, uma das principais na cidade do Porto / Sandra Amâncio

Manifestações sem fronteiras pelo mundo

Também foram realizadas na terça-feira, dia 18, manifestações em Lisboa e Coimbra, em Portugal; Londres, na Inglaterra; Barcelona e Madri, na Espanha; Buenos Aires, na Argentina; Sidney, na Austrália; Hamburgo, na Alemanha; e Toronto, no Canadá. Cidades como Berlim, na Alemanha; Dublin, na Irlanda; Montreal, no Canadá; e Washington, nos Estados Unidos foram palco de atos de apoio aos brasileiros durante o último final de semana. O grupo “Democracia não tem fronteiras”, no Facebook, mostra que estudantes brasileiros ainda realizarão manifestações em outros países como França, Japão e Bélgica. No total, são 61 cidades espalhadas pelo mundo que já receberam ou receberão as manifestações.

E não são apenas os brasileiros que, mesmo do exterior, demonstram  apoio ao país. No dia 1ª de junho, turcos que moram na Suíça fizeram manifestação em frente ao escritório das Nações Unidas, em Genebra, para declarar apoio aos estudantes da Turquia, que durante os seus atos contra as políticas conservadoras do governo estão sendo recebidos violentamente com balas de borracha, gás lacrimogêneo e jatos de água pela polícia. Ainda foram realizadas manifestações no início de junho em apoio aos manifestantes turcos em outras cidades do mundo como Amsterdã, na Holanda; Viena, na Áustria; e em Nova York, nos Estados Unidos.

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Sandra Amâncio é estudante de Jornalismo da UFF e faz intercâmbio na Universidade do Porto.

 

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