O protesto em quatro movimentos

As Manifestações na cidade de São Paulo

A onda de manifestações que tomou a maior cidade do país corre sérios riscos de se perder em meio a causas e multidões

Daniela Trindade

Quem participou das primeiras manifestações em São Paulo, contra o aumento da passagem de ônibus sente agora uma espécie de frustração pelo rumo que os protestos tomaram. Aumentar a quantidade de pessoas, não garante que a causa seja legitima ou que os objetivos sejam alcançados.

O dia 11

No dia 11 de junho, ao passar na Praça da Sé, percebi uma correria e demorei alguns segundos para entender que eram manifestantes que vinham do Terminal Parque Dom Pedro. Aqueles dos quais eu ouvia falar e acompanhava apenas pelos noticiários ou pelo facebook. Estavam todos sendo cercados pela tropa de choque da PM, em frente à Catedral da Sé. Até aquele momento, apesar de apoiar o movimento, não havia decidido se participaria das manifestações. Vi naquele dia cenas que me chamaram a atenção: Um grupo organizado, com gritos e cartazes, e a polícia cercando e atirando bombas sem motivo aparente. No caminho para a faculdade, resolvi que estaria entre aqueles estudantes da próxima vez.

O dia 13

Bastava dar mais atenção ao assunto para perceber que a mídia claramente (e não é novidade) estava ao lado da polícia, da prefeitura e de tudo que vai contra o movimento. Apesar disso, a ideia foi rapidamente disseminada nas redes sociais e ganhou força. O evento, criado no facebook pelo Movimento Passe Livre, chegava a mais de 30 mil confirmados para a passeata do dia 13 de junho, que teria início em frente ao Teatro Municipal.

Acompanhar de perto e se sentir parte é diferente. Você começa a entender a dimensão daquilo, a força que a população tem e a legitimidade da causa. Uma multidão de aproximadamente 20 mil pessoas saindo do teatro e seguindo pela Avenida Ipiranga, para subir a Rua da Consolação até a Avenida Paulista. Um trajeto razoável que passa por avenidas importantes do Centro, e prédios como o da Secretaria da Educação e o Tribunal de Justiça. Quando paramos em frente à Praça Roosevelt, os organizadores do Movimento Passe Livre, pararam para negociar com a polícia a subida até a Paulista. Foram cerca de dez minutos de conversa, tempo necessário para sermos cercados pelo Choque, que assim que assumiu o controle, atacou pessoas que cantavam e seguravam cartazes. Um verdadeiro desastre. Milhares de pessoas encurraladas e tentando se esquivar de tiros de borracha e das bombas que caíam sem parar.

O dia 13 de junho significou um marco para os protestos em São Paulo, e definiu o futuro da cobertura da mídia e aceitação da população. A polícia agiu com covardia. Os manifestantes foram até a Avenida Paulista, sendo empurrados pela truculência militar. A sensação de impotência tomou conta daqueles que chegaram ao destino final, mas continuavam sendo atacados por quem queria apenas controlar o trânsito e manter a ordem.

Chegar em casa e ver toda aquela bobagem que a televisão noticia foi terrível. Mas até os jornais sabiam que não poderiam esconder ações como aquelas tomadas pela PM na noite do dia 13. Lentamente os erros da polícia foram sendo expostos, enquanto a próxima manifestação marcado na Zona Sul da cidade, explodia, chegando a 300 mil participantes.

Barreira policial na Rua da Consolação - ato do dia 13 de junho de 2013 por Robson Shaq

Barreira policial na Rua da Consolação – ato do dia 13 de junho de 2013 por Robson Shaq

O dia 17

A segunda-feira, dia 17, foi a redenção. Mais de 100 mil pessoas nas ruas cantam o Hino Nacional e carregam suas bandeiras, sentindo-se orgulhosas por ser um dia tão diferente do último em que fomos às ruas. Levamos todas as emissoras de TV e jornais do país a cobrir o que realmente significava lutar pelos direitos e viver em democracia. Tudo isso em um ponto muito importante da cidade, a Ponte Estaiada, em frente à Rede Globo.

Com tanta repercussão, o prefeito Fernando Haddad (PT) e o governador Geraldo Alckmin (PSDB), resolveram no dia 19 revogar o aumento da passagem de ônibus. Os mesmos que deram ordens para o ataque do dia 13, e que chamaram de “vândalos” aos que protestavam. Isso é a prova de que a causa da população é genuína, e que aumentar a passagem foi o estopim para reivindicações ainda maiores. É ótimo para a cidade ganhar essa luta, é digno reclamar do que fazem com o seu dinheiro, e não aceitar qualquer desculpa daqueles que deveriam trabalhar por nós, mas agem como carrascos.

Depois de uma semana com muita batalha e uma vitória suada, surgiu um problema maior que qualquer violência por parte da polícia, pior até que o descaso de quem governa: a falta de informação. Quanto mais pessoas aderem ao movimento, cresce também o número daqueles que não têm a menor ideia do que estão fazendo nele. Estar na era da tecnologia, da informação e das redes sociais é maravilhoso, e perigoso. Os protestos que se seguiram contaram com um grande número de pessoas. Afinal todos estão empolgados com a vitória recente. Mas aumentaram também os grupos de extrema direita que querem desestabilizar e dividir o movimento. Essa paixão repentina da mídia pelos protestantes é assustadora, e não é para menos!

Av. Brigadeiro Faria Lima, 100 mil pessoas na zona sul de São Paulo, no dia 17 de junho de 2013 por Robson Shaq

Av. Brigadeiro Faria Lima, 100 mil pessoas na zona sul de São Paulo, no dia 17 de junho de 2013 por Robson Shaq

O dia 20

É surreal pensar no que presenciei no último protesto, dia 20, na Avenida Paulista (e último, digo, justamente porque fiquei decepcionada com o rumo que tomou). Quem estava presente não tinha objetivo definido, nem os gritos tão comuns dos últimos dias soavam com a intensidade de antes. Pessoas rodando de um lado a outro da avenida, tirando fotos e tomando cerveja, como se estivessem na festa mais lotada da faculdade. Em minha timeline choviam atualizações absurdas de pessoas que (me perdoem se parece grosseiro), nunca foram às aulas de História no ensino fundamental. E para o meu desespero, não ficou só por aí. Milhares de pessoas se ajoelharam diante do prédio da FIESP (que em seu painel luminoso exibia a bandeira do Brasil), para cantar o Hino Nacional. Sim, o prédio da FIESP, Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, um dos mais emblemáticos símbolos da concentração da riqueza do país. Fora um bando que gritava sem parar para que os militantes dos partidos abaixassem as bandeiras. Alguns senhores, que provavelmente lutaram contra a ditadura, sendo agredidos verbalmente (e mais tarde, fisicamente) por uma multidão de desinformados, que largaram a própria causa ou causa nenhuma, ao que parece, para tentar expulsar manifestantes de um ato democrático.

A luta continua? Sim, ela sempre vai existir. Mas isso está sendo feito todos os dias por pessoas sérias, sejam filiadas ou não a algum partido, sejam com ideias de direita ou de esquerda. O que não dá é pra aceitar que vire um carnaval fora de época. Não é bacana ver qualquer usuário do facebook criando um evento e atraindo milhares de pessoas, se não houver uma bandeira a ser defendida. O que está acontecendo agora, com bandidos se aproveitando das manifestações para saquear lojas é fruto disso. O movimento LGBT sempre esteve nas ruas. Os militantes de partidos que foram agredidos, nunca deixaram de lutar. Ser contra a PEC 37 quando você sabe do que se trata é muito digno. Conseguir revogar o aumento da passagem foi um grande passo, e nós não conseguimos vencer com cartazes sobre o “candy crush” ou com fotos no instagram. É preciso levar a sério, porque essa onda de amor que a TV tem agora por protestos não é normal. O que temos nas mãos é uma faca de dois gumes. Vence quem souber usá-la.

***

Daniela Trindade é estudante de Jornalismo da Faculdade Anehmbi Morumbi, em São Paulo.

 

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