Chico Otávio, repórter resgata

memória mascarada do Brasil

Rebeca Letieri

Você sabe o que é jornalismo investigativo? Quem defende a expressão explica que se trata de um trabalho aprofundado sobre um tema ou denúncia. Algo que demanda às vezes semanas de uma apuração quase sempre discreta e criteriosa. Um dos mais premiados e respeitados repórteres investigativos no Brasil é Chico Otávio, repórter do Globo e vencedor de seis prêmios Esso, o último em 2012. Ele também ganhou a VI Edição do Prêmio AMB de Jornalismo, pela série Ligações Perigosas, o Prêmio Previdência Social de Jornalismo 1998, o Prêmio Cláudio Abramo de Jornalismo 2000, com uma série de matérias sobre o Poder Judiciário Brasileiro, e o Prêmio Abrelpe de Reportagem 2002, além do Prêmio Ayrton Senna de Jornalismo 2001.

Chico Otávio

Chico Otávio

O repórter tem se dedicado a desvendar histórias ainda não reveladas que ocorreram durante a ditadura militar, buscando depoimentos de ex-presos políticos, parentes de desaparecidos e pessoas que participaram ou testemunharam ações do aparelho repressivo. Parte de seu cotidiano consiste em mergulhar em arquivos disponíveis sobre o período e garimpar revelações que ajudem a recontar a história recente do Brasil.

O jornalista Francisco Otavio, de 51 anos, carioca e botafoguense, formou-se pelo extinto Centro Unificado Profissional (CUP) e ao longo da carreira trabalhou como repórter nos jornais Última Hora, Jornal dos Sports, Nas Bancas e na sucursal Rio de O Estado de S.Paulo. Foi vice-presidente da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) e hoje leciona no curso de Comunicação Social da PUC-Rio. Chico Otávio concedeu uma entrevista exclusiva ao Cale-se.

Cale-se – Qual foi a maior dificuldade na investigação sobre os casos de torturadores e torturados?

Chico Otávio – Pra que eu possa formar uma agenda de trabalho produtiva, tenho que negociar bem o arquivo estadual. Porque ele é o guardião do acervo do Dops, e teve um papel importante até a criação do Sistema Nacional de Informações. Quem tinha atribuição para crimes políticos no Brasil ate dezembro de 1969 eram os Dops. Depois, com a AI-5, essa atribuição passou a ser dos militares. O acervo do Rio de Janeiro está guardado no Arquivo Nacional, e, além disso, tem o arquivo de DGIE (Departamento Geral de Investigações Especiais) da Policia Civil, que também tem desdobramento político. Entretanto, às vezes você consegue chegar à informação importante por vias indiretas, por referências secundárias. Você fala com outro órgão que não tem nada a ver com a sua pesquisa, mas que traz um objeto importante pro seu trabalho.

Existe essa filosofia política do arquivo de franquear o acervo somente para aqueles que estão referidos. Por exemplo, a pasta do Chico Buarque de Hollanda só pode ser requisitada pelo Chico ou alguém autorizado por ele. Qual é a razão disso? Eles alegam que o mau uso do acervo pode gerar um processo de responsabilidade civil contra o arquivo. Isso é uma experiência quase isolada do Brasil. O arquivo de São Paulo entende que qualquer um pode ter acesso ao acervo, desde que tenha um termo de responsabilidade, assumindo ônus do uso da documentação. Então por que não se faz o mesmo no Rio? Quando me perguntam se isso é censura, não, não é censura, mas é um golpe na transparência. Está me atrapalhando, eu não consigo ter acesso às coisas que eu quero porque o Arquivo Público do Rio, de uma forma muito particular, entende assim. Tem que dar um jeito de tourear os arquivos públicos do estado do Rio de Janeiro.

Cale-se – Por que o Rio de Janeiro, que foi um dos principais centros de repressão e tortura, demorou tanto a instalar a Comissão da Verdade estadual? ´

Chico – Não faço a menor ideia. É uma cultura de falta de transparência. As pessoas acham que guardar informação é guardar poder, compartilhar é perder poder, sei lá. Os arquivos aqui não têm uma cultura de acesso, de democratização da informação. É lamentável. Já no caso das investigações, concordo que elas têm que ser sigilosas. Lá no Arquivo Nacional é diferente. Eles abrem muita coisa. Mas aqui ainda existem situações inacreditáveis. Sabia que você tem que pagar uma taxa e recolher em espécie no Banco do Brasil? Você tem noção do que é isso? Já enfrentou uma fila no Banco do Brasil? Apesar disso, o material tá razoavelmente bem organizado, o tempo de resposta é muito bom e você tem uma ferramenta de busca muito legal, tirando o Banco do Brasil… Mas eu fui a Brasília, também tem isso, tem que ir a Brasília.

Cale-se – Qual foi seu trabalho sobre a confecção de matérias sobre o período de chumbo?

Chico – Em minha opinião, a principal ferramenta de trabalho do repórter que lida com esse período é o poder de convencimento. É você colar ali em um general, no coronel, no major, no tenente, no cabo, isso também é importante. Você chegar em um sargento e falar assim: “Olha, conta pra mim o que você sabe”, “Ah mas isso é revanchismo, eu vou ser preso, você é comunista”, “Eu não sou nada disso. Eu sou isento, não vou te prejudicar, não tenho opinião formada sobre punição, o que eu quero é a verdade”. A melhor forma que você tem é essa, convencer aqueles que operaram nesse sistema, já no fim da vida, a abrir o bico, e/ou entregar aquilo que eles têm guardado. Sinceramente, o resto é o resto.

Cale-se – Quais as diferenças entre fazer esse tipo de trabalho em um grande veículo e em um veículo menor, como você fazia antigamente?

Chico – Faz toda a diferença. Eu acabei de falar pra vocês que eu fui a Brasília. Já respondi a pergunta. Tem deslocamento. Uma vez entrevistei a Inês Etiene Romeu, única sobrevivente da casa de Petrópolis, a casa da morte, a única torturada que sobreviveu. Ela mora em Niterói e tem muita história pra contar. Se você for lá, viajar e tiver o dinheiro pra pagar o custo de uma pesquisa no Arquivo Nacional, na Junta Comercial, nos cartórios… Isso tudo só pode ser feito quando a redação te dá condições de fazer. Não tem outro jeito. É polêmico o que eu vou dizer, mas ainda é a empresa capitalista que financia a grande reportagem. Qual seria o outro caminho? A agência pública de noticias? Não gosto porque é dinheiro público. Tirar do seu próprio bolso? Mas ai como é que você vai sobreviver? “Ah vamos vender publicidade”. Mas é você que vai ser corretor publicitário? Essa equação não fecha, entendeu?

“É polêmico o que eu vou dizer, mas ainda é a empresa capitalista que financia a grande reportagem. Qual seria o outro caminho? A agência pública de noticias? Não gosto porque é dinheiro publico”.

Cale-se – O que você acha dessa tentativa da Argentina de regulamentar a comunicação, da Lei da Mídia?

Chico – Eu sou super a favor da autonomia das nações. Se isso tá lá na agenda deles, e existe uma aceitação no Congresso, eu respeito. Agora é obvio que historicamente, aqui no Brasil, na historia da imprensa brasileira, você vai ver periodicamente iniciativas do governo, do Congresso e também do Judiciário, sempre no sentido de garrotear, de frear, de inibir, de conter, de domesticar, de represar. Se a gente for abrir as portas, vira uma “esculhambação”. Embora respeitando a economia argentina, esse tipo de coisa sempre me faz ficar com o pé atrás.

Cale-se – A prefeitura de Petrópolis transformou utilidade pública a Casa da Morte, onde foram mortos mais de 20 militantes da guerrilha, para criar no local museu. O que é essencial em projetos de centros de memória?

Chico – Sou super a favor. Primeiro porque ali é uma prova física do que aconteceu, até pra sinalizar pras gerações futuras o quanto isso é bárbaro e como é importante que a sociedade se proteja desse tipo de coisa. Que aquilo ali sirva como um lembrete físico, de que não podemos deixar isso acontecer novamente. E só nesse sentido já vale. Agora, não basta só o prefeito assinar o ato de tombamento, tem que fazer funcionar.

Cale-se – Nesse contexto, seria necessário que esses locais dialogassem com problemas atuais?

Chico – Não, mais do que isso. Tem que ter uma agenda. Se não tiver uma agenda. Vai a ser portas fechadas o dia inteiro. Mais difícil do que tombar é fazer funcionar, é ter uma agenda. Isso é um processo. Lá na casa de Petrópolis, na primeira etapa, o prefeito decreta o imóvel para finalidade pública, torna aquele bem público. Mas é uma etapa preliminar em que técnicos, peritos, vão avaliar o custo desse tombamento, o valor do imóvel, etc. Feito isso, há um prazo pra contestação com o proprietário. A prefeitura desembolsa uma grana, coloca na mão do cara, e “tchau, me dá a chave, porque isso agora é da prefeitura”. Eu acho que o cara tá a fim de reagir, vai criar problema. Vai dizer que não tem prova de que aquilo ali era a casa da morte. Poxa, não tem prova? Prova tem. Ele vai espernear. Mas eu acho que do ponto de vista jurídico, o ambiente não é muito favorável a ele. É diferente do Dops daqui do Rio de Janeiro, na Rua da Relação. Porque ali tem um embate entre as famílias e os ex-presos. Do outro lado tem a policia, que quer transformar aquilo ali em um museu da policia. O governador fica ali de árbitro. Se ele pudesse eu sei que ele atenderia as famílias dos que morreram e etc., mas ele também não quer desagradar a polícia. Aquilo ali tá meio que uma bola dividida. Não sei o que vai acontecer, porque do outro lado tem uma força importante que são os policiais que querem aquilo para o museu deles.

Cale-se – E há pressão do governo federal para isso?

Chico – Não sei se a Dilma Roussef quer entrar nessa história. Tenho dúvidas sobre o futuro daquilo ali. E por último, o nosso famosíssimo DOI da Rua Barão de Mesquita (Tijuca), ai é que é muito mais complicado. Aquilo ali é uma unidade ativa do Exército. É a sede da Policia do Exército no Rio de Janeiro. Você vai desapropriar um quartel inteiro? Aquela é a bola mais dividida que tem de todas pra mim. Por incrível que pareça, a casa de Petrópolis é um processo muito mais tranquilo, porque não tem muita pressão política.

Cale-se – Qual a dificuldade de reforçar um enfoque popular nos textos de reportagem?

Chico – A dificuldade está na linguagem. Uma vez dando aula na PUC, comentei sobre o atentado do Riocentro. O aluno respondeu assim: “Ah foi no governo Vargas.” Então, não adianta, tem que explicar, tem que contextualizar, tem que fazer o leitor se convencer de que aquilo tá ali e não é por acaso. Tem uma razão histórica importante. Não é fácil.

Cale-se – A Comissão da Verdade não tem caráter judicial, nem punitivo. O que você acha disso?

Chico – Vou falar pra vocês uma coisa que vocês não vão gostar de ouvir. Acontece o seguinte, esse debate sobre punição tá atrapalhando tudo. E por que vocês acham que atrapalha? Na prática, essa questão atravessa o trabalho de apuração. Por exemplo: eu sou um coronel e fui do DOI, e o Chico Otávio quer falar comigo, mas eu tô vendo que o “Tortura Nunca Mais” tá lutando pela minha punição. Eu falo ou não falo? Eu me incrimino ou não me incrimino? Eu corro esse risco ou não corro? Óbvio que o cara se retrai, então quanto mais discussão houver sobre punição, mais travada vai ficar a tentativa de se avançar no conhecimento sobre o período. Eu não tenho dúvida disso. Não estou querendo defender os caras, ou defender a impunidade deles, estou defendendo a verdade.

Cale-se – O que você acha do movimento que surgiu na Argentina, do Escracho?

Chico – Como é que eu vou criticar? Eu que já fui estudante, fui do movimento estudantil, que peguei ali o rabo do regime militar. Eu não tenho moral pra falar do escracho, do “esculacho” que eles fazem por ai. Agora, é lógico que atrapalha. O cara vai se retrair pra não pagar esse mico. É o preço que se paga.

Cale-se – A Comissão da Verdade, quando busca culpados, foca mais nos torturadores ou no coração do sistema ditatorial?

Chico – A primeira coisa que eu quero te dizer é que nesse ponto, concordo com o Carlos Fico, que é professor de Historia da UFRJ. Ele diz o seguinte: é muito perigoso uma Comissão da Verdade pretender chegar a uma verdade única. Se eu fosse eles, sairia dessa armadilha. Porque nunca vai haver uma verdade única. Até porque os seres humanos são diversos. Pode-se chegar a versões mais atualizadas e mais bem fundamentadas. Essa deve ser a pretensão. Entregar mais ou menos os relatos a que a comissão chegou, franqueando toda a documentação que ensejou isso, e deixar todas as conclusões pra sociedade tirar.

“Nunca vai haver uma verdade única. Até porque os seres humanos são diversos. Pode-se chegar a versões mais atualizadas e mais bem fundamentadas. Essa deve ser a pretensão.”

Cale-se – A Comissão da Verdade investiga as violações de direitos humanos – como tortura, desaparecimento e mortes – praticadas pelos agentes de Estado. Estão excluídos atentados ou supostas mortes de responsabilidade de opositores do regime militar. O que você acha disso?

Chico – O argumento deles é bom. Na verdade, nosso foco é o setor público, não é? Porque quem matou, torturou, eram só servidores públicos, sargentos, tenentes, o policial civil, o soldado da PM, o general. Todo mundo é servidor publico. É diferente do cara que era bancário, camponês, empresário mesmo. Eles deixaram claro essa posição, eu acho razoável.

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Montagem por Rebeca Letieri

Cale-se – O nome de “Comissão da Verdade” dificulta a obtenção de depoimentos dos personagens?

Chico – Até acho que inibe, mas tem muita coisa que inibe mais ainda. A própria Dilma Roussef, embora tenha agido de maneira muito correta, acho que ela tem medo, não é? Porque ela é a antiga inimiga que está no comando. O cara sempre vê com uma pulga atrás da orelha todo esse discurso conduzido pelas entidades da sociedade civil, de defesa da punição. Agora é óbvio que a Comissão não tem autonomia pra isso. Existe uma lei da anistia e não adianta mudar, Esse negocio de crime continuado, que é essa questão de sequestro, ocultação de cadáver, pra mim isso é ridículo. Quer mudar? Vai pro Congresso. Quer mudar a Lei da Anistia? Vai brigar no Congresso. É um espaço democrático pra se fazer isso. Ai você vai garantir a punição. Derruba a Lei da Anistia democraticamente.

Cale-se – Você acha que é viável atualmente?

Chico – Não. Mas vem cá, não é esse o propósito do Congresso? Ou não?

Cale-se – Qual a sua opinião sobre a Lei da Anistia?

Chico – Foi importante como a grande fiadora do processo de redemocratização do Brasil. Dentro daquele contexto, ela funcionou, garantiu essa transição. Agora, se ela está ultrapassada ou não…

Cale-se – O Brasil tem algo a aprender com os países vizinhos que já iniciaram há mais tempo essa reconstrução da memória?

Chico – Quem pretende ser a quarta economia do planeta não pode ter essas lacunas abertas. Não é uma particularidade do Brasil. Outro dia eu recebi na redação uma jornalista dinamarquesa, que veio aqui porque vai cobrir a Copa do Mundo. Ela falou que a Dinamarca, uma das democracias mais estáveis do planeta, com os melhores índices de qualidade de vida, tem uma ferida aberta que é o colaboracionismo durante a Segunda Guerra Mundial. Ou seja, os dinamarqueses que colaboraram com o nazismo. Há alguns ainda vivos. Isso é um debate que ela disse ser horroroso lá. Então as democracias mais tradicionais do mundo, às vezes, se deparam com os seus fantasmas. O fato é o seguinte, a desconstrução da ditadura argentina foi um processo muito mais radical do que o brasileiro. Os militares argentinos se desmoralizaram, e o engraçado é que a grande contribuição da Margareth Thatcher pra democracia sul-americana foi mandar bala. Eles se desmoralizaram na guerra das Malvinas. Aqui não, aqui foi um processo iniciado pelos militares. Lá os militares foram a reboque do processo na condição de derrotados, então é obvio que foi muito mais fácil dar essa virada de mesa, a ponto de ter hoje um ex-presidente, que é o Rafael Videla, preso no presídio. Agora é lógico que não há dúvida que a ditadura lá foi muito mais brutal. Falam em 35 mil mortos, eu não acredito, mas acredito em 8 mil, quase 10mil. Não chega perto do total brasileiro que não é nem mil. Em um país de dimensões continentais. Proporcionalmente a ditadura chilena, a ditadura argentina e até a ditadura uruguaia, foram muito mais sangrentas, muito mais selvagens do que a brasileira. Então talvez isso ajude a explicar porque essas histórias tiveram desdobramentos diferentes.

“A desconstrução da ditadura argentina foi muito mais radical. Os militares argentinos se desmoralizaram, e o engraçado é que a grande contribuição da Margareth Thatcher pra democracia sul-americana foi mandar bala (na Guerra das Malvinas)”.

Cale-se – Você acha que a repressão e a ditadura foi um atraso para a imprensa, principalmente para o jornalismo investigativo?

Chico – Muito. A mídia foi venal. Como era pra não se aborrecer, tangenciava coisas importantes, deixava de fazer. Não vou dizer que a imprensa morreu. Foi uma diáspora dentro das redações. Aqueles que trabalhavam na editoria de Política migravam pra outros setores. E ainda havia a imprensa alternativa. A gente não pode deixar de lembrar que vários furos de reportagem foram publicados nessa imprensa combativa, apesar dos adjetivos que eu não gosto muito. Era um trabalho de reportagem interessante, corajoso, mas adjetivado. Jornais como Opinião, Movimento, o próprio Pasquim se destacavam pela via do humor. Porém, não deixava de ser um trabalho editorializado. Apesar de tudo, os jornalistas tentaram encontrar alternativas nos jornais da grande imprensa ou fora deles. É obvio que esses 21 anos representaram um hiato no atraso. A gente estaria hoje em um patamar muito mais avançado se não tivéssemos passado por isso.

“A mídia foi venal (durante a ditadura). Tangenciava coisas importantes, deixava de fazer. Não vou dizer que a imprensa morreu. Foi uma diáspora dentro das redações. Aqueles que trabalhavam na editoria de Política migravam pra outros setores.”

Cale-se – Durante o regime militar, as polícias militares foram transformadas em forças auxiliares das Forças Armadas. Há necessidade de mudanças no perfil da polícia numa sociedade democrática?

Chico – Os gorilas de verde oliva aprenderam a matar e torturar com esses caras do esquadrão da morte, da policia que batia em preso comum, que matava o “marginal” da comunidade, Esses são os grandes mestres. Eles não aprenderam sozinhos. No primeiro momento houve essa sinergia com as policias locais.

Acho que está havendo um avanço. Eu tenho uma amiga mineira que é socióloga. Ela foi contratada pela Academia de Policia Militar de Minas Gerais. Ensinando como deve ser a abordagem, você morre de rir: “senhor meliante, por favor, nós gostaríamos de pedir que o senhor levantasse as mãos” Nisso o cara já deu quatro tiros em um policial e mais quatro no outro. Ela mesma ria disso. Só que mesmo na brincadeira dela, e na própria inviabilidade de algumas coisas, você não tinha uma socióloga da UFMG dando aula na Academia de Polícia Militar mineira. Essa também é uma experiência que ocorre no Rio de Janeiro. A academia está aos poucos deixando de ter um preconceito com os temas ligados à realidade policial. Eles viraram temas de dissertações, de monografias, coisa que não acontecia no passado. Hoje você tem o Michel Misse (professor do Instituto de Filosofia e Ciências Socais da UFRJ) e outros tantos e, diversas universidades e centros de pesquisa, a natureza do jornalismo policial mudou radicalmente. Até os anos 80 o repórter de policia tinha que entrar no barraco da favela junto com o policial. Isso não existe mais. Hoje o repórter que faz uma coisa dessas tem como caminho a porta da rua.

Cale-se – O Globo está entre os jornais da grande imprensa que foram coniventes com o regime militar. Esta imagem influencia na publicação de suas matérias?

Chico – Você acredita que eu escrevi isso que você acabou de dizer? Existia uma imprensa diária que coexistiu, e ai ela fez valer sua sobrevivência econômica. A vida não tem esse maniqueísmo dos filmes holiwoodianos. Então realmente, o Globo foi simpático ao regime durante boa parte da existência do regime militar. Apesar disso, não enfrentei nenhuma dificuldade pra publicar minhas matérias.

 A democracia e seus fantasmas

Dos arquivos disponíveis consultados, o Arquivo Nacional, criado em 1838 conforme previsto na Constituição de 1824, é o órgão central do Sistema de Gestão de Documentos de Arquivos-SIGA, da administração pública federal, integrante da estrutura do Ministério da Justiça. (Praça da República, 173 – Rio de Janeiro, RJ – 20211-350 Tel: 55 21 2179-1228)

Além deste, através do Decreto Estadual nº 44.131, de 21 de março de 2013, conjuntos de documentos relacionados ao período do regime militar no Brasil, que estejam sob a custódia e guarda do APERJ, o arquivo público do Rio de Janeiro, é formado por documentos originários de órgãos do poder Executivo do estado e de arquivos privados. O acesso à documentação é livre e aberto ao público mediante preenchimento de ficha cadastral. (Praia de Botafogo, 480 – Botafogo – Rio de Janeiro, RJ – CEP 22250-040 Telefone: (21) 2332-1449).

“As pessoas acham que guardar informação é guardar poder, compartilhar é perder poder, sei lá. Os arquivos aqui não têm uma cultura de acesso, de democratização da informação.”

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Rebeca Letieri é estudante de Jornalismo da UFF e bolsista do projeto Jovens Talentos. Atua também na cobertura dos protestos organizados em todo a região metropolitana do Rio de Janeiro, na rede de comunicadores independentes Alternativa.
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