O papa Francisco e Leonardo Boff

João Batista de Abreu

Ao longo dos últimos 2 mil anos, a Igreja Católica Apostólica Romana transitou dos nichos conspiratórios da Judéia, vistos como subversivos pelo Império Romano e a elite judaica daquele tempo, aos mantos confortáveis do poder desde a Idade Média. Das palavras de um líder carismático que pregava a negação ao luxo e à riqueza material, a Igreja de Pedro fincou suas fundações numa crítica ao status quo e à desigualdade social, ganhou adeptos, conquistou espíritos, espalhou sua doutrina por terras distantes.

Quinze séculos depois, havia se prostituído. A entrega aos prazeres do poder a fizeram vender indulgências, fabricar santos e atirar à fogueira aqueles que denunciaram os desmandos e especulavam um conhecimento filosófico que ajudava a questionar a origem divina do mundo.

Em fins do período medieval, surge um núcleo religioso que condena o fausto religioso e vê a relação da Igreja com os poderosos da época como a negação do que pregava Jesus de Nazaré. Os pensamentos de Francisco de Assis não se reduziam à defesa dos animais, nem ao despojamento dos bens materiais, mas significavam a negação do conluio da Igreja católica com os senhores feudais que elegiam entre si papas que não tinham nenhuma identificação.

Papa Francisco I

Papa Francisco I

Seis séculos adiante e o bispo jesuíta argentino Jorge Mario Bergoglio, 76 anos, recupera o nome de Francisco para se tornar papa. Chega com a promessa de repetir os passos de José de Anchieta e promover a catequese entre os “selvagens” da América. A diferença é que este Francisco já foi um dia selvagem e deve entender o que significa o autoritarismo e a ganância dos poderosos em um continente que guarda uma história de espoliação de quase seis séculos.

O teólogo católico Leonardo Boff, ex-franciscano que recebeu a imposição do silêncio pelo cardeal alemão Joseph Ratzinger, o todo poderoso da Doutrina da Fé e ex-papa Bento XVI, reverencia a chegada de Francisco I como o papa da ruptura, na expectativa de que ele ouça a voz dos jovens insatisfeitos no Brasil e no mundo.

Leonardo Boff

Leonardo Boff

Na visão de Boff, presente na entrevista concedida de Petrópolis à Folha de São Paulo nesta segunda-feira dia 22 de julho, a mensagem de preocupação do papa com os jovens desempregados em todo o mundo representa um prenúncio de sua pregação contra os abusos.

O Palácio Guanabara, sede dos poderosos do Estado do Rio, vai receber Francisco nas próximas horas. Os soldados de Herodes cercam o palácio para se prevenir diante de qualquer rebelião. O banquete está servido…

***

João Batista de Abreu é jornalista, professor na Universidade Federal Fluminense e orientador do projeto Afasta de mim este Cale-se.  

 

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