De frente com o algoz

Ex-presos políticos confirmam prisão e tortura de Mário Alves

João Pedro Soares

A carga emocional na fala da dona de casa Lúcia Vieira, de 65 anos, era tão grande que ela precisou fazer uma pausa para beber água, mas as mãos trêmulas quase impediram que o copo chegasse à boca. O nervosismo se justificava. Afinal, Lúcia é filha do jornalista Mário Alves, secretário-geral do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR), assassinado brutalmente pelo Estado brasileiro em 1970. Enquanto discursava, Lúcia estava frente a frente com um dos principais suspeitos da morte do pai nas salas de tortura do DOi-Codi – no Batalhão da Polícia do Exército, no Rio – o ex-major Valter da Costa Jacarandá.

Lúcia Vieira Caldas, filha de Mário Alves. Foto: Comissão Nacional da Verdade

Lúcia Vieira Caldas, filha de Mário Alves. Foto: Comissão Nacional da Verdade

A audiência pública foi organizada na quarta-feira, 14 de agosto, em conjunto pela Comissão Nacional da Verdade (CNV) e a Comissão Estadual da Verdade (CEV). Após Lúcia ler o texto que preparara em homenagem ao pai, militantes do Levante Popular da Juventude prestaram uma homenagem. Entoaram cânticos e estenderam faixas com o rosto de Mário Alves, companheiro de Carlos Marighella. Foi a vez de os seguranças da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, onde ocorria a audiência, mostrarem que as marcas da ditadura militar permanecem vivas na sociedade brasileira. Arrancaram as faixas e entraram em confronto com os manifestantes. Ao microfone, o presidente da CEV, Wadih Damous, apelava aos agentes para evitar o uso da violência.

Durante os depoimentos dos sete ex-presos políticos presentes, que foram torturados no DOI-Codi, Álvaro Caldas, José Luís Sabóia, José Carlos Tórtima, Maria Dalva Leite de Castro, Newton Leão Duarte, Paulo Sérgio Paranhos e Sylvio Renan Medeiros, as sequelas do passado vieram à tona. Na plateia, as lágrimas escorriam conforme os ex-militantes relatavam o que sofreram. No início de sua fala, Paulo Sérgio citou a dificuldade de lembrar esse passado: “É sempre difícil falar sobre isso, mas nós não temos o direito de negar essa história ao povo brasileiro”. Por diversas vezes, os depoentes mencionaram as ameaças ouvidas, durante o interrogatório no DOI-Codi, de ter o mesmo destino de Mário Alves.

José Carlos Tórtima encara seu algoz, Major Jacarandá. Foto: Thiago Vilela / ASCOM - CNV

José Carlos Tórtima encara seu algoz, Major Jacarandá. Foto: Thiago Vilela / ASCOM – CNV

O momento de ficar, pela primeira vez, cara a cara com o torturador gerou reações diversas. José Luís Sabóia se emocionou ao recordar o amigo que também foi torturado: “Vocês conseguiram aniquilar o Ruivo. Ele está totalmente inutilizável para a vida, completamente insano”. Outros preferiam apelar para que o militar prestasse depoimento. O advogado José Carlos Tórtima declarou: “Tenho a esperança, major, de que o senhor não se confunda com os colegas desse sujo trabalho”. Ao encerrar seu depoimento, caminhou em direção a Jacarandá e segurou-lhe os braços, como se quisesse reforçar o pedido.

O jornalista Álvaro Caldas, professor da PUC-RJ, leu trechos de relatos concedidos à Ordem dos Advogados do Brasil em 1982, de três militantes de partidos clandestinos que estavam presos no DOI-/Codi no dia em que Mário Alves foi levado para a sala de tortura. Antônio Carlos de Carvalho, José Carlos Brandão e Raimundo Teixeira Mendes afirmaram que a sessão de interrogatório foi marcada por muitos gritos. Segundo Raimundo, era possível observar a sessão por uma fresta de aproximadamente dez centímetros que havia entre sua cela e a sala onde tudo ocorria, pois o prédio estava em obras.

Ele contou que Mário Alves dava respostas muito evasivas. Então, o jornalista teria sido torturado com pau-de-arara, choques elétricos e afogamentos. Os oficiais o ameaçavam alegando que não havia testemunhas ali, e poderiam sumir com seu corpo sem que soubessem do paradeiro. Quando perceberam que o interrogado não falaria o que eles queriam, introduziram um cassetete com arame farpado em seu ânus. O objeto perfurou o intestino e provocou hemorragia, o que o levou à morte. Ao terminar de ler os relatos, Álvaro concluiu sua fala: “Continua a reinar o profundo e inaceitável silêncio. Hoje, em uma democracia, conquistada pela luta dos que ousaram resistir, os agentes de tortura podem falar do caminho que deram ao corpo de Mário Alves”.

Maria Dalva fez questão de citar que o ex-major a havia “torturado barbaramente”, mesmo que negasse. Frente a frente com o algoz, acusou Jacarandá e disse que sua vida sofreu impactos fortes por conta das sessões de violência. Ela lembrou que, após os interrogatórios, os torturadores eram exaltados: “Ainda hoje ecoa uma voz no meu ouvido que diz ‘Viva o major Fontenelle’”. Ao concluir, Maria Dalva fez uma comparação com os dias de hoje: “Ontem foi Mário Alves, hoje são milhares de jovens das periferias. Restam as perguntas: ‘Cadê o Mário Alves? Cadê o Amarildo?”

Tortura e “excessos”:
duas palavras que traduzem crueldade

Quando chegou a vez de Jacarandá prestar depoimento, o silêncio e a expectativa tomaram conta do público. Apesar do desprendimento em ir à audiência, os óculos escuros em um ambiente fechado e o esfregar constante dos polegares expressavam o incômodo do militar reformado com aquela situação. Após algumas questões mais brandas, o presidente da CEV começou a perguntar-lhe sobre as histórias relatadas pelos ex-militantes. Quando lhe pediram para relatar as práticas de tortura utilizadas no DOI-Codi, limitou-se a dizer: “Todas as que foram aqui mencionadas”. No entanto, negou ter conhecimento sobre a utilização do empalamento, prática cruel que levou à morte de Mário Alves. Enquanto falava sobre o funcionamento da estrutura montada para interrogar militantes da esquerda, levantou-se da cadeira, tirou os óculos, e olhando para Lúcia Alves, declarou: “Eu não tive qualquer participação na morte de seu pai”. O presidente da comissão pediu para que o major se sentasse e apenas respondesse ao que lhe fosse solicitado.

Primeiramente, o major evitou usar o termo “tortura”. Falava somente em “excessos”. Mas no decorrer do depoimento, acabou por dizer que “tortura e excessos representam a mesma coisa”. Também não quis falar sobre os militares que participavam dos interrogatórios junto com ele no DOI-Codi. No entanto, quando lhe pediram que confirmasse a participação dos nomes citados nos depoimentos anteriores, respondeu de forma afirmativa. São eles o tenente Dulene Garcez, Luiz Mário Correia Lima, Roberto Duque Estrada e major Fontenelle.

Jacarandá surpreendeu o público ao responder por que teria ingressado nos aparelhos de repressão do Exército. Atribuiu a uma “aventura”. Afirmou que, em todo o tempo, via-se numa guerra contra um inimigo a ser combatido para proteger o país do comunismo e ainda mencionou que “nesta época, Fidel Castro, Stálin e Mao Tsé-Tung também torturavam em seus países”.

Os outros três militares convocados para prestar depoimento não apareceram. Enviaram um advogado, o qual alegou que os ex-tenentes do Exército Correia Lima, Duque Estrada e Garcez já haviam prestado depoimento sobre o caso Mário Alves em outra oportunidade. Wadih afirmou que ambas as comissões rejeitavam o argumento e entrariam com ação no Ministério Público para intimá-los a depor caso faltassem à próxima convocação.

***

João Pedro Soares é estudante de jornalismo e bolsista do projeto de extensão Afasta de mim este Cale-se, da Universidade Federal Fluminense, em Niterói (RJ)

 

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6 comentários sobre “De frente com o algoz

  1. Muito bom o texto do João Pedro e um parabéns especial pela pauta. É muito tranquilizador ver que a nova geração, já tão distante da Ditadura Militar (que fecha redondos 40 anos em março do próximo ano), tem neste projeto “Cale-se” uma chance de não deixar a memória coletiva – este “mecanismo” fundamental para a identidade de um país – se perder nos caminhos tortos de um esquecimento forçado, pois que resultados de uma acordo de “perdão” bastante tendencioso e complexo. Parabéns à equipe do blog. Denise Tavares

  2. No Brasil acontece tudo ao contrário. Só veem o lado dos comunistas… esquecem que os comunistas também torturaram, prenderam e mataram muita gente. Vocês são cegos, enxergam com um olho só. Isso é lamentável.

    • Gallo (qual o teu nome? pra que recorrer ao anonimato?), vou desconsiderar a falácia do teu argumento já que ele subentende paridade de forças (o que é ou cinismo ou ignorância histórica e política) e vou pedir que o senhor me dê um exemplo concreto de “comunistas” torturando, prendendo e matando gente na recente ditadura civil-militar que tivemos no Brasil (se o senhor preferir pode trocar o termo para “governo revolucionário militar”, deve te agradar mais).

  3. Pingback: De frente com o algoz – Uma foto para a História » QTMD? Quem Tem Medo da Democracia?

  4. Pingback: Os protagonistas desta história IV | Afasta de mim este Cale-se

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