As ruas e a democracia da voz

A cobertura de diferentes mídias das manifestações que ocorrem no Rio de Janeiro

João Pedro Soares e Rebeca Letieri

Durante a onda de manifestações que tomou as ruas das principais capitais brasileiras, as redes sociais mostraram seu potencial de mobilização. Por meio delas, mais de 1 milhão de pessoas se reuniram no Rio de Janeiro, algo impensável há poucos meses. Além de utilizadas para a convocação dos manifestantes, por meio de eventos no facebook, as redes sociais ocupavam espaços onde se estabeleciam diversos debates e denúncias, principalmente quanto à divulgação de abusos policiais omitidos pela grande mídia.

As mídias alternativas denunciaram a ineficiência da cobertura hegemônica. E não tardou para que se espalhasse a ideia de que somente ela seria capaz de transmitir a verdade, enquanto os grandes jornais reproduziriam o olhar dos financistas. No entanto, junto com a maior visibilidade e responsabilidade, evidenciou-se o despreparo de alguns grupos alternativos em diversas ocasiões. Surgiu o questionamento: afinal, os grandes veículos de comunicação têm ou não importância na era digital? Impulsionada por esse debate, a necessidade de regulamentar a comunicação voltou à tona. Em algumas cidades foram realizados protestos em que a democratização da comunicação ocupava a principal cena.

Ato em Niterói por Bernardo Oliveira

Ato em Niterói por Bernardo Oliveira

A jornalista Sylvia Moretzsohn, professora do Departamento de Comunicação da UFF, ressalta a repercussão da mídia independente. “Pelo menos no inicio a grande imprensa estava claramente contrária às manifestações, inclusive pedindo repressão. Quando houve repressão, acho que a mais violenta por parte da polícia, no dia 13 de junho, em São Paulo, o barco começou a virar e a mídia começou a tentar esvaziar o objetivo inicial do protesto pelo passe livre. Diversificou as pautas, tornando-as muito genéricas e contraditórias”, concluiu.

A força contra-hegemônica

Para a professora da UFF, uma parcela da juventude e da própria imprensa alternativa comete o equívoco de pensar que, pela primeira vez, se questiona a manipulação dos grupos de comunicação hegemônicos. Sylvia defende que os grupos alternativos não devem ter a ambição de ocupar o lugar da grande imprensa, pois, além de não possuírem condições técnicas para tal, esse objetivo desvirtuaria a essência de sua existência, que é apresentar uma alternativa aos grandes jornais.

Os obstáculos criados para a cobertura da grande mídia por parte de alguns manifestantes são considerados um erro estratégico pela professora. “Esse comportamento não apenas representa uma inaceitável tentativa de silenciamento, mas é também uma incoerência: quem protesta exige que a mídia ‘fale a verdade’, mas ao mesmo tempo proíbe os jornalistas de exercerem seu trabalho”. Ela cita o exemplo da cobertura da primeira campanha a presidente de Lula, em 1989: “Na derrota do Lula, a Globo teve um papel proeminente, fazendo de tudo para o Collor ser eleito. Entretanto, o Ricardo Kotscho, assessor do Lula, dizia que era a repórter da sucursal do O Globo de São Paulo quem cobria melhor o candidato, mesmo sabendo que elas não seriam publicadas, pois poderiam sair em outros veículos”.

As recentes passeatas contra o oligopólio midiático chamaram a atenção para o debate da função social do jornalista. Filipe Galvão, estudante de jornalismo da UFF coordena o setor audiovisual de uma das mídias independentes que nasceu durante as manifestações no Rio de Janeiro, a Rede Alternativa. Ele afirma que o repúdio criado pelos manifestantes não surgiu de uma hora pra outra: “Eu vejo com muitas ressalvas esse repúdio imediato e violento à grande mídia. Dizer que é bom não é. Mas é justificado. A mídia corporativa não representa os anseios populares, pelo contrário, atua, via de regra, contra os interesses da população. E se a mídia atua contra o povo como ela espera ser recebida nas manifestações? Com flores?” O estudante enxerga uma disputa clara entre a mídia independente, que no seu entender defende os interesses das “parcelas sem voz da população”, e a mídia corporativa, a favor da elite. “Não é à toa que há esse rechaço por parte das manifestações. É ruim porque representa em alguma medida um impedimento localizado ao exercício do jornalismo, mas é compreensível. A mídia grande está colhendo o que sempre plantou”, reforça.

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João Pedro Soares e Rebeca Letieri são estudantes de jornalismo e bolsistas do projeto de extensão Afasta de mim este Cale-se, da Universidade Federal Fluminense, Niterói (RJ)

 

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