Mídia Ninja ocupa territórios da informação

A cobertura de diferentes mídias das manifestações que ocorrem no Rio de Janeiro

Rebeca Lettieri e João Pedro Soares

Em tempos de Internet, o contraponto da cobertura jornalística não é a concorrência entre emissoras de TV, de rádio ou jornais de grande circulação. Guerreiros quase invisíveis no cenário televisivo, a mídia NINJA (Narrativas Independentes, Jornalismo e Ação) recebeu destaque por transmitir em vídeo as manifestações ao vivo pela internet. Com câmeras semiprofissionais e agilidade, eles se transformaram na novidade da cobertura, mostrando o outro lado da moeda.

O integrante do grupo, Rafael Villela, diz que a mídia hegemônica acusou o golpe. “Não é uma questão técnica, é quase política. Os repórteres cobrem as manifestações de helicóptero, afastados do calor do chão. Dessa forma ela se torna incapaz de fazer uma leitura dos movimentos nas ruas.” Para Vilela, existe mesmo uma crise de representatividade. “A grande imprensa falha nessa suposta imparcialidade, finge não defender um lado, mas fica evidente seu posicionamento”, ressalta Vilela.

Para Filipe Galvão, estudante de jornalismo da UFF e coordenador de audiovisual de mais um das mídias independentes que nasceram durante as manifestações, Rede Alternativa, a grande mídia não representa a população. Segundo ele, os grupos alternativos se propõem a gerar um conteúdo que está em consonância com o que as pessoas protestam nas ruas. Por conta disso, o jornalismo das empresas tradicionais de comunicação recebeu críticas incisivas pela cobertura das manifestações.

Já o repórter Daniel Braga, da editoria de bairros de O Globo, incumbido de cobrir alguns dos atos durante o mês de junho, contribuindo também para a editoria Rio; enfatiza que a imprensa tentava entender o movimento e não tomar um lado para si. “Aí aconteceram as críticas em cima da grande mídia, que segundo quem se manifestava, preferia mostrar uma ‘minoria’ à uma maioria exercendo os seus direitos de forma pacífica”. Durante muitas das coberturas do veículo, a Globo chamava os manifestantes que agiam de forma mais radical de “vândalos”, para se referir a uma “minoria” que segundo a emissora, não legitimava o protesto “pacífico”, da “maioria” que ocupava as ruas.

Para o repórter, quando a linha editorial começa a fazer essa abordagem, a empresa está pensando na segurança dos profissionais em campo. “Erros? Todo mundo comete, sempre vão existir. Não só na grande mídia, mas na pequena mídia também. A diferença é que quando a pequena mídia comete um erro, devido à menor visibilidade, talvez você tenha uma responsabilidade menor também”, completa.

Filipe Galvão afirma que o grande problema da comunicação hoje é que o acerto é algo indefinido. “Óbvio que errar é humano, mas insistir no erro é burrice. E insistir no erro depois que ele é exposto deixa de ser burrice e passa a ser cinismo. Então, a questão é onde está o acerto e se essa maneira acertada de se fazer comunicação pode ser exercida dentro da mídia de massa”, concluiu.
FotoMontagem por Rebeca Letieri - Foto da Internet

FotoMontagem por Rebeca Letieri – Foto da Internet

Os desafios da mídia alternativa

É difícil para quem trabalha na área há muito tempo assimilar as mudanças que ocorrem. A jornalista Paula Máiran, recém-eleita presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro, enaltece essas transformações, mas aponta alguns aspectos negativos do jornalismo tradicional. “Todo esse poder de concentração de audiência dos conglomerados da mídia migra para as redes sociais. Então, você acaba reproduzindo a mesma lógica de conteúdo que existe na mídia controlada por meia dúzia de empresários do país nas redes sociais”. Ainda assim, Paula demonstra esperança: “Quando você fala de mídia comercial o problema está muito mais no recorte que se dá às coberturas do que propriamente nos recursos utilizados. Se a gente se apropriar do que funciona bem lá e trouxer para a mídia alternativa, daremos um salto”.

Junto com o crescimento, surgem novos desafios para os alternativos. Paula avalia que um dos principais é o alcance do público que se informa por meio dos veículos hegemônicos: “Acabamos falando para nós mesmos, produzimos e lemos. Ainda não conseguimos atravessar a fronteira dos leitores, porque praticamente a mídia alternativa atinge leitores alternativos”.

Outra grande barreira enfrentada pelos que desejam utilizar novos meios de se fazer jornalismo são os custos da atividade. Historicamente, veículos alternativos que tinham a qualidade como marca registrada no Brasil, como Opinião, O Pasquim e, mais recentemente, a Caros Amigos (que recentemente demitiu um grupo de funcionários após uma greve contra corte de pessoal), tiveram a questão econômica como principal dificuldade de sobrevivência. Com a internet, estratégias de financiamento coletivo surgem como possibilidade real, ainda que por enquanto embrionárias.

Recentemente, circulou na grande imprensa a notícia de que a Mídia NINJA teria a intenção de receber verbas governamentais para continuar funcionando. No entanto, o grupo nega essa informação: “Nós nos sustentamos a partir da estrutura física do grupo Fora do Eixo, coletivo com 10 anos de articulação política pública artístico-cultural”. Somente de 5 a 7% do orçamento do grupo vem de editais públicos.

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João Pedro Soares e Rebeca Letieri são estudantes de jornalismo e bolsistas do projeto de extensão Afasta de mim este Cale-se, da Universidade Federal Fluminense, Niterói (RJ)

 

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