A saga dos Quixotes entre smartphones e pombos-correio

*Filipe Galvão

Quando conversava com um dos autores da ótima série sobre a regulação da mídia para o blog “Afasta de mim este Cale-se” não me imaginava tão inocente como pareci nas matérias. Não culpo os entrevistadores apesar de terem lá sua parcela de responsabilidade nas construções frasais e na eleição de alguns termos que não usei. Mas o verdadeiro motivo de tal impressão só pode estar em dois lugares: em mim e/ou no que defendo. Como não soar inocente ou quixotesco quando, montado em meu burrico subnutrido, falo de combater os impérios da comunicação-espetáculo? É possível ser levado a sério?

Sim. Podemos propor mundos novos e criticar os tronos e coroas, mas sejamos delicados. Tratamos aqui de um assunto espinhoso e francamente revolucionário. Temas assim não permitem leviandades. É um assunto de interesse público, de promoção democrática. Não pode, não deve e não será tratado com descaso.

Não vou me alongar no debate dicotomizado entre bem e mal. Não me imagino conversando com carolas ou skinheads paulistanos, de modo que nem é preciso falar o quão pobre e nociva é a promoção deste tipo de pensamento maniqueísta. Não estamos “lutando contra o mal”, estamos lutando pela multiplicidade narrativa necessária a uma democracia saudável. Ponto. Eis a bandeira comum aos independentes.

Isso esclarecido, vamos ao ponto que interessa. Em certo momento do terceiro texto, um pensamento é atribuído aos defensores da mídia livre: “os representantes dessa mídia argumentam que é por meio do acesso à tecnologia de comunicação que será possível fomentar o debate de regulamentação da comunicação”. Há erro aqui? Não se trata de erro, mas de um posicionamento ou um direcionamento que pode nos levar a uma leitura errada. Primeiro porque a mídia independente é um caldo essencialmente heterogêneo, formado por uma infinidade de atores que não permite generalizações. Segundo porque, excetuando os independentes da zona sul carioca ou dos fancy neighborhoods nova-iorquinos, nenhum comunicador alternativo defende a promoção da paridade discursiva via aparatos inacessíveis à imensa maioria da população. Isso é ou um contrassenso ou um ulular velado à crença classista que a revolução é direito da burguesia e somente dela. Não sou defensor maior dos smartphones que dos pombos-correios ou sinais de fumaça. A mídia independente não é e nem pode ser um garoto-propaganda de nokias, samsungs e apples. O que os comunicadores alternativos (populares) defendem, e foi este o termo que usei, é a instrumentalização da capacidade narrativa da população alijada de sua historicidade.

Mas alijada por quem? Pelos promotores do real: os impérios da comunicação. Quem detém o monopólio narrativo em uma sociedade determina a sua realidade, sua especificidade, suas idiossincrasias, seus signos eleitos. Os comunicadores populares, compreendendo ser esse o ponto principal na promoção da paridade discursiva, atuam para fomentar a capacidade técnica (bem diferente de “aparatos tecnológicos”) e crítica entre a população. Casos exemplares são os projetos dos cineastas indígenas espalhados por mais de trinta aldeias pelo país; ou da Apafunk que defende e promove a voz dos morros cariocas; da Escola de Fotógrafos Populares da Maré; dos jornais e rádios comunitárias; das rodas de Jongo, de Repentistas, os Maracatus, a Capoeira, etc.

Dar instrumentos para a construção narrativa dos excluídos do jogo político é promover a multiplicidade de vozes intrínseca e necessária à democracia. E tais ferramentas não habitam somente o mundo físico e material, mas o próprio campo das ideias. A paridade discursiva não será conseguida somente pelo registro que permitem as câmeras, blogs ou folhas de papel barato, mas pela vontade de registrar. A conscientização de quão imprescindíveis ao jogo democrático são as histórias e realidades narradas pelos excluídos é o primeiro passo para se chegar à democratização da mídia. É esse o papel social dos independentes. Foi isso que quis dizer na entrevista.

Soe quixotesco ou não, os gigantes travestidos de moinhos existem e devem ser controlados antes que sejamos todos farinha do mesmo saco. Uma farinha com baixíssimo valor nutritivo, por sinal. Inocentes ou não, os sonhadores avançam. Entre celulares ou sinais de fumaça. Por um mundo melhor, os sonhadores avançam.

Filipe Galvão é aluno de Jornalismo da Universidade Federal Fluminense e diretor da Caqui Filmes, um dos veículos independentes que formam a rede de comunicadores populares Alternativa.

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