Revolução Particular

Zoia Prestes, uma infância no exílio

http://jornalocasarao.com/2013/09/19/o-casarao-no3/
Gabriel Vasconcelos e Mário Cajé

Ativista de um grupo guerrilheiro, Zoia Kosmodemianskaia foi enforcada e teve seu corpo exposto publicamente aos 18 anos, depois de colocar fogo em estábulo das tropas alemãs, durante a invasão nazista a Moscou. Virou heroína na União Soviétiva e inspirou Maria Prestes na escolha do nome de uma de suas filhas com Luiz Carlos Prestes. Nascida em 1963, Zoia Prestes foi com a família para a URSS aos 7 anos e só retornou ao Brasil aos 22, depois de se tornar mestre em Educação. Ela compartilhou com o CASARÃO um pouco de sua história palpitante.

Foram duas horas de conversa – quase uma hipnose – sobre sua vida na URSS, os ônus e bônus do comunismo, a figura histórica do seu pai – o “Cavaleiro da Esperança” -, sua atuação profissional, política e liberdade – ou a falta dela.

“Hoje eu tenho um princípio mais anarquista do que comunista, e não tenho nem um pouco de vergonha de dizer isso”

Até que o diploma com a “foice e o martelo” fosse aceito, Zoia trabalhou como intérprete, foi guia turística, fez tradução simultânea, literária. Hoje é professora da Faculdade de Educação da UFF, mas até chegar lá, recheou sua vida de episódios que fazem olhos de “focas” brilharem ao som da história, fazendo questão de destacar o papel de seu pai enquanto um dos baluartes da esquerda brasileira.

“Por mais que queiram, seu nome não pode ser riscado e isso já é um julgamento da História”

Foto por Mariana Pimenta

Foto por Mariana Pimenta

A vida na União Soviética

Casarão: Você foi para a URSS com sete anos de idade. Como foi essa adaptação ao novo país?
Zoia Prestes: Não me lembro de ter vivido nenhum trauma muito forte. A noção de que eu estava em um país diferente só veio porque percebi que as pessoas falavam outro idioma. Acredito que tenha sido mais difícil para os meus irmãos mais velhos.

As crianças eram muito marcadas pela guerra no início dos anos 70. A aversão ao estrangeiro era forte: para eles, qualquer estrangeiro era alemão e era visto como um inimigo. No começo, a gente ainda falava mal o russo e as crianças foram muito hostis no jardim de infância. As educadoras também não faziam muito para tornar o ambiente mais acolhedor. Aí, minha mãe, que é pernambucana, ficou furiosa e falou que, quando nos xingassem de novo, a gente xingaria as crianças em português (risos).

O engraçado é que em novembro, quando caiu a neve – que para gente era uma coisa muito mágica porque a gente nunca tinha visto –, o gelo se desfez e as crianças se aproximaram com um convite: “Venham ver como se faz um boneco de neve”.

C: Você já escreveu que se sente estrangeira no Brasil e que se pergunta: “eu sou uma russa brasileira ou uma brasileira russa”? Como você explica essa “crise de nacionalidade”?
Z: Tenho a alma e a cultura russa dentro de mim. Não sei explicar. Não chega a ser um conflito, mas uma identidade dupla mesmo. Eu aprendi a falar em português e fui alfabetizada em russo, e acho que isso se refletiu nessa minha dupla identidade.

C: É de se imaginar que tenha havido um aparato diplomático na mudança da sua família para a URSS. Isso de fato aconteceu?
Z: Na URSS, nós éramos uma família comum. Mas é claro que o Comitê Central (do Partido Comunista) nos tratava como exilados políticos. Meu pai, que era secretário-geral, era tratado como Chefe de Estado. Quando a gente chegou, houve a recomendação de que nossa mãe nos matriculasse em uma escola especial, em que os professores falassem espanhol, para que não nos sentíssemos tão deslocados, mas ela discordou e quis saber qual era a escola do bairro que as crianças russas frequentavam. Então, as professoras sabiam que éramos estrangeiros, mas éramos tratados como quaisquer outras crianças.

C: Foi um esforço da sua família para dar um ar de normalidade?
Z: Isso. Éramos tratados sem regalias. Minha mãe fez questão disso e eu acho que foi muito importante porque a convivência com essas crianças fez com que a gente conhecesse a realidade. Era muito comum, por exemplo, a existência de apartamentos em que cada família ocupava um cômodo. O banheiro e a cozinha eram compartilhados e cada cômodo era ocupado por uma família. Isso porque não dava para resolver o problema habitacional de cara. Só muito depois as famílias foram recebendo os apartamentos.

C: Por que sua mãe insistia tanto em que vocês aprendessem o português?
Z: Porque ela sempre falou que a gente ia voltar. A gente saiu do Brasil porque estava sofrendo ameaças de sequestro. Tanto que, quando a gente chegou lá, alguns companheiros diziam que seria apenas dois ou três anos (de permanência na URSS), mas minha mãe dizia que seria uns dez anos, que foi mais ou menos o que durou. Minha mãe só voltou em 1979, depois da Lei da Anistia. Ela sempre falava que todo mundo ia voltar e fazia questão de pagar as nossas férias no Brasil. A gente passava as férias e voltava.

C: Seu nome é uma homenagem a uma guerrilheira russa. O que sabe sobre ela?
Z: Quando os nazistas estavam se aproximando de Mouscou, Zoia Kosmodemianskaia, que tinha 18 anos, explodiu um depósito de armas sozinha e foi pega, torturada e enforcada. Hoje existe um monumento lá em sua homenagem. Quando a minha mãe estava grávida, ela leu a história dessa guerrilheira e resolveu que seria o meu nome. É um nome muito comum na Rússia e a origem é grega (Zoé, que significa vida).

A carreira

C: Como surgiu o interesse pela pedagogia?
Z: Quando terminei o curso secundário, na verdade eu queria fazer a Escola da Juventude Comunista (risos). Aí eu falei com minha mãe e ela me mandou conversar com meu pai. Ele virou e me disse: “Você pretende voltar para o Brasil?” Depois de responder que sim, ele falou que, no Brasil, a mulher tinha que ter uma profissão e ser independente do marido: “Acho melhor você escolher uma profissão e depois se envolver com política”. Por isso, como eu gostava muito de trabalhar com crianças, escolhi pedagogia.

C: Ao longo da sua carreira, você tem se dedicado ao estudo e tradução da obra do pensador Lev Vigotski e sua preocupação com outras versões do texto deste autor é grande. Você cita, inclusive, que alguns erros da passagem do russo para o português foram intencionais, com o objetivo de atender a alguns interesses. Que interesses seriam esses?
Z: Há textos que colocam palavras na boca dele, criam conceitos que embutem uma visão determinista, coisa que ele não tinha. Na época, era complicado trazer para o mundo ocidental um pensador que criou a teoria que criou em plena guerra fria. Por isso, era preciso despi-lo de sua ideologia. A minha orientadora de doutorado tem uma expressão interessante sobre isso: foi preciso “botar um pouquinho de água sanitária no vermelho dele”. Ele pode não ter sido marxista, mas se inspirou em Marx e disse que era preciso aprender com seu método.

C: Como você sintetizaria ao máximo a contribuição de Vigotski para a educação e a psicologia?
Z: Não precisa ir muito longe para falar de Vigotski porque a gente tem um pensador no Brasil que tem ideias muito parecidas, o Paulo Freire. O Vigotski desenvolveu uma teoria sobre as funções que se transformam pela cultura, através de um processo dialético, que se dá por rupturas e saltos. Ele faria uma grande crítica à educação de hoje, o que quer dizer que ele é atual. Temos uma escola que ainda tem uma visão linear de desenvolvimento, é seriada, se divide em faixas etárias, pré-requisitos. O sistema educacional hoje quer o controle do outro, da aprendizagem, e reproduz o Estado. Quer formar máquinas, pessoas não pensantes.

C: Mas qual seria a aplicabilidade de um sistema educacional baseado nessas ideias?
Z: É difícil achar uma aplicabilidade dessa teoria porque ele (o Vigotski) foi muito libertário, mas a gente pode se inspirar nas suas ideias . Quando se fala em guiar o próprio aprendizado, optar, se fala em pensar. E hoje é o que menos se permite na escola: pensar por si próprio, infelizmente.

De volta ao Brasil

C: Quando você sentiu vontade de voltar ao Brasil?
Z: Pensei nisso em 1980. Concluí a graduação e o mestrado em 1985, ano em que voltei. Mas fiquei muito tempo sem poder trabalhar na minha profissão por não ter o diploma reconhecido. Várias disciplinas foram exigidas e eu resolvi trabalhar com tradução, que não exigia diploma. Fui intérprete, fiz tradução simultânea, fui guia turística e traduzi livros (Doutor Jivago é um exemplo). O certificado só foi aceito em 1999 e me tornei professora da Faetec. Depois disso, fui para Brasília, onde reconheci o mestrado e resolvi fazer o doutorado.

C: Foram essas dificuldades que a fizeram declarar que existe uma guerrilheira dentro de si?
Z: Sim, eu sempre tive que batalhar muito para as coisas acontecerem. Foi tudo muito difícil. Apresentar um diploma com a foice e o martelo é complicado. Tive que enfrentar o fato de que não queriam que eu desse aula em uma universidade particular. O fato de eu estar revendo conceitos cristalizados do Vigotski incomoda os conservadores.

C: Quando você voltou, percebeu as pessoas despolitizadas?
Z: Não vi muito isso porque minha convivência inicial era com os amigos dos meus pais, que eram pessoas muito ligadas à política. Eu conheci o Darcy (Ribeiro), que pediu o meu currículo e me chamou para conversar. Ele me chamou para ser estagiária em um Ciep, o de Ipanema, durante dois anos. Conheci pessoas maravilhosas lá, que são meus amigos até hoje. Esse foi o círculo de amizades que eu criei.

Política e ideologia

C: Quando vocês estavam na URSS, como você se manifestava politicamente?
Z: Eu e [meus irmãos] Yuri, Mariana e Gustavo tínhamos um grupo de canções de protesto chamado Saci-pererê. A gente viajou bastante pela URSS para participar de festivais de música, arrecando dinheiro para o partido. A gente cantava Geraldo Vandré, Chico Buarque e compúnhamos também. As canções eram cantadas em português e em russo. Já tocamos para mais de 10 mil pessoas no festival Victor Hara, que foi um cantor chileno que, depois do golpe, teve os dedos cortados para não tocar violão e acabou assassinado.

C: Você achava que o modelo da Rússia comunista era o ideal?
Z: Logo depois da Revolução Russa, de 1917 a 1930, o país viveu uma época de muita liberdade de expressão, de acesso ao pensamento ocidental. Não havia repressão. A URSS só precisava se defender militarmente dos países capitalistas, mas a proposta é que houvesse liberdade interna. Mas, com a morte do Lênin, em 1924, Stálin assumiu o poder em 1930 e começou a perseguir e matar as pessoas. Inclusive, vários pensadores se mataram. Um país que pega um Stálin pela frente tem seu rumo totalmente alterado. Ali, houve uma ruptura com a proposta socialista. Mais tarde, os partidos comunistas do mundo inteiro tiveram que fazer a autocrítica, quando Kruschev denunciou os crimes do Stálin. Na Segunda Guerra Mundial, ele sabia que o Hitler iria atacar a URSS, mas deixou isso acontecer. Faz isso para conseguir o apoio dos ingleses e dos americanos… São vários acontecimentos graves. Eu tive consciência disso no fim dos anos 70, no Ensino Médio. Muita coisa a gente não aceitava, não entendia. Isso se falava na boca miúda.

C: Você não questionou seu pai sobre isso?
Z: Quando meu pai escreveu a Carta aos Comunistas (em março de 1980, disponível em http://www.vermelho.org.br/noticia.php?id_noticia=202560), ele foi à URSS conversar com os companheiros, visitou todas as embaixadas dos países comunistas pedindo uma revisão, mas não foi ouvido. Acabou desconsiderado e logo depois veio o desmoronamento (do regime). Meu pai ficou muito abalado. Ele morreu pouco antes de Collor tomar posse, mas nunca teve uma visão pessimista. Ele achava que devia continuar lutando.

C: E como você olha para a Rússia contemporânea, depois desse processo de mudança do sistema político, a implementação do capitalismo?
Z: O país hoje é totalmente diferente. Mas aquilo não tinha como se sustentar. O Gorbachov apontou em um livro os problemas de um país em que você não podia ter uma religião, que tinha a economia totalmente centralizada, apesar de os desafios da saúde e da educação terem sido de certa forma resolvidos.

Não vou dizer que hoje eu chego lá e fico muito feliz, não. Não vejo muita felicidade no rosto das pessoas também. Observo nas minhas amigas, por exemplo, a diferença de status social e isso é reflexo dessa sociedade, algo que não existia na URSS. Lá, quando acabou o comunismo, o processo de privatização foi conturbado, esquisito. Os diretores viraram proprietários das grandes empresas, na maioria dos casos. Era do Estado e não era de ninguém, então quem se tornou dono? Ninguém sabe direito os critérios.

C: A partir dessa conjuntura econômica da nova ordem mundial – a globalização –, a possibilidade de uma potência comunista se erguer ou a ordem mundial migrar para o comunismo é cada vez mais improvável? Entre os comunistas, existem os românticos e os mais céticos. Onde você se encaixa?
Z: Que pergunta… (risos). Eu ainda acredito. O capitalismo não resolveu nenhuma questão, ele só se adapta. Eu acredito que a gente possa ainda ter uma sociedade diferente. Não digo que seja o comunismo. Não consigo vislumbrar exatamente como vai ser, mas eu gostaria que fosse uma sociedade pautada, principalmente, na liberdade humana. Hoje eu tenho um princípio mais anarquista do que comunista, e não tenho nem um pouco de vergonha de dizer isso. Até porque os anarquistas estavam no início do Partido Comunista. Acho que o anarquismo não faria mal à nossa sociedade porque o Estado está controlando tudo, até as mentes, o pensar.

C: E mais recentemente, como tem sido sua relação com a política?
Z: Eu gosto de política, eu acompanho, mas aqui no Brasil eu nunca me filiei a nenhum partido, até porque, em 1981, meu pai se desfiliou do PCB. Fui simpatizante do Brizola e até fiz campanha. Meu pai era presidente de honra do PDT, mas eu também nunca me filiei ao partido.

“Em Moscou, de repente meu tio virou meu pai”

Filha do “Cavaleiro da Esperança”

Foto por Mariana Pimenta

Foto por Mariana Pimenta

C: O estigma de ser filha de Luiz Carlos Prestes te incomoda?
Z: Nem um pouco. Me orgulho muito dos meus pais. Inclusive, devolveram o mandato do meu pai (em sessão solene do Senado em 22 de maio de 2013) e minha mãe se emocionou muito. Acho até que eu tenho responsabilidade com isso. Não gosto é que me tratem de uma forma diferente.

C: Na dedicatória da sua tese de doutorado, você diz que seu pai é uma “ausência presente” no seu caminhar. De que forma ele está presente até hoje na sua vida?
Z: Eu conheci meu pai como meu pai em Moscou. No Brasil, quando a gente o visitava, eu achava que ele era meu tio. Eu não podia saber. Em Moscou, de repente meu tio virou meu pai. Quando ele faleceu, eu tinha 28 anos e a convivência, apesar de não ter sido tão intensa quanto a com a minha mãe, me deixou de herança a vontande de não desistir de lutar nunca. Meu pai rompeu com o partido que ele dirigiu durante 60 anos aos 83 anos de idade e não teve medo porque percebeu que não podia mais mudá-lo, foi vencido pelo Comitê Central. Isso foi uma lição para mim: quando eu não acredito, eu não fico, não me envolvo.

C: Como você acha que seu pai será julgado pela História?
Z: Ele é um personagem da história brasileira e voltou para os livros. Por mais que queiram, seu nome não pode ser riscado e isso já é um julgamento. O Pedro Simon (senador do PMDB-RS) fez um dos discursos mais emocionantes, ao dizer que talvez o Senado estivesse em um dos seus atos mais bonitos ao devolver o mandato do meu pai. O fato de ele voltar à cena é uma forma de julgamento da história, não adianta tentar apagar.

C: O que você pensa sobre a Comissão da Verdade?
Z: Acho importante. Há um texto do (Theodor) Adorno em que ele diz que, para que Auschwitz não se repita, é preciso se lembrar do acontecimento. Então, para que a ditadura não se repita, a gente precisa se lembrar dela, principalmente as novas gerações. A Comissão está fazendo um trabalho importante, ao resgatar a verdade.

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