Jornalista lança livro

Inspirado em denúncia de tortura contra freira durante a ditadura

“E conhecereis a verdade e a verdade vos libertará” (João, 8:32)

Rebeca Letieri

Noite de domingo, quase véspera da noite de autógrafos. A jornalista e escritora mineira Denise Assis nos recebe um tanto apreensiva. Ela não tarda em admitir sua preocupação, não com a entrevista em si, mas com a possível interpretação do público-leitor para com seu novo livro, Imaculada. Afinal, a vida de jornalista se esgrime entre a busca incessante da confirmação dos fatos investigados e o apelo para abrir espaço à imaginação do escritor.

O lançamento marcado para quarta-feira, dia 9, às 19h na Livraria da Travessa, do Shopping Leblon, no Rio,  antecipa os 50 anos do golpe militar e preenche uma das muitas lacunas da História com um atraente romance baseado em fatos reais. Maurina Borges da Silveira era a madre superiora do Lar Santana, um orfanato para meninas, na Vila Tibério em Ribeirão Preto, em São Paulo. Maurina foi a única freira presa, acusada por subversão e torturada durante a ditadura. Como as muitas mulheres presas, a madre sofreu sevícias sexuais, as quais relata em carta enviada no dia 17 de dezembro de 1969 ao então Ministro da Justiça, Alfredo Buzaid.

Denise - foto para o currículo

Denise: inspiraçao na realidade

O tema sobre ditadura que acompanhou a vida da jornalista desde cedo tornou-se uma eterna procura pela verdade por trás de histórias que inspiraram a obra de ficção. Denise Assis trabalhou no Globo,  Jornal do Brasil,  O Dia, revistas Veja, Isto É e Manchete, e hoje integra a Comissão da Verdade do Estado do Rio de Janeiro. Escreveu os livros Propaganda e Cinema a Serviço do Golpe (Editora Mauad) e Vende-se Vestido de Noiva (Editora Rocco), e ganhou o título de Jornalista Amiga da Criança concedido pela Atenção Nutricional à Desnutrição Infantil, Andi. Aos 59 anos, recorda emocionada do período da ditadura vivido em Juiz de Fora (MG), de onde partiram as tropas do general Mourão Filho na noite de 31 de março de 1964, e conta com orgulho os grandes feitos que contribuíram para formular a recente memória do país.

A História

Cale-se: Como você acabou se envolvendo e se interessando por essa história?

Denise Assis: Na verdade ele (o livro) não é a vida da Madre Maurina. Em 1977 eu tinha recém saído da faculdade e comecei a colaborar com o CoJornal, que era um jornal de resistência de um grupo de jornalistas gaúchos, que contratavam freelancer no Rio. Eles fizeram uma matéria sobre os vários casos brutais da ditadura. Em 77 ainda podia se falar muito pouco, mas o jornal era bem atrevido. Então veio a morte do Lamarca, o caso Marighella, e uma citação da Madre Maurina. Na reportagem dizia que ela tinha sido seviciada, e aquilo me chocou muito. Porque imagina pra uma mulher iniciando a vida profissional, numa época que se discutia muito o gênero, ouvir uma história dessa. É um choque. E aí eu elegi naquele momento que essa seria uma matéria que eu gostaria de fazer, assim que eu pudesse, eu gostaria de comprar essa briga.

O tempo passou, quando foi em 1994 eu consegui falar com o D. Evaristo, mas ele não desdobrou na questão das sevícias, não quis falar no assunto. Ele então só conseguiu localizar a madre em 2003. E eu consegui obter o processo dela na íntegra no Arquivo Nacional, numa época em que os arquivos estavam fechados ainda. Mas eu negociei e consegui obter o processo.

Cale-se: Como você conseguiu?

D.A: Prefiro não dizer. Deu problema lá dentro. Mas não teve consequência pra ninguém. Mas imagina uma repórter buscando uma pauta de 77 a 2003 e a história não se configurar da maneira que ela era contada. Porque diziam que ela havia sido estuprada, havia engravidado na tortura, e teria tido esse filho. Isso era uma lenda. A partir do momento que eu consegui falar com ela, falar com a família e com o D. Evaristo, ficou muito claro pra mim que a gravidez realmente não existiu.

Passado um tempo, eu fiz um curso de roteiro, onde eles pediram para que eu formulasse uma história como exercício do curso. E eu achei que a ficção seria uma forma atraente de trazer as notícias da época pra uma geração que não ia ter disposição pra ir atrás do assunto. Essa história precisava ser contada. Uma freira torturada pela ditadura pra mim é o limite máximo da brutalidade. Mas é preciso que fique muito claro que não é a história dela. Que a história dela eu relatei jornalisticamente no Jornal do Brasil em 2003 dentro de todos os parâmetros da ética jornalística, tanto assim que ela não foi contestada e repercutiu muito.

Cale-se: Como foi conversar com a pessoa que inspirou sua personagem pelo telefone?

D.A: Ela foi muito receptiva. Mas o que eu pressinto é que os últimos dias dela foram praticamente uma prisão. Porque era proibida de falar sobre o assunto. Quando começou a conversar comigo, a provincial do convento tomou o telefone da mão dela e começou a gritar comigo, que deixasse ela em paz, que havia um trato, que ela tinha casa e comida graças ao silêncio dela, e que ela não podia mais falar com repórter. E aí, a madre Maurina ficou visivelmente humilhada, porque a vozinha dela encolheu. Aí eu falei: “olha, a senhora não pode falar, mas a senhora pode ouvir, a senhora se importa de ouvir?” E comecei a ler o processo libertando ela em 71, a documentação toda que eu tinha, e li a carta dela pra ela mesma. Quando eu acabei de ler, eu perguntei: “o que a senhora teria a dizer sobre essas pessoas?”. Aí, ela falou: “ah, eu perdoo todos eles, porque é uma historia que já passou, e perdão é coisa divina, e eu preciso perdoar”. E foi isso.

Ao passo que quando eu liguei pro D. Evaristo, ele disse pra mim que sempre desconfiou, mas que nunca tinha ouvido dela, dessas sevícias sexuais. Quando eu comecei a ler a carta dela, ele começou a chorar e me interrompeu: “para, pode parar, eu não preciso ouvir mais do que eu já ouvi. Eu vou falar”. E aí, ele falou revoltado. Condenou inclusive a atitude das freiras por proibi-la de falar.

A Ditadura

Cale-se: Como você vê a relação da igreja com a ditadura?

D.A: A Igreja tem dois momentos, dois movimentos. O primeiro foi apoiar a ditadura, tanto assim que o movimento pela Campanha da Mulher pela Democracia nasceu dentro da Igreja de Nossa Senhora da Paz. E o outro momento, foi quando, por exemplo, o próprio D. Paulo Evaristo fala na entrevista que eu fiz com ele, que o caso da madre Maurina foi a gota d’água pra que ele se posicionasse a favor dos resistentes da ditadura.

Cale-se: Por que você acha que teve essa mudança do primeiro momento pro segundo momento?

D.A: Porque no primeiro momento houve uma propaganda massiva disseminando a ideia de que o país tava um caos. E esse caos era fruto de uma conspiração. As pessoas se infiltravam nas greves dos sindicatos, a ultra direita. E promoviam baderna, tal como está se fazendo hoje. Pra que isso se refletisse de uma forma caótica e justificasse a entrada do exército pra dar o golpe. Eu não estou participando de nenhuma manifestação, porque eu já vi esse filme e tenho muito medo dele. E tal como hoje a ultra direita perdeu terreno. Eu não diria que isso está acontecendo, mas eu diria que é muito perigoso que alguém lance mão desse movimento sem liderança e sem propósito, com essa característica de não comportar partidos políticos ou lideranças. Mas eu também não acho que a gente possa tá vivendo um golpe militar. Não existe cenário pra isso.

No momento que a igreja passa a ver que realmente estavam torturando matando e desaparecendo com as pessoas, ela toma consciência, e parte pra uma participação mais efetiva. Eu não diria as grandes lideranças da igreja. A Igreja sempre ficou com a sua posição conservadora. Mas aquela igreja da teoria da libertação, dos dominicanos, tomou partido junto aos que estavam se confrontando com aquele poder opressor.

Cale-se: Como foi a experiência com a ditadura na sua infância?

D.A: Quando houve o golpe a nossa família era muito ligada a um deputado do PTB, que era o partido do Jango. E os filhos dessa família eram os meus amigos de brincar. Com o golpe essa família teve que sair de madrugada rumando para o interior do Nordeste, e ficaram lá tendo uma vida clandestina de sitiante. O chefe da família, o deputado, morreu na clandestinidade. Então isso me impactou diretamente na perda de amiguinhos de infância, na recomendação de que aquele dia em diante não se podia mais falar neles. Era como se de repente uma família inteira morresse. E houve uma mudança significativa no clima da família. Porque tudo passou a ser muito perigoso. Qualquer coisa de política era comentada aos cochichos.

Fora isso toda uma juventude passada no tacanho da ditadura. As pessoas as vezes falam: “as vítimas da ditadura”. Não. Vítimas fomos todos nós, o país inteiro. O país foi vitimado porque roubaram seu direito de se pronunciar, de ter uma arte livre, de ouvir as músicas que se queria ouvir. Tudo isso foi um impacto na vida do país, nós pagamos o preço disso até hoje.

Cale-se: Qual é sua posição ideológica hoje?

D.A: Eu nunca fui do Partido Comunista. Como todo mundo, passei pelos textos de Marx e de outros pensadores, para entender como funcionaria o Estado alternativo. Mas nunca me filiei a nenhum partido, porque como repórter, nunca quis ser apontada ideologicamente. Mas sempre militei com a esquerda e participei muito do movimento de fundação do PT aqui no Rio, e hoje em dia, não participo de manifestações. Por essa razão de eu estar assistindo com muita apreensão esse quadro. Pode parecer uma ideia reacionária no momento, mas eu não estou preocupada com rótulos. Estou preocupada com a minha consciência.

A Carreira

Cale-se: E porque você escolheu jornalismo?

D.A: Eu acho que por esse buscar. Porque aquela guerra, aquela fileira (do exército) que foi… (Denise se emociona) mudou o país, mudou a minha vida. Poderia ter sido de outro jeito. E desde aquele momento eu pedi pro meu pai comprar as revistas, todas que falavam no assunto. Eu nunca mais parei de buscar aquele assunto porque eu queria saber o que tinha acontecido com aquela guerra (visivelmente emocionada). Então o tempo todo eu fiquei esperando a oportunidade de poder entrar em contato direto com aquilo, e a maneira que eu tinha era o jornalismo.

Em 1986 eu fiz a primeira matéria sobre isso. Ela levou dois anos pra ser publicada, ficou na gaveta, esperando a hora em que os editores não considerassem que havia risco. As pessoas nos anos 80 tinham muito medo desse assunto. Então ela foi publicada no Caderno B do J. Brasil em 88. E daí eu não parei mais de buscar fazer matérias sobre o assunto.

Cale-se: Como você avalia a atuação da mídia durante o período da ditadura e os dias de hoje?

D.A: A mídia apoiou o golpe diretamente. O único jornal que ficou de fora foi o Última Hora, que foi empastelado e não sobreviveu. Só foi haver uma reação na imprensa quando a censura entrou nas redações e começou a interferir na vida dela, tanto do ponto de vista comercial como editorial. Alguns não, o Correio da Manhã, por exemplo, uma semana depois do golpe já estava contra. Outros demoraram um pouco mais, como o Jornal do Brasil, mas tiveram seus quadros de jornalistas que foram para a luta armada e sofreram consequências. Mas, de um modo geral, a mídia é conservadora. Hoje, principalmente, vê-se isso. Porque, muito mais do que um poder político, a gente tem um poder econômico. Quem governa, hoje, é o poder econômico.

Cale-se: Como você vê a força das redes sociais, hoje, no papel de oferecer informação contra hegemônica?

D.A: Acho que a rede social desempenha esse papel da outra voz. É o canal onde os inquietos podem se manifestar, porque, na mídia hegemônica, não há espaço para desafinar o coro dos contentes. Tem muita gente escrevendo coisas que não estão de acordo com suas consciências, mas estão defendendo seus empregos. Até porque a gente tem poucos veículos fortes, que possam empregar mais jornalistas, então é um movimento de sobrevivência, tanto da própria mídia, quanto dos colegas nela.

Cale-se: Qual é sua visão, então, sobre a regulamentação dos meios de comunicação?

D.A: Eu acho que não tem remédio. Mídia e Igreja vão adotar sempre uma postura mais conservadora. A Igreja porque tem seus dogmas, e a mídia porque precisa sobreviver. Quem banca a mídia é o capital, que jamais vai estar do outro lado. Pode parecer uma posição pessimista, mas é isso que eu acho. A não ser pelo fortalecimento das redes sociais, o que também é muito perigoso, pois na rede não há o compromisso ético com a verdade. Não é jornalismo. Mas pode-se tentar organizar isso em um site mais profissional, aproveitar a agilidade que essa rede dá, e fazer um trabalho mais sério. Tem muitos blogs por aí.

A Memória

Cale-se: Qual a importância de falar sobre esse assunto hoje?

D.A: Eu acho que tem um grande equívoco quando se fala sobre esse período. E que eu me bato muito por isso. É muito comum separar o momento do golpe, do momento de tortura. A ditadura foi violenta desde os seus primeiros momentos. As duas da tarde do dia primeiro de abril, dois jovens foram mortos no Recife por uma fileira postada em posição de guerra na principal praça da cidade. Eles atiraram simplesmente porque eles estavam gritando contra a queda do Jango. Então nos primeiros acordes daquela ditadura já houve morte, já houve invasão de sindicato, prisões, torturas. Isso é uma coisa só.

Fica mais fácil explicar da outra maneira, porém isso provoca uma ruptura na indignação, porque aí fica aquela coisa: “não, 64 foi tranquilo”. NÃO! (exaltada) 64 foi a ruptura da liberdade, foi a causa principal de tudo o mais que resultou disso. Temos que desfazer essa ideia de que “ah teve um bando de porra louca que pegou em arma e levou porrada”. Esse bando de porra louca pegou em arma porque um dia lhes roubaram a liberdade. E começaram a persegui-los. Esse é um alerta pra nova geração.

Cale-se: E como você vê o panorama atual, na construção dessa memória?

DA: Eu acho que a memória é necessária. É preciso que a gente não cometa o erro de repetir. E pra não repetir, a gente precisa dizer o que houve, doa a quem doer. Porque quem perpetrou todos esses atos, sabia que poderia ter consequências. Ou na época tinha uma consciência tão grande da impunidade, que fez a revelia de qualquer coisa.

Primeiro porque não se desmontou o aparato repressivo. Ele continuou, tanto que hoje está sendo usado nas ruas da mesma maneira. Segundo, o modo de operação da polícia foi passado por aquele sistema que se manteve. Os torturadores saíram do seu cargo de torturador, pra assumir delegacias, cargos de polícia. A técnica de sufocamento por saco plástico é usada barbaramente nas favelas hoje e ela é uma técnica trazida pela repressão da ditadura. Então quando as pessoas falam “o que tem a ver ficar procurando essas histórias com o hoje”, tem a ver com isso. Tem a ver com desmantelar, em desmascarar, e dizer que isso veio de lá e precisa ser punido. Porque do contrário isso vai se perpetuar. Esse foi o legado mais terrível da ditadura: a impunidade.

Uma das coisas que é muito flagrante pra nós (Comissão da Verdade) que estamos lidando com essa pesquisa, é a situação dos arquivos. Você encontra tudo de 1945 e 80 intacto, organizado. Quando a gente pede qualquer documento nas secretarias, nos órgãos de segurança do Estado, da década de 70, as pessoas ficam lívidas na mesma hora, e em seguida passam a descrever como vai ser difícil encontrar aquilo porque o arquivo esta deteriorado. Aí dá pra vê que houve uma intenção do estado nesse esquecimento. Ele não cuidou, deixou deteriorar pra ver se a história apagava por si só. Não contava que a gente fosse lá, mexer, reempilhar e se meter naqueles entulhos pra tirar coisa.

Cale-se: Como a Comissão da Verdade lida com a impunidade?

D.A: A Comissão do Estado do Rio defende a punição. Eu trabalho e pertenço a Comissão da Verdade do Rio. Porém a minha posição pessoal sempre foi pelo seguinte: não se poderia ter aceitado a lei da anistia da maneira que ela foi feita. Ok, ela passou. Eu acho que houve uma desmobilização na sociedade, durante esses 20 anos, de não se falar mais nisso. Ou de não se cobrar, pelo menos não como se cobrou em outros países. O Brasil é um país muito despolitizado. Se com todos os meios de comunicação que a gente tem, muitas pessoas não conseguem acompanhar a vida política, os direitos de cidadão e tudo o mais, você imagina um país onde não se falava nada. Jornal era quase um programa de variedades, ou um boletim oficial do palácio do planalto, dos generais. E com isso as pessoas foram arrefecendo na sua indignação a ponto de hoje em dia embaralhar as versões. É bem verdade que alguns ícones dessa esquerda rasgaram a sua biografia em praça pública. E a gente não tem controle sobre isso. É lamentável.

Agora, eu acho que trazer a publico, contar e dar nome é também uma grande punição. Porque você dizer no Jornal Nacional que prenderam o coronel Ustra, amanhã, não vai se saber porque o coronel foi preso. Ao passo que se colocarem no livro didático, quem foi o Ustra, como funcionou a OBAN, dizer quais eram essas empresas que financiaram e sustentaram essa ditadura, traz muito mais impacto, talvez, do que a punição pura e simples. Agora, já ta sendo muito difícil pra Comissão trabalhar com a certeza de que eles não serão punidos, eu imagino que se houvesse alguma brecha pra modificação da anistia e eles sentissem que poderiam ser punidos, aí mesmo que seria difícil.

O Lançamento

Cale-se: Está animada para o lançamento do livro na quarta-feira?

D.A: Sim! Na verdade, pela primeira vez, estou apreensiva. Porque estou com muito medo de haver essa mistura, um mal entendimento sobre o que é ficção e o que é realidade, isso me preocupa. Não entender que é apenas uma versão, apenas uma forma de trazer a história da Madre Maurina como um gancho para mobilizar uma juventude que está desconectada dessa pesquisa.

Livro Imaculada

Livro Imaculada

O primeiro livro que eu lancei era um livro-reportagem, que dava a ideia de que eu estava jogando uma verdade que as pessoas não tinham à mão. Era quase um feito, eu me senti orgulhosíssima. O segundo livro é quase uma brincadeira, são nove mulheres escrevendo romance policial. Eu não tinha o compromisso. Já este, agotra, é um misto. Em 2003, eu comecei a escrevê-lo, em forma de roteiro. Mas era muito pouco, o espaço não atendia a tudo que eu queria falar. Aí eu comecei a ampliar e transformar em livro, em 2008. E parava. Não sei se tinha um certo freio em função dessas dúvidas que tenho agora. Em 2011, eu parei, guardei e fui assistir à palestra do Javier Cercas na Bienal, que é um escritor espanhol e faz romances históricos, exatamente essa mistura da ficção com o fato histórico. Quando a palestra terminou, eu falei que estava escrevendo um livro no mesmo estilo e que estava com crise de consciência, achando que estava usando muito a história pessoal da pessoa. Aí ele falou “olha, faz o seguinte: para e pensa qual é a pergunta que você se faz. Se existe uma pergunta a ser respondida de qualquer maneira, ainda que seja na ficção, o seu livro vale a pena”. E a grande pergunta era: ela engravidou? Essa pergunta não tem resposta. Mas só na ficção eu poderia responder.

***
Rebeca Letieri é estudante de Jornalismo da UFF e bolsista do projeto Jovens Talentos. Atua também na cobertura dos protestos organizados em todo a região metropolitana do Rio de Janeiro, na rede de comunicadores independentes Alternativa.
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