Entrevista com Cid Benjamin

Largar o carvão para celebrar a vida

João Pedro Soares

Gracias a la vida. Um título de livro, inspirado na canção da compositora chilena Violeta Parra, condizente com a história de vida de quem tem muito a agradecer. Pode soar estranho, no entanto, quando se trata da história de um militante que sofreu as atrocidades de um regime autoritário. Mas, ancorado em uma frase de Buda – “o rancor é como um carvão em brasa, um dia pode queimar você mesmo” – o jornalista Cid Benjamin faz questão de exaltar todas as coisas boas que a vida lhe trouxe, assim como Nelson Mandela, um de seus ídolos pelo exemplo de resistência pacífica do líder sul-africano.

Natural do Recife, Cid Benjamin foi líder estudantil em 1968 e, depois, guerrilheiro urbano pelo MR-8 (Movimento Revolucionário 8 de Outubro). Foi preso em 1970 e libertado em troca do embaixador alemão Ehrenfried von Holleben. Passou quase dez anos no exílio. Viveu no Chile – estava lá em 11 de setembro de 1973, no dia do golpe militar que depôs Salvador Allende – além de Cuba, Argélia e Suécia. Foi um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores (PT) e hoje milita no Partido Socialismo e Liberdade (Psol). Trabalhou como redator no Jornal do Brasil e no Globo. Atualmente, é assessor de comunicação da Comissão Estadual da Verdade do Rio de Janeiro.

Cid Benjamin

Cid Benjamin: o olhar de um ex-guerrilheiro

Em entrevista ao Cale-se, o jornalista, 64 anos, fala sobre como foi escrever esse livro de memórias, acompanhadas por reflexões sobre elas. Com a longa experiência de militância, incluindo a participação da captura do embaixador estadunidense Charles Burke Elbrick, analisa os fenômenos políticos atuais e critica a comparação dos black blocs com os guerrilheiros dos anos 70. Cid ainda comenta as iniciativas de construção de memória da ditadura militar e a reforma política, sobre a qual participaria de um debate no dia da entrevista, tratada por ele com bastante cautela. A curto prazo, aposta na reeleição de Dilma Rousseff e no título de campeão de seu Flamengo na Copa do Brasil na próxima quarta-feira, no Maracanã.

Cale-se: Como foi o processo de produção do livro?

Cid Benjamin: Bom, como eu digo logo na apresentação, a ideia desse livro é antiga. Em alguma medida, surgiu por sugestão de amigos que eu pusesse no papel não só o relato das minhas experiências, como uma reflexão sobre elas. Durante muito tempo, eu não comecei esse projeto por falta de condições materiais. De um lado, estava muito envolvido na luta pela sobrevivência, trabalhar, sustentar a família. De outro, muito envolvido na militância política, que me tomava muito tempo. Mas depois fui me dar conta de que o elemento principal não foi nenhum desses dois. Na verdade, eu precisava refletir mais, decantar certas experiências, porque eu não queria repetir livros que já tinham sido escritos. Não por considerá-los ruins, mas achava que eles tiveram sentido em um primeiro momento, só que, muitos anos depois, repetir aquela coisa de relato não era algo que valesse a pena.

Então, eu queria fazer algo que não fosse só o relato, mesclasse o relato com a reflexão. No primeiro capítulo do livro, tem uma descrição sobre a vida na clandestinidade. O segundo é sobre prisão e tortura, e o terceiro é uma reflexão sobre a tortura: a humanidade e a tortura, o torturado e a tortura, o torturador e a tortura. E assim eu vou fazendo, ao longo do livro, mesclando o relato com a reflexão. E só me senti com todas as condições de sentar para começar a escrever – sejam as condições materiais, sejam as de reflexão – em meados do ano passado, quando eu começo a trabalhar no livro e termino a parte de redação entre abril e maio deste ano. Enfim, procurei a editora, e saiu relativamente rápido, porque a editora Jose Olympio se interessou bastante, e mexeu até no cronograma de publicação do livro para que ele saísse ainda este ano.

Cale-se: Como você se sente ao narrar e refletir sobre um período tão complicado na sua vida?

Cid: Olha, isso é muito de cada um. Eu respeito profundamente quem não quer falar e acho que é muito de cada um mesmo. Eu tratei, desde o primeiro momento, de não ficar vivendo a tortura ao longo do tempo. Eu conheço algumas pessoas que, por questões de traumas, e tal, convivem com a tortura décadas depois. Isso é muito doloroso. É como se a pessoa estivesse ainda sofrendo a tortura. Eu nunca senti isso, e de fato nunca senti ódio pelos torturadores.

“Buda diz que guardar ódio, ressentimento

ou rancor é como ficar com um carvão em brasa

para jogar em outra pessoa:você que acaba se

queimando.”

Eu cito uma frase do Buda, que está no terceiro capítulo, em que ele diz que guardar ódio, ressentimento ou rancor é como ficar com um carvão em brasa para jogar em outra pessoa: você que acaba se queimando. Evidentemente, eu acho que os torturadores têm que ser julgados e punidos, mas quando eu penso no assunto, em um futuro para eles, tenho um raciocínio mais político do que pessoal. De fato, eu não tenho ódio pessoal deles. Já expressei isso várias vezes, mas respeito o direito de quem sente o ódio.

Cale-se: Você vê o debate sobre a necessidade de punição aos torturadores como um empecilho para a recuperação da memória sobre a ditadura militar?

Cid: Talvez seja. Talvez eles, com medo de que um dia possam vir a ser punidos, se fechem. Mas é uma necessidade da sociedade. Eu gosto muito de citar o exemplo do Mandela, figura de enorme grandeza. Quando foi preso, na África do Sul, ainda sobre o regime do apartheid, era o comandante do setor armado do Congresso Nacional Africano, um partido de oposição ao apartheid. Ele foi barbaramente torturado, ficou 27 anos preso, 13 dos quais quebrando pedras, em trabalhos forçados, mais de 20 anos em celas solitárias, e tinha tudo para ficar ressentido e amargurado. No entanto, há poucas pessoas mais de bem com a vida do que o Mandela. Aliás, eu depois me arrependi de não ter dedicado esse livro a ele, que tem tudo a ver com o Gracias a la vida, com a figura que é o Mandela.Quando o regime acabou, ele foi eleito Presidente da República, e tinha tudo para estar voltado a um ajuste de contas. Coisa que ele não fez. Ele apresentou um projeto de anistia, que se extendia aos torturadores e assassinos da polícia política racista. Mas com uma condição: eles teriam de vir individualmente ao tribunal reconhecer de público o que fizeram. Se omitissem algum ato, poderiam ser processados, julgados e condenados por aquele ato. Foi algo que mexeu muito com a sociedade sul-africana, a qual sabia que existia tortura e maus tratos a presos, mas não tinha ideia da dimensão da coisa.

Agora, o que o Mandela queria com isso? Promover um choque na sociedade sul-africana, para que aquilo não se repetisse. E achava que era secundária a própria punição aos criminosos. Eu penso que ele mostrou muita grandeza de espírito, nesse sentido, e eu me guio um pouco por esse tipo de raciocínio também. É um raciocínio político achar que precisa-se levantar aquilo que aconteceu, a Comissão da Verdade precisa existir, os arquivos das Forças Armadas precisam ser abertos – e estes são os arquivos que interessam mesmo -, colocar os caras nos bancos dos réus e puni-los, saber onde estão os restos mortais dos desaparecidos, isso tudo. Agora, no plano pessoal, eu separo. É uma avaliação política que me leva àquelas conclusões anteriores.

Pessoalmente, eu não tenho uma relação de ódio e rancor. Enfim, falo dessa passagem da minha vida como falo de outras passagens. Não é à toa que eu escolhi este título para o livro. Não quero que o livro seja visto como uma coisa de vitimização, denúncia de barbaridades, eu quis fugir desse negócio e festejar a vida, com toda a riqueza que ela tem, além dos outros lados, que são duros. Mas foi de caso pensado não optar por um caminho da vitimização, me tratar como vítima, e tal. Tiveram até exemplos de matérias de jornais boas sobre o livro, dentre elas uma em que o repórter é muito bom e compreendeu tudo. Mas quando ele mandou o texto para eu ler, vi que o editor tinha colocado o título “Autobiografia de um torturado”. Eu não me apresento como tal no livro, meu perfil não é esse.

Cale-se: De que forma você avalia a atuação da Comissão da Verdade, nos níveis nacional e estadual, e dos grandes jornais na produção de memória sobre o período?

Cid: Eu não acompanho muito de perto o trabalho das várias comissões da verdade, mas sei que a comissão nacional está tendo problemas internos, de divergências entre os integrantes, mas não quero opinar sobre isso porque não estou acompanhando de perto. O trabalho aqui no Rio está sendo muito produtivo. Acho que deve ser destacado o papel do Wadih Damous (Presidente da Comissão Estadual da Verdade no Rio), pois a comissão é muito boa. E a gente está avançando bastante. A pedra de toque deste trabalho todo é conseguir a abertura dos arquivos das Forças Armadas. Mas isso depende menos da Comissão da Verdade e mais do Presidente da República exercer seu papel de comandante em chefe das Forças Armadas e determinar isso. Por enquanto, nenhum deles tomou essa providência. Mas está se avançando bastante.

“A pedra de toque deste trabalho é conseguir

a abertura dos arquivos das Forças Armadas.

Mas isso depende menos da Comissão da Verdade

e mais do Presidente da  epública exercer seu papel

de comandante em chefe das Forças Armadas.”

Acho que este não é um trabalho, ao contrário do que alguns possam imaginar, de quem está preocupado em andar para trás, mas de quem está preocupado em andar para frente, que o país conheça seu passado, para não repetir os erros e, de forma mais sólida, construa uma democracia. Não passa pela minha cabeça estigmatizar as Forças Armadas, querer criminalizá-las, até porque os atuais integrantes não estavam na ativa naquela época. E as Forças Armadas são uma instituição nacional, permanente, importante, e ninguém ganha se elas ficarem desmoralizadas. Por outro lado, elas também têm que compreender isso, e não podem ficar afirmando que o Vladimir Herzog se suicidou, nem outras barbaridades desse tipo. É preciso que haja um jogo mais franco de parte a parte. Acho que esse levantamento que aconteceu é parte de construção do futuro, não é mexer no passado. É criar condições para uma democracia mais sólida, em que a questão das Forças Armadas, inclusive, vai ser uma questão não dela, mas da sociedade. Por exemplo, a sociedade têm que discutir que tipo de formação se dá para os futuro oficiais. Até hoje, nas escolas militares, o Golpe de 64 é estudado como a revolução salvadora de 64. Isso não se justifica, porque as Forças Armadas não são dos militares, são do país. Então, é preciso uma interpretação pelo menos mais ampla, democrática e com contrapartidas. Não é à toa que, há uns dois ou três anos, um grupo de jovens oficiais recém-formados nas Agulhas Negras escolheu como paraninfo o Médici. Este tipo de coisa tem que ser enfrentada, conversando abertamente com os próprios militares. Sem uma visão revanchista, mas entendendo que a construção do futuro passa pelo conhecimento do passado.

Ficha de identificação de Cid Benjamin na polícia, em maio de 1970

Ficha de identificação de Cid Benjamin na polícia, em maio de 1970

Cale-se: Você já falou mais de uma vez que considera a luta armada um erro, por se estar lutando com um inimigo de força desproporcional. Qual você considera o legado mais positivo daquele período?

Cid: O maior legado foi você ter toda uma geração muito desprendida, generosa, que jogou a própria vida, o futuro, na construção de um país e uma sociedade melhor, em que a política seria feita com generosidade e não como uma forma de se “conseguir uma boquinha”, nem de ascensão social. E foi uma geração, de certa maneira, heroica. Então, eu me orgulho de ter feito parte dessa geração. Agora, isso não a absolve dos erros políticos da luta armada, que, naquelas circunstâncias, não tinha condição de vingar. Embora tenha sido legítima. Eu sempre faço essa diferenciação, entre o acerto político da luta armada, que não houve, e a sua legitimidade. É legítimo você se levantar em armas contra um regime de opressão. A legitimidade não está em discussão, e sim a legitimidade política daquelas formas de luta.

Cale-se: Nas grandes passeatas de junho, a ação direta voltou a ser praticada, por meio dos Black Blocs. Apesar de a conjuntura política ser completamente diferente, você acha que um erro político está sendo novamente cometido?

Cid: Eu acho um certo exagero comparar a ação dos Black Blocs à guerrilha. Nesse aspecto da ação direta, alguns dizem “ah, não tem outro jeito”, como se as dificuldades de se modificar as coisas efetivamente pelas vias institucionais conduzissem, necessariamente, à violência, como se não houvesse problemas também do outro lado. Nós fizemos um raciocínio de que, com o fechamento do regime, o AI-5, etc., não havia muitos canais para a luta institucional e, portanto, a luta armada seria a solução. Não! Uma coisa não implica, necessariamente, a outra. O fato de candidatos não muito diferentes do Cabral poderem ser eleitos na próxima eleição não significa, necessariamente, que o caminho seja quebrar as coisas no meio da rua. É algo bastante infantil pensar que, quebrando determinados símbolos do capitalismo, está se lutando contra ele. Isso sem contar que esses jovens mascarados não quebram só símbolos do capitalismo, andaram quebrando pontos de ônibus, lixeiras, carros particulares.

“Eu acho um certo exagero comparar a ação

dos Black Blocs à guerrilha (…) .É algo bastante

infantil pensar que, quebrando determinados

símbolos do capitalismo, está se lutando contra ele.”

Acho até que muitos deles podem ser bem intencionados, eu respeito, mas são agentes políticos, estão agindo politicamente. Quem tá na chuva é pra se molhar. Eles podem ser criticados politicamente. Eu considero que a ação deles mais atrapalha do que ajuda. Não é à toa que, muitas vezes, a ação deles se confunde com a de policiais infiltrados, que fazem o mesmo tipo de coisa. Então, alguém está comendo mosca aí, ou os policiais infiltrados ou eles, porque, teoricamente, são adversários ferrenhos. Mas quando convergem no mesmo tipo de ação, alguém está errando politicamente. Eu acho que os mascarados é que estão errando.

Cale-se: As críticas aos Black Blocs vêm sendo feitas tanto à esquerda quanto à direita. Você não acha que há um perigo na criminalização desse movimento? E sem essa ação, os jornais dariam o mesmo destaque a manifestações pacíficas?

Cid: Olha, essa coisa de “se não houvesse isso, seria aquilo”, não dá pra saber. Agora, efetivamente, há um processo de criminalização. Eu lembro que em São Paulo, já nas primeiras passeatas, em junho ainda, alguns presos foram enquadrados na Lei de Segurança Nacional, que muita gente nem achava que existia ainda, é uma lei da ditadura. Agora, estão enquadrando pessoas nessa lei de organizações criminosas, criada para combater máfias ou milícias, não para crimes corriqueiros. O que é, evidentemente, uma distorção.

Sobre a mídia, independentemente de que ela vive da imagem e, portanto, uma foto de um ônibus pegando foto é mais chamativa do que a de uma manifestação, existe também um viés de destacar o negativo, e não o positivo, que seria uma grande passeata pacífica, etc. Agora, essa mídia é parte do jogo. Se as pessoas começarem a queimar ônibus, daqui a pouco, a foto vai ser do ônibus, e não da passeata. E a mídia vai por aí mesmo, ela é parte do jogo. Já que é assim, vamos tomar cuidado para não colocar a bunda na janela, senão vão fazer a foto da nossa bunda na janela.

Eu não gosto de ficar reclamando da mídia, acho que é preciso haver políticas e propostas práticas para democratizar a mídia no Brasil. a Argentina nos deu um exemplo recentemente. A Inglaterra também está regulando. E me refiro não basicamente à mídia impressa, porque no capitalismo, o cara que quer montar um jornal ou uma revista, ele junta dinheiro, contrata pessoas, uma gráfica, vê um esquema de distribuição e faz, é de cada um. Mas na mídia eletrônica, todo mundo passa por uma regulação do Estado, porque você não pode conceder canais, fazer com que eles se multipliquem, porque irão se sobrepor, no espectro eletromagnético, e vai haver interferência. Além disso, você tem que reservar canais para ambulância, bombeiros, aviação, etc. Então, há uma limitação física, que é dada, para um número de canais de televisão no Rio de Janeiro, em São Paulo, etc. Por isso o Estado intervém, no mundo inteiro, com critérios.

No caso do Brasil, é um escândalo essa distribuição, está na mão de grandes tubarões e é uma moeda de troca. O Sarney comprou o quinto ano de mandato com o Antonio Carlos Magalhães como ministro das Comunicações, subornando deputados e senadores, dando concessões de rádio pelo Brasil inteiro. Então, temos que rever isso tudo. E, inclusive, não permitir que um mesmo cidadão tenha, no mesmo espaço, canais de televisão, várias rádios, jornal, porque isso é uma concentração que não serve à sociedade e à democracia. Ela pressupõe você ter uma diversidade maior. Acho legítimo que a direita tenha uma televisão, mas a esquerda deveria ter. Entidades de massa deveriam ter também. Enfim, deve haver critérios mais democráticos para isso. Refiro-me aqui, especialmente, à mídia eletrônica. Esse processo de concessões tem que ser revisto. Até porque o que a constituição estabelece não é cumprido. Os canais são concessões. Por exemplo, a família Marinho é dona dos seus prédios e equipamentos, mas é uma concessão ela utilizar aquele canal. E a constituição determina que os canais sejam usados com fins educativos. E aí eu nem falo da Globo, que funciona como um partido político, tem a melhor programação. Se você pegar a programação aberta das outras estações, com exceção da TV Brasil, é extremamente deseducativa, preconceituosa, com espaços vendidos à programas religiosos, o que deveria ser proibido, pois religião é algo de cada um. A garantia é que cada um possa se dedicar à sua religião como queira, mas o Estado não tem nada a ver com isso. Não é razoável dar isenção fiscal para templos religiosos. Os pastores e padres compram carros em nome da igreja porque não pagam IPVA, o prédio não paga IPTU. O Estado é laico ou não, afinal?

Há muita coisa a ser mexida, e aí entram as comunicações. A diferença com aquele tempo é que, lá, a pressão era maior. Além das emissoras já serem de direita, havia a pressão dos militares em cima delas. Ou pressão aberta, pelo censor, ou aquela coisa de que é melhor não mexer com isso porque vamos ter problemas. Alguns jornais foram boicotados pelos militares, que foram em cima dos anunciantes, e eles morreram. A publicidade é 70, 80 por cento da receita do jornal. Os militares mataram o Última Hora e o Correio da Manhã, que ensaiavam uma oposição.

Cale-se: Qual é a sua opinião sobre a reforma política? Você considera que, em meio a essa grande ebulição política, perdeu-se uma boa oportunidade para fazê-la?

Cid: Que uma reforma política é necessária, ninguém tem dúvidas. Agora, pra começar, a reforma política é um tema, não uma proposta. Dentro dela, você tem propostas malucas, até a volta da monarquia! Então, quando você entra nas propostas, vê que aquela concordância sobre a necessidade da reforma política deixa de existir. Em segundo lugar, sobre a proposta de constituinte restrita para a reforma política, eu tenho muito medo. As constituintes, em geral, melhoraram as constituições existentes. Em 34, apesar de ter um viés corporativo e Getúlio já ter começado a centralizar o governo, comparando com a República Velha, foi um avanço. Depois, na constituição de 46, que vem depois do Estado Novo, também há um baita avanço em relação ao que se tinha. E depois, a de 88, vem depois da ditadura. Ou seja, quando vem as constituintes? Quando há uma ruptura institucional ou uma mudança de regime. Acaba um período e começa um novo. Em geral, com uma relativa participação popular, um acompanhamento popular. Isso leva a que propostas progressistas tenham mais chances de ser aprovadas. O que é difícil, quando se vai discutir essa questão a frio, porque o voto no parlamento brasileiro é muito despolitizado, mais do que no Executivo.

Eu não tenho ilusões de que o próximo congresso vai ser melhor do que esse. Aliás, esse foi pior do que o anterior, que, por sua vez, foi pior do que o anterior. Então, essa questão da reforma política, se ela vai ser aprovada, eu temo que fique pior do que está. Que se acabe com o voto proporcional, e coloque-se o distrital, que se aprove a cláusula de barreira, que se escancare de vez essa coisa de doação eleitoral ilimitadas de empresas. Então, eu sou muito cauteloso, quero fazer isso quando houver um momento de ebulição, acompanhamento e participação política, e de superação de uma situação anterior vista como pior. Aí as constituições serão melhores. A constituição de 88 é melhor do que a que se tinha, mas cada vez que se mexeu nela depois, foi para piorar. No meu ponto de vista, pelo menos. Todas as emendas do Fernando Henrique pioraram a constituição. Então, eu temo, embora seja evidentemente necessária.

Cale-se: Está otimista para 2014, quando teremos eleições?

Cid: Não. Acho que não vai mudar nada. Quer dizer, a tendência é que a Dilma se reeleja e, a curto prazo, qualquer ameaça à Dilma tenda a ser uma alternativa pior do que ela. Eu saí do PT, não vou votar na Dilma no primeiro turno, posso votar em um segundo, como votei contra o Serra. Mas não vejo uma perspectiva de grande melhora em breve.

Cale-se: Está otimista sobre o rumo das manifestações? Pode haver uma guinada à esquerda?

Gracias a la vida

Gracias a la vida

Cid: Pode. Essa coisa de movimento de massas é difícil de prever. O Magalhães Pinto, um velho político mineiro, que era um grande frasista, dizia que política é como nuvem. Você olha agora, está de um jeito. Em seguida, já está de um jeito diferente. O que se imagina para o ano que vem é que haja manifestações, etc., até aproveitando o fato da Copa. Tem muita gente que interpreta isso de forma equivocada, como se fosse uma sacanagem fazer manifestação quando tem Copa das Confederações. Não, ao contrário, é uma forma boa porque, nesse momento, o mundo está olhando para cá, vai haver mais repercussão, é uma questão de oportunidade política mesmo. Então, acho que, ano que vem, haverá manifestações. Não sei como vão se desdobrar, nem como influirão na própria eleição. Mas não me parece que o ciclo do PT vá se esgotar em 2014. Para 2018, já não afirmaria a mesma coisa. Aliás, não afirmaria nada, mas, agora, não tende a se esgotar. Acho que a Dilma vai ser reeleita.

“Tem muita gente que interpreta como

sacanagem fazer manifestação quando

tem Copa das Confederações. Ao contrário,

é uma forma boa porque, nesse momento,

o mundo está olhando para cá.”

Cale-se: Há um temor, em alguns segmentos da esquerda, de que o impedimento de que a Copa do Mundo aconteça justifique uma intervenção militar. Você compartilha dessa preocupação?

Cid: Não. Primeiro, eu acho que os segmentos que não querem que a Copa aconteça são muito limitados. Por mais que isso possa surgir em uma ou outra manifestação, é muito mais para dizer “estamos aqui, prestem atenção, senão não vai ter copa”. Não é que as pessoas sejam contra a Copa do Mundo. Claro que a maioria das pessoas preferia uma Copa sem tanta roubalheira, de uma forma não faraônica. Ou até que não fosse feita a Copa, mas em uma decisão lá atrás, porque hoje em dia, o dinheiro já foi gasto. Não vejo muita ojeriza à Copa do Mundo em si. Acho que uma intervenção não está no horizonte, os próprios militares não querem.

***

Os alunos do Jornal Laboratório da Faculdades Integradas Hélio Alonso (FACHA) fizeram um belíssimo vídeo com a música de Mercedes Sosa ao fundo. Uma homenagem à mãe de Cid, Iramaya Benjamin, que foi uma das maiores lutadoras pela anistia.

“Gracias a la vida que me ha dado tanto
Me ha dado la risa y me ha dado el llanto
Así yo distingo dicha de quebranto
Los dos materiales que forman mi canto
Y el canto de ustedes que es el mismo canto
Y el canto de todos que es mi propio canto

Gracias a la vida, gracias a la vida”

***

João Pedro Soares é estudante de jornalismo e bolsista do projeto de extensão Afasta de mim este Cale-se, da Universidade Federal Fluminense, em Niterói (RJ)

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