A ditadura e o AI-5

na memória de dois professores da UFF

Janaína Medeiros

“Algumas pessoas achavam que era o AI-5 era ‘coisa para inglês ver’, um amigo que me falou isso acabou preso dias depois”. Antonio Amaral Serra
“Era uma tortura extremamente desmoralizante, pois afetava os órgãos, nós perdíamos o controle sobre nosso corpo”. Luiz Alberto Sanz
A memória de dois professores da UFF por Rebeca Letieri

A memória de dois professores da UFF por Rebeca Letieri

          A plateia de estudantes que assistiu aos depoimentos de dois professores da UFF e ex-militantes políticos teve a oportunidade de viajar no tempo no dia 3 de dezembro, mais precisamente aos anos 60 no Brasil, marcados por tempos de arbítrio e radicalismo

        O evento Militância política: um olhar de quem viveu a ditadura, realizado no auditório Interartes do IACS, contou com a presença do cineasta e jornalista Luiz Alberto Sanz e do professor de Filosofia e ex-diretor do IACS Antonio Serra. A moderação coube os alunos João Pedro Soares e Gabriel Vasconcelos. com organização do Afasta de mim esse cale-se em parceria com o jornal O Casarão

            O jornalista e cineasta Luiz Alberto Sanz, professor titular aposentado do Departamento de Comunicação Social da UFF, foi membro do Partido Comunista Brasileiro e participou da luta armada durante a ditadura como integrante da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR). Preso e torturado, foi trocado pelo embaixador suíço Giovanni Enrico Bucher, sequestrado em 1970.

Trabalhou no Jornal do Commercio e foi demitido quando seu chefe descobriu sua ligação com a União Nacional dos Estudantes (UNE), da qual foi pré-candidato a um cargo na direção. “Na época da ditadura ninguém se declarava comunista, a gente se mantinha clandestino o máximo possível”.

            Sanz teve diversas passagens pela prisão. A principal ocorreu depois que foi procurado na UFF, quando era diretor da Imprensa Universitária, por um delegado de Niterói conhecido como Agra. Mudou-se para São Paulo com a ajuda da VPR, porém não encontrou um militante que deveria cobrir seu ponto de encontro para transmitir informações sobre ações do grupo clandestino. Descobriu mais tarde que seu contato já havia sido preso e tratava-se da hoje presidente da República, Dilma Roussef, então militante da VPR. Viveu algum tempo dando aulas de teatro com nome falso, até que um de seus companheiros foi preso e entregou os demais sob tortura.

          O próprio Sanz foi vítima da violência do regime militar. Foi torturado com choques elétricos nos órgãos sexuais. “Era uma tortura extremamente desmoralizante, pois afetava os órgãos, nós perdíamos o controle sobre nosso corpo”. Acabou revelando a localização de sua mulher, que os militares pensavam ser outra pessoa, mas ela conseguiu fugir. Luiz Alberto passou oito meses na prisão Tiradentes, em São Paulo, até ser um dos prisioneiros políticos trocados pelo embaixador suíço.

         Antônio Serra é professor do Departamento de Filosofia da UFF e foi  presidente do Centro Acadêmico Cândido de Oliveira (CACO), da Faculdade de Direito da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) de 1964 até 1965. O diretório fora fechado pelo governo, mas os estudantes decidiram fundar uma organização independente e batizaram de “CACO Livre”.

          Serra lembrou da decretação do Ato Institucional n° 5, em 13 de dezembro de 1968. O decreto intensificou a ditadura e permitiu que o Poder Executivo se impusesse sobre os demais, suspendendo direitos como o habeas corpus e a liberdade de reunião.

       Serra foi preso duas vezes. Na primeira, participava de manifestação na Avenida Presidente Vargas e foi levado ao DOPS junto com outros companheiros. Todos ficaram em uma cela grande apelidada de Maracanã. O então estudante de  Direito passou por interrogatório e dormiu na cadeia. No dia seguinte, foi solto pelo Secretário de Segurança do Estado da Guanabara. “Era um general que me aconselhou a tomar juízo”.

        Na segunda, teve a prisão antecipada pelos jornais. Foi levado do apartamento da namorada no Leblon pela Polícia Federal, sob a  acusação de organizar um evento da UNE. Os colegas que estavam no local e a namorada, grávida de dois meses, foram levados com ele a Vila Militar.

        Durante sua permanência de uma semana na prisão, Serra diz que não sofreu violência física. A pressão psicológica, entretanto, era frequente. “O oficial interrogador socou a barriga do sentinela na minha frente. Tirou uma palmatória da gaveta no interrogatório, mas nunca chegou a usá-la”. Serra foi absolvido meses depois.

        No evento do IACS, o professor de Filosofia falou sobre a luta armada, da qual não fez parte. “É difícil dizer se ela foi correta, mas a luta sempre fez parte da história humana, e, a história sempre nos é devolvida”.

O Jornalismo silenciado

       O professor e jornalista João Batista de Abreu, organizador do projeto Afasta de mim este Cale, comentou os problemas enfrentados pelos jornalistas por conta da censura. Apesar de nunca ter trabalhado em veículo que tivesse um censor presente na redação, ele contou que as notas de proibição  eram frequentes e nunca caducavam, tornando o assunto censurado por tempo indeterminado.

     Ainda segundo o jornalista, a maioria dos jornais da chamada grande imprensa começou a praticarrautocensura, evitando contrariar o governo militar. Assim, havia três tipos de censura: a pública, que impedia a notícia de ir ao ar, a interna, quando o superior vetava a notícia e a de apuração, quando o repórter sequer era mandado para  investigar o fato. “A terceira comprovava a eficácia do sistema”.

     João Batista, que foi repórter do Jornal do Brasil e depois redator da Rádio Jornal do Brasil, destacou a importância da imprensa alternativa na época, com jornais como Pasquim, Movimento e Opinião, que enfrentaram a pressão da censura por longo tempo, assim como os jornais O Estado de S. Paulo, Joernal da Tarde e Tribuna da Imprensa.

Memórias de um Jornalista

Memórias de um Jornalista por Rebeca Letieri

Passado e presente

      Os palestrantes foram questionados pela plateia sobre as manifestações ocorridas no Brasil no meses de junho e julho. Manifestaram apoio à movimentação da população, em especial os jovens, e à busca por mudança. Sanz, no entanto, ainda se diz cético quanto à política e a ação da juventude atual.

       A ligação dos dois militantes com a UFF é antiga. Após voltar do exílio Sanz foi reintegrado ao Instituto de Arte e Comunicação Social (IACS) do qual Serra era diretor na época. O retorno ao Instituto mais de 20 anos depois do golpe, na sua avaliação confirma a importância da participação política de todas as gerações.

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Janaína Medeiros é graduanda em Comunicação Social, Jornalismo na Universidade Federal Fluminense, e bolsista no projeto Afasta de mim este Cale-se.

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Um comentário sobre “A ditadura e o AI-5

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