Tropeços do capital

Calendário do Itaú trata golpe de 64 como "revolução"

Calendário do Itaú trata golpe de 64 como “revolução”

João Pedro Soares e Lucas Pedretti

As imagens têm um poder incrível de sintetizar ideias que poderiam ficar confusas e longas se colocadas em um texto. A fotografia do calendário entregue pelo Itaú aos seus clientes não poderia expressar melhor a dificuldade da sociedade brasileira em superar o período mais sombrio de sua história. No espaço destinado às datas comemorativas do dia 31 de março de 2014, consta o “aniversário da revolução de 1964”.

Para o banco, a morte e o desaparecimento de centenas de pessoas que cometeram a ousadia de sonhar com um mundo mais justo, cometidos durante o regime que vigorou até 1985, são motivos de celebração. A exaltação ao triunfo da “revolução” não poderia ser mais emblemática: vem logo abaixo de uma imagem do mascote oficial da Copa no Brasil. E mostra que, pelo passado que alguns insistem em manter esquecido e pelo presente que não consegue encontrar um rumo, este será – e já está sendo – um ano tenso.

Mesmo o dia escolhido para marcar o suposto aniversário é um problema: a memória dos militares então no poder sempre fez questão de adiantar um dia a data do golpe de Estado para não coincidir com o Dia da Mentira, também marcado na agenda. Entretanto, hoje não é mais possível, nem para os mais ferrenhos apoiadores da ditadura, afirmar que o regime não se montou a partir de mentiras. Mentiras como a que, há alguns dias, foi publicamente desmentida: o assassinato e desaparecimento de Rubens Paiva. Caso que, infelizmente, guarda grandes semelhanças com o caso do desaparecimento de Amarildo. O paralelo não é fruto do acaso, mas de uma série de permanências da ditadura militar que se iniciou com o golpe de 1964 e abriu um período de intenso terrorismo de Estado. Hoje, finalmente, após décadas de lutas das famílias de mortos e desaparecidos, dos ex-presos políticos e das organizações de Direitos Humanos, o Brasil resolveu olhar pro seu passado e passá-lo a limpo.

Entretanto, o banco, que é um dos principais patrocinadores da Copa do Mundo do Brasil, não parece estar interessado em somar esforços para condenar as violações de direitos cometidas no período entre 1964-85. O Itaú nunca veio a público se pronunciar sobre as violações de direitos relacionadas aos Megaeventos. Assim como as outras empresas e marcas que lucram com a Copa e com as Olimpíadas, o Itaú ignora as remoções forçadas, o atropelo de direitos trabalhistas, a falta de transparência, o autoritarismo e a privatização e elitização dos espaços públicos. O silêncio é proposital, já que interesses econômicos gigantescos estão por trás. Aparentemente, o silêncio não é fruto somente desses interesses, mas de uma verdadeira afeição ao autoritarismo e à violação sistemática de direitos. Vale lembrar, ainda, que o capital financeiro – entre os quais se inclui o Banco Itaú – foi um dos setores que apoiaram o golpe logo no primeiro momento. E o dono do banco, Olavo Setúbal, homem ligado à Arena, partido do governo, foi prefeito biônico de São Paulo durante a ditadura.

Espera-se que a direção do banco tenha a mínima dignidade de se retratar publicamente e retire os calendários de circulação. Não se pode considerar aceitável que uma instituição com tamanha influência preste homenagem pública a um evento político que dirigiu o Brasil para o caminho da intolerância e crueldade.

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João Pedro Soares é estudante de Jornalismo da Universidade Federal Fluminense (UFF) e bolsista deste projeto.

Lucas Pedretti é estudante de História da Pontifícia Universidade Católica (PUC).

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