8 de março – Uma mulher à frente de seu tempo

Dona Vanna se inspira em Leonardo da Vinci e mostra que

cedo ou tarde a ignorância se rende ao conhecimento

Rebeca Letieri

A escritora Flávia Savary e a Dona Vanna Piraccini

A escritora Flávia Savary e a Dona Vanna Piraccini

Ninguém discute que Leonardo Da Vinci era um homem à frente de seu tempo, pela variedade e qualidade de suas invenções e obras artísticas. Cinco séculos depois, o Brasil recebe uma imigrante italiana que também se mostrou à frente de seu tempo. Vanna Piracini, de 88 anos – há mais de 60 anos no Brasil – marca presença até hoje na Livraria Leonardo Da Vinci, que ajudou a fundar e reerguer mais de uma vez junto com o marido romeno, o advogado Andrei Duchiade. O endereço inicial era o edifício Delamare, na Avenida Presidente Vargas, mas em 1956 a livraria transferiu-se para a Avenida Rio Branco, no subsolo do edifício Marquês de Herval, endereço que ocupa até hoje.

No Dia Internacional da Mulher, o Cale-se homenageia a mulher que provou que o conhecimento pode vencer a ignorância do arbítrio. Em depoimento exclusivo concedido ao nosso blog, Dona Vanna recorda as visitas de oficiais militares que invadiam a livraria no papel de censores e a interrogavam sobre o título dos livros importados. Quase todos monoglotas, perguntavam o significado das palavras contidas na capa para avaliar se os livros suspeitos eram subversivos.

A Leonardo da Vinci cresceu, tornando-se ponto de encontro de intelectuais, poetas, políticos, professores e estudantes. Trazia livros de toda a Europa para o Brasil. Em 1965, o fundador Andrei morreu repentinamente, deixando a empresa em concordata, após mal sucedida experiência no mercado editorial de livros infantis. Desde então, a livraria passou a ser dirigida pela viúva. Eram tempos difíceis, porque esse tipo de comércio exigia investimento de risco e a longo prazo. O estoque funciona como estatística. A proporção de compra é muito pequena com relação ao capital investido e o público deve ser atendido, em todos os seus anseios e limitações, ensina a livreira, que venceu pela competência e obstinação.

Véspera da comemoração pelo Dia Internacional da Mulher, a livreira fala com orgulho do feminismo e da luta pela igualdade entre os sexos. E cita exemplos de profissionais que são ativas na formação dos homens e na formação da nova geração. Ainda assim, recorda o preconceito vivido:

– Tive um conflito há muito tempo com um individuo que veio aqui e disse: quero falar com um homem. Eu lhe disse: pois não, senhor? Ele disse: ‘quem dirige essa livraria? Quero falar com um homem’. Eu lhe disse: senhor, eu não vou colocar uma calça por causa do senhor. Se quer alguma coisa, pode falar. O machismo naquela época era uma coisa muito forte. Eles não aceitavam que uma mulher pudesse dirigir uma firma. Hoje em dia, acabou.

Ítalo-romena, Vanna chegou ao Brasil em 1952, no segundo governo Vargas. Formada em Letras e cheia de entusiasmo para fundar uma livraria, que teria o nome do artista e cientista renascentista italiano Leonardo Da Vinci. Dona Vanna sonhava que a iniciativa simbolizasse o renascimento do homem e do saber. “Quando eu era estudante, me pediram para fazer uma conferência sobre Leonardo Da Vinci. Tinha 13 anos. Li literatura leve sobre o renascentista, que me marcou muito. Quando eu cheguei aqui, sabia que o Da Vinci era uma figura universal, na ciência, nas artes, na filosofia, em todos os domíneos. Uma figura emblemática para representar a cultura. Quem representa tudo? Não vejo outra personalidade da história. Leonardo entrou em todos os campos da mente humana”, recorda Vanna Piracini, numa de suas tardes na livraria da Avenida Rio Branco. Ao final de uma de suas raras entrevistas, a livreira – avessa a badalações e mesuras de celebridades – se diz satisfeita no cumprimento de sua tarefa e deixa uma lição:

– A minha vida é em função da livraria. Já tive meus filhos (tem dois filhos e dois netos) e acho que a minha tarefa está cumprida com essa modesta contribuição. A gente tem que ter sempre uma disponibilidade. Estar disponível para atender ao próximo, como norma de conduta de um livreiro. Não é lucro não. O lucro vem em última instância. É nesse sentido que a livraria tem uma função social muito importante.”

É proibido proibir

Nos anos 1950, lembra a livreira, havia poucas livrarias de importação. A Nova Fronteira e a Civilização Brasileira marcaram o período turbulento e de intensa disseminação do pensamento intelectual. “Depois vieram os tempos difíceis. Existia todo tipo de comprador. O comprador que quer preencher uma lacuna cultural, e o comprador que quer preencher a prateleira com lombadas bonitas. Uma livraria também tem que atender a esse tipo de ficção.” Ensina Dona Vanna, do alto de seus mais de 50 anos de experiência.

Para Dona Vanna, todas as livrarias representam um centro cultural. Porém, a localização de cada uma determina o público que a frequenta. A Livraria da Travessa, em Ipanema, um bairro de alto padrão da Zona Sul do Rio de Janeiro, recebe outro tipo de clientela, segundo ela.

– O centro é o cérebro da cidade. Acho mais importante do que o bairro. Nós tivemos uma filial na Gávea, mas era muito elitista. Aqui não tem aquela seleção que esses bairros de luxo têm. Acho maravilhoso que gente de todas as etnias, branco, preto, amarelo, frequentem a livraria. Pessoas que fazem um sacrifício para comprar um livro, que pensam antes de comprar. Temos livros de moda para atender a quem faz faculdade de moda, entendeu? Mas não para atender as madames da alta sociedade. Isso não.

Em 1968 na França, o mês de maio caracterizou-se por uma série de manifestações estudantis que contribuíram para as reformas sociais que se estender a muitos países, entre eles o Brasil. A chamada Primavera de Praga, na Tchecoslováquia foi um período de liberalização política em que os estudantes universitários revoltaram-se contra a dominação soviética, em favor de reformas e da liberdade de expressão. Um período de alto nível intelectual, de ruptura. Que trazia com ele, diversos livros com pensamentos progressistas. Porém, assim como na Europa, tanto Oriental como Ocidental, iniciou-se um processo de censura e repressão, lembra Dona Vanna, que impôs entre outras coisas o controle da importação.

– Sem conceitos de direita nem de esquerda, mas que cada um tenha liberdade de escolher o próprio caminho. Cada um faz a sua escolha conforme sua formação, suas aspirações, sua ideologia; baseada no livre arbítrio. Esse é o princípio da livraria. Nós não estamos a critério da nossa escolha. Contribuímos para a formação, não da elite, mas da massa cultural, atendendo tanto as pessoas que se formam quanto aqueles que já tem uma opinião formada.

Os livros entravam, mas controlados pelo censor. Por vezes, Dona Vanna conta da visita de alguns oficiais do Exército, que se identificavam como sendo do Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna, o Doi-Codi, e iam até o segundo andar para avaliar o depósito de importados.

– Quando o censor encontrava livros como A revolução eletrônica, perguntava que revolução era aquela? E eu falava: é eletrônica, senhor, não tem nada a ver com revolução política. Ele não entendia outras línguas, e censurava em função da primeira palavra do livro. Sem critério, sem cultura para discriminar o que era revolução eletrônica e o que era revolução política. Nós fomos vítimas disso também. Foi um período muito complicado. Uma vez que eu peguei um agente do Doi-Codi com um fio no braço e uma máquina de registrar. Eu lhe disse: ou o senhor tira essa coisa ou eu lhe ponho no banheiro e chamo o rapaz para lhe dar uma surra. Aí ele foi embora. Isso eu nunca aceitei.

Espaço de debate

Todas as correntes frequentavam a livraria: direita, esquerda, extrema-direita, extrema-esquerda. Alguns dos mais fieis, como o economista Roberto Campos, ministro do Planejamento do governo Castelo Branco, e o general Golbery do Couto e Silva, chefe da Casa Civil do governo Geisel, compravam livros com frequência. Glauber Rocha, Juscelino Kubitschek, Carlos Lacerda, Barbosa Lima Sobrinho, Pedro Nava e Carlos Drummond de Andrade eram frequentadores assíduos. Além disso, políticos discutiam a atual situação do país na porta do estabelecimento. Para Dona Vanna, uma livraria também representa um espaço de debate.

– Cada um tem que ter liberdade de escolha, para ter liberdade de pensar. A livraria nunca teve nenhuma ligação com nenhum partido. Eu só ofereço. Nunca em função do dinheiro. Nunca tivemos como objetivo ganhar. Sobreviver sim, garante a livreira.

Pegando fogo

A frequência indesejada do censor trouxe muitos problemas para a sobrevivência do espaço. Em dezembro de 1973, a livraria enfrentaria uma falência inesperada. O incêndio que começou em uma boate chamada Tropicália, próxima ao estabelecimento, acabou com a livraria de dona Vanna. As pessoas foram retiradas do prédio, enquanto a Leonardo Da Vinci entrava em chamas.

– Como éramos visados, agentes da Doi-Codi quebraram algumas vitrines e o fogo passou pra cá. Morreu carbonizado um carpinteiro que trabalhava lá,. Quando subiu o coronel, eu perguntei: ‘senhor, no final da sala tal, se salvou alguma coisa?’ Eu pensava nos raros e caros livros sobre o Brasil do século XVI. Ai ele virou pra mim e disse: ‘senhora, a sua livraria esta carcinada’.

Então a livraria tinha acabado, com resquícios de um incêndio criminoso. Vitrines quebradas e cinzas por todas parte. Não sobrou absolutamente nada. Já a loja ao lado da boate, em frente ao estabelecimento, ficou intacta.

– Nunca se investigou esse caso porque não existiam provas. Que provas tinham? Nenhuma. Recomeçamos pouco a pouco. Minha mãe me ajudou outra vez. Ficamos um ano em um quartinho improvisado. Para montar outra vez a livraria do zero. E aqui estamos.

Dona Vanna conta que o general Golbery do Couto e Silva, criador do Serviço Nacional de Informação (SNI), foi pessoalmente pedir desculpas. Ele não frequentava a livraria, mas ficava em um escritório na Avenida Rio Branco e mandava um de seus funcionários buscar suas encomendas. Comprava livros sem que soubessem que era ele. Só depois a livreira descobriu.

– Ele avisou a Brasília que ia parar aqui pra falar comigo. Veio muito cortês, vestido de roupa cinza, ainda me lembro, de cabelo grisalho. Eu nem sabia quem era ele de verdade. Quando eu soube, fiquei com raiva. O atendi muito áspera e lhe disse: ‘sim senhor, deseja o que?’. ‘Eu vim aqui pedir desculpa pelo equívoco’. Qual equívoco? o seu incêndio”. Aí eu entendi tudo. Era uma pessoa que lia muito. Sabia escolher livros, com muito critério. Devia ter uma boa biblioteca.

Poema de Drummond

O poeta Carlos Drummond de Andrade na livraria Leonardo da Vinci

O poeta Carlos Drummond de Andrade na livraria Leonardo da Vinci

Segundo a livreira, praticamente toda a elite intelectual do Rio de Janeiro comprava livros na Leonardo Da Vinci. Para ela, em especial, alguns dos mais marcantes foram os grandes poetas. Ferreira Gullar, por exemplo, continua comparecendo ao local. Drummond talvez tenha sido um dos frequentadores mais emblemáticos. Com uma poesia que dedicara à livraria, escrita na porta de entrada, o poeta aparecia semanalmente. Dona Vanna conta que desde a inauguração, Drummond frequentou a livraria, até a sua morte. Nunca lhe contou sobre o poema. Ela descobriu depois através do jornal. “Ah, ele era muito carinhoso. Era uma personalidade fora do comum. Transmitia doçura e descrição. De uma simplicidade absoluta. Deixou uma boa biblioteca. Uma lembrança carinhosa que tenho dele.”

Até hoje a Leonardo Da Vinci conta com compradores fiéis, gente que frequenta a livraria há quase 60 anos. E há pessoas que passam o hábito de geração para geração. “É uma profissão gratificante quando você ama e se dedica a ela. Cria um laço entre você e o leitor. Interesse cultural é sempre uma grande ajuda nesse relacionamento entre as pessoas. Nós atendíamos a todo tipo de público: poetas, escritores, estudantes, professores, jovens que se iniciam. Mulheres que antigamente eram poucas. E hoje em dia, com uma porcentagem que se iguala ao homem. Eu acho isso maravilhoso, já que eu sou feminista”.

Finalmente a mulher se projeta no campo intelectual. Grande poetizas, escritoras, professoras de alto nível cultural. Porém, é claro que ainda existe competição. Segundo dados do Gabinete de Estratégia e Estudos do Ministério da Economia, em 2012, a remuneração média mensal das mulheres correspondia a 81,5% da dos homens, pelo que a disparidade salarial se traduzia em 18,5 % em desfavor das mulheres. Atualmente, no Brasil, as mulheres representam 43,4% das pessoas economicamente ativas, isto é, aquelas que trabalham ou procuram emprego, de acordo com o que mostrou em 2912 a PNAD (Pesquisa Nacional de Amostragem Domiciliar) do IBGE. Apesar disso, a mulheres estão entre a maioria dos trabalhadores desempregados: 57,8%. Em razão das últimas conquistas no mercado de trabalho, há de se comemorar, mas ainda há muito contra o que lutar. Dona Vanna é otimista: “A mulher ainda é subestimada. Mas vai chegar a época que isso vai acabar.”

Poesia de Carlos Drummond de Andrade sobre a livraria Leonardo Da Vinci:
Ao termo da espiral
que disfarça o caminho
com espadanas de fonte,
e ao peso do concreto
de vinte pavimentos,
a loja subterrânea
expõe os seus tesouros
como se defendesse
de fomes apressadas.
Ao nível do tumulto
de rodas e de pés,
não se decifra a oculta
sinfonia de letras
e cores enlaçadas
no silêncio dos livros
abertos em gravura.
Aquário de aquarelas,
mosaicos, bronzes,
nus,
arabescos de Klee,
piscina onde flutuam
sistemas e delírios
mansos de filósofos,
sentido e sem-sentido
das ciências e artes
de viver: a quem sabe
mergulhar numa página,
o trampolim se oferta.
A vida chega aqui
filtrada em pensamento
que não fere; no enlevo
tátil-visual de idéias
reveladas na trama
do papel e que afloram
aladamente dançam
quatro metros abaixo
do solo e das angústias
o seu balé de essências
para o leitor liberto.

***

Rebeca Letieri é estudante de Jornalismo da UFF e bolsista do projeto Afasta de mim este Cale-se. 

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