Seminário discute os 50 anos do golpe – Censura

O seminário organizado pela Fundação Biblioteca Nacional debateu os 50 anos do golpe militar de 1964, nos dias 27 e 28 de março no auditório Machado de Assis, nas dependências da Biblioteca.

Palestrantes renomados no estudo do período militar no Brasil, e em outras ditaduras da América Latina, presentaram a plateia com reflexões e teorias, além de fatos históricos que marcaram o país.

A relação da imprensa com a ditadura, a censura, a memória do golpe e a relação de poder entre o governo americano e as ditaduras latino-americanas foram alguns dos principais temas de debate.

Censura na ditadura – A produção de arte nos anos de chumbo

“Existiam duas censuras distintas: a dos órgãos legais, ligados ao governo ou até mesmo a militares do alto escalão que tinham poder de censor, e a dos próprios intelectuais, a autocensura, que pensavam duas vezes antes de escrever algo que acreditavam que seria censurado”. A opinião pertence ao historiador Flamarion Maués, da Universidade de São Paulo (USP). O doutor ficou responsável por falar da edição de livros durante a ditadura militar, em uma mesa dedicada a relação da censura com a imprensa, a literatura e as artes.

Flamarion alega que os órgãos censores usavam como argumento a quebra da “moral e os bons costumes” para descartar qualquer obra que pudesse ir contra o posicionamento do governo. “Muitas obras eram descartadas por serem consideradas ‘pornografia’ pela censura”.

Os livros de cunho político, especialmente os publicados pelos oposicionistas com ideologias socialistas e comunistas eram fortemente combatidos pela censura. No entanto, mesmo de forma clandestina, alguns livros faziam grande sucesso de vendas no país, sendo o caso mais famoso o livro “O que é isso, companheiro?” do militante político Fernando Gabeira. “Era um Best-seller na época.”

O pesquisador da Biblioteca Nacional Pedro Lapera tem feito uma extensa investigação na área do cinema brasileiro no período do regime autoritário. “O novo cinema estava em alta antes do golpe de 64, a nova situação política do país impediu que ele se expandisse mais, apesar do sucesso no exterior mesmo durante a ditadura”.

Lapera lembrou de casos emblemáticos para o cinema no país. O filme “Cabra marcado pra morrer”, do recentemente falecido Eduardo Coutinho, tinha como tema as ligas camponesas e estava em plena gravação quando ocorreu o golpe. “A produção foi literalmente caçada, alguns conseguiram fugir e esconderam parte das filmagens. Só em 84 eles voltaram ao trabalho, com os remanescentes das ligas”.

“Macunaíma” é outro grande exemplo da ação dos censores, o filme sofreu 15 cortes, incluindo sequências inteiras, perdendo aproximadamente 20 minutos. Apesar disso, o filme foi assistido por mais de 12 milhões de pessoas.

O caso mais controverso, no entanto, foi do curta “Manhã cinzenta”, de Olney São Paulo. O cineasta não enviou o filme para censura e o enviou diretamente ao exterior. Durante o sequestro de um voo, militantes exibiram o curta. Olney ficou 21 dias preso pelo ocorrido. “Ele morreu jovem e nunca confirmou ter sofrido tortura durante a prisão”.

A antropóloga Luciana Lombardo, professora da PUC-Rio, palestrou sobre sua pesquisa da coleção de livros apreendidos encontrada no Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) do Rio de Janeiro. No entanto, iniciou sua fala relembrando acontecimentos recentes. “Durante as manifestações de junho do ano passado, livros foram apreendidos, exibidos ao lado de armas pela polícia. O delegado usou como desculpa para essa apreensão as mesmas desculpas usadas pelos militares ‘os livros mostram a intenção violenta do suspeito’. O mais interessante é que o livro em questão fala da cultura punk rock”.

A apreensão desses livros faz sentido, segundo Luciana, se entendermos que livros são objetos que possuem valor simbólico. “Na época de Vargas livros já eram apreendidos na chamada biblioteca do impossível. A nova ditadura fez o mesmo, formaram sua própria ‘anti-biblioteca’, de livros que não devem ser lidos”.

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