Seminário discute os 50 anos do golpe – História

O seminário organizado pela Fundação Biblioteca Nacional debateu os 50 anos do golpe militar de 1964, nos dias 27 e 28 de março no auditório Machado de Assis, nas dependências da Biblioteca.

Palestrantes renomados no estudo do período militar no Brasil, e em outras ditaduras da América Latina, presentaram a plateia com reflexões e teorias, além de fatos históricos que marcaram o país.

A relação da imprensa com a ditadura, a censura, a memória do golpe e a relação de poder entre o governo americano e as ditaduras latino-americanas foram alguns dos principais temas de debate.

Entre a memória e a história

“Uma visão realista do passado é o meio mais eficaz de evitar que o autoritarismo volte ao poder”. O pensamento do historiador Rodrigo Patto, professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), é o ponto de partida de suas tentativas de remontar a história da ditadura militar no Brasil.

O professor acredita que a memória ainda é a maneira mais comum de se relatar o regime autoritário no país. “O papel do historiador é buscar a objetividade, os fatos. Há muito mais memória da ditadura do que historiografia sobre ela”.

O autor do recém-lançado As Universidades e o regime militar também tocou no tema do abordado em seu livro. “A ditadura trouxe uma modernização paras as Universidades brasileiras, a maioria as conserva até hoje, de forma que até os que eram contrários ao regime, apoiavam essas mudanças”.

No entanto, Patto ressalta que a modernização acontecia por motivos que iam além do progresso do país “Os universitários eram uma pedra no sapato do governo. Era mais difícil combatê-los, as modernizações tinham como objetivo apaziguar os ânimos”.

Daniel Aarão, professor do departamento de história da UFF, tem gerado polêmica no mundo acadêmico com o termo ditadura civil-militar, no qual defende que a participação massiva da população foi de extrema importância para o golpe.

O historiador exemplifica seu pensamento com as Marchas da Família com Deus pela liberdade. “Elas aconteceram em todas as capitais do país e em inúmeras outras cidades. A população, em sua grande maioria, apoiou o golpe”.

Aarão aponta ainda outras questões controversas, como a data do término da ditadura. “Eu acredito que o ano de 79 (ano em que caíram os atos constitucionais) constitui o fim da ditadura e o início do processo de redemocratização do país”. Daniel defende, ainda, que a data oficial, 85, marca “apenas” a troca de militar por um civil na presidência do país. “A grande ironia é que o Sarney era um homem da ditadura”. Apresenta ainda outra data, segundo ele mais lógica do que a oficial, do ano de 88, quando a nova constituição foi instaurada.

O historiador fala ainda dos “cacos” deixados pelo regime. Alguns deles são: a tutela militar, que dá o direito de interferência do exército a pedido do presidente de um dos três poderes, a desigualdade econômica e a militarização da Polícia Militar que se intensificou na época. “A ação da polícia nos protestos é um ótimo exemplo do despreparo policial”.

O professor da PUC-Rio Luiz Carlos fez questão de começar sua apresentação falando das dores da ditadura: “Gostaria de manifestar minha tristeza com os anos de ditadura. Se fui perseguido profissionalmente após o golpe, o que perdi foi incomparável a dor dos torturados, mortos, dilacerados, ou simplesmente desaparecidos”.

O acadêmico foca sua palestra na história do país anterior ao golpe, como a revolução de 30, e a ditadura na Era Vargas. “As pessoas parece que se esqueceram de que vivemos uma ditadura antes de 64. Getúlio era um ditador, no início com opiniões nazifascistas, e depois migrando para um governo mais populista”.

O teórico aponta ainda a necessidade de reflexão sobre a história. “É muito comum usarmos a razão, mas a reflexão é essencial para que cheguemos a uma conclusão sólida”.

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