Seminário discute os 50 anos do golpe – Memória

O seminário organizado pela Fundação Biblioteca Nacional debateu os 50 anos do golpe militar de 1964, nos dias 27 e 28 de março no auditório Machado de Assis, nas dependências da Biblioteca.

Palestrantes renomados no estudo do período militar no Brasil, e em outras ditaduras da América Latina, presentaram a plateia com reflexões e teorias, além de fatos históricos que marcaram o país.

A relação da imprensa com a ditadura, a censura, a memória do golpe e a relação de poder entre o governo americano e as ditaduras latino-americanas foram alguns dos principais temas de debate.

Testemunha de um passado recente

“Dei um depoimento a Comissão da Verdade recentemente. Acusei os presidentes militares. Era culpa deles, afinal.” Declarou Dulce Pandolfi em seu depoimento de abertura.

Dulce é formada em ciência sociais pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e participou de movimentos estudantis na época da ditadura, bem como da Ação Libertadora Nacional (ALN), a mesma de Carlos Marighella. Viveu na clandestinidade e foi presa em agosto de 1970 e sofreu tortura nas dependências do DOI-CODI no bairro da Tijuca, do Rio de Janeiro.

No decorrer de seu depoimento, Dulce destacou fatos marcantes de sua vida de militante: contou do encontro com o militante Bacuri, Eduardo Leite, nos corredores da prisão e dos olhares de cumplicidade que trocaram. Algum tempo depois, descobriu que poderia ter sido uma das últimas pessoas a vê-lo com vida, o guerrilheiro morreu em dezembro de 1970.

Outra memória marcante dos tempos de prisão vem de sua companheira de cela, Laura, uma prostitua da Lapa presa por sair com um uruguaio investigado pelo exército. Laura quase enlouqueu presa e torturada em busca de informações das quais ela não dispunha. A prostituta pensava estar no inferno, e Dulce nunca soube se ela sobreviveu a ele.

A militante falou ainda sobre marcos importantes durante a ditadura militar, as torturas e o que os militares considerariam depois como ”excessos” cometidos por poucos e somente admitidos em casos famosos como o do jornalista Vladimir Herzog, morto nos porões da ditadura, dado inicialmente como suicida. No entanto, dezenas de outros “excessos” continuam desconhecidos e encobertos sobre o manto da impunidade.

A permanência do Congresso em atividade e as eleições para seus representantes também foram tema recorrente. As dúvidas sobre votar em nulo ou apoiar o Movimento Democrático Brasileiro (MDB) eram discutidas durante longas reuniões. Ela decidiu filiar-se ao MDB como forma de luta. A lei da Anistia foi um sinal do início da redemocratização do país. No entanto, ela tinha falhas: “A lei garantia perdão para os dois lados. Os militantes sem os chamados ‘crimes de sangue’ seriam absolvidos. O texto não falava sobre tortura e todos os militares acabaram livres. Não era a solução perfeita, mas era a única possível”.

Dulce encerrou seu depoimento com alguns dados de duas pesquisas: uma realizada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) em 2012 e outra pela Universidade de São Paulo (USP). A primeira pesquisa revela que 74% dos entrevistados desconhece a lei da anistia. Dos que disseram conhecer a lei, aproximadamente 20% acreditam que não deve haver nenhuma investigação. A segunda pesquisa, sobre o uso de tortura, indica que 47,5% dos entrevistados são a favor do uso de tortura.

Baseada nessas estatísticas alarmantes, ela concluiu que nosso país ainda sofre com os resquícios de seus 22 anos de regime militar e ainda precisa consolidar sua frágil democracia.

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4 comentários sobre “Seminário discute os 50 anos do golpe – Memória

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