Para produzir memória, controversas inicia sua oitava edição

O primeiro dia de debates ficou marcado pela discussão sobre o legado que a Ditadura deixou para a atualidade e como os meios de comunicação alternativos conseguiram sobreviver à censura imposta pelos órgãos repressores. Na primeira mesa, participaram o doutor em História pela UFF Hugo Belluco; o Presidente da Comissão da Verdade do Rio Wadih Damous; Ivo Herzog, que é Diretor Executivo do Instituto Vladimir Herzog e o ex-militante e assessor de comunicação da Comissão Estadual da Verdade Cid Benjamin. A mediação ficou a cargo do Professor da UFF João Batista.

Por Douglas Dayube

Quem iniciou o ciclo de discussão foi o historiador Hugo Belluco, que questionou o suposto apoio da sociedade brasileira ao Golpe Militar. Ele salientou que uma pesquisa feita pelo Ibope durante o regime é controversa, pois a população se sentia pressionada a dizer que aprovava a Ditadura com medo de represálias. Para ele, a reação do povo, como a realização de greves, contra as atrocidades cometidas durante o período ajudou a acelerar a transição para o regime democrático, na metade da década de 1980.

A primeira mesa debateu o legado deixado pela Ditradura. Ivo Herzog, ao falar da morte de seu pai, lembrou de José Maria Marin homenageando um torturador quando era Deputado (Foto: Ildo Nascimento)

A primeira mesa debateu o legado deixado pela Ditradura. Ivo Herzog, ao falar da morte de seu pai, lembrou de José Maria Marin homenageando um torturador quando era Deputado (Foto: Ildo Nascimento)

Ainda de acordo com Belluco, a renovação da esquerda, vinda do exílio no pós-anistia, também “se tornou frente da oposição que ajudou a fazer que essa restituição fosse diferente do que o Estado queria”. Ao invés da Revolução, a esquerda passou a valorizar a democracia e as reformas gradativas que ela poderia gerar.

Citando a frase ‘Nada muda mais que o passado’, de Napoleão Bonaparte, no início de sua palestra, Wadih Damous tentou explicar como é o trabalho de uma Comissão da Verdade. Para ele, lidar com a interpretação dos fatos de acordo com diversos pensadores pode ser difícil. Com essa ressalva, ele criticou duramente algumas teorias que defendem a ideia de que a Ditadura durou apenas sete anos – de 1968 a 1975. Para o advogado e presidente da Comissão da Verdade, essa “tese não se sustenta com os fatos”, pois já havia supressão de direitos constitucionais antes de 68.

Damous ainda disse que o poder público não tem como enfrentar o legado deixado pela Ditadura e ressaltou o importante papel que as Comissões da Verdade têm na resolução dos crimes cometidos entre 1964 e 1985. Por serem independentes, diferentemente dos outros órgãos de justiça, que atuaram como braços e pernas do regime, as Comissões podem fazer uma radiografia de como a repressão política atuou no país. Entretanto, ele faz uma crítica em relação ao fato de não terem sido criadas anteriormente e por não contarem com a assessoria de historiadores.

Para uma plateia curiosa e concentrada, Wadih Damous detalhou quais são as principais prioridades das Comissões espalhadas pelo país. A primeira é a questão dos desaparecidos políticos, já que tortura e desaparecimento foram políticas de Estado; a segunda é a questão dos atentados terroristas promovidos pelo regime. Para comprovar isso, ele citou o desaparecimento de Stuart Angel; a cadeia de comando dos desaparecimentos submetida aos Ministros e, até mesmo, ao Palácio do Planalto e os atentados do Riocentro e a carta-bomba entregue na OAB.

Para finalizar a sua fala, ele disse que o objetivo, ao fim das Comissões da Verdade, é transformar todos os centros de tortura em grandes centros de memória com o “objetivo de que isso nunca mais aconteça”.

Filho de Vladimir Herzog, um dos mártires da Ditadura Militar Brasileira, o engenheiro Ivo Herzog falou de como a TV Cultura, onde trabalhara Vlado, se tornou alvo na política de extermínio aos comunistas e relembrou que José Maria Marin, atual Presidente da Confederação Brasileira de Futebol, quando Deputado Estadual, fez uma homenagem ao torturador Sérgio Fleury Filho em 1975, ano da morte de seu pai. Para muitos, o ex-governador de São Paulo fechou os olhos para o assassinato de Herzog.

Além da permanência de Marin na vida política do país, Ivo indica outras questões mal-resolvidas da historiografia brasileira, como o assassinato de mais de dez mil pessoas pelo Estado desde o fim da Ditadura. Para ele, essas questões ainda atormentam a mente dos brasileiros, pois “nunca se passou essa história a limpo”.

Como diretor-executivo do Instituto que leva o nome de seu pai, Ivo trabalha no resgate da memória do Brasil. Com o Projeto ‘Resistir é Preciso’ , o Instituto vem promovendo a exposição de mesmo nome, sobre a Ditadura, em virtude do cinquentenário do primeiro de abril de 1964. Atualmente, a exposição está na cidade de Belo Horizonte. Questionado sobre o fenômeno Black Bloc, ele disse que não o acha benéfico para a sociedade, pois não acredita existir justificativa para a violência.

Outro que não acredita na violência como forma de mobilizar a sociedade é o ex-militante do Movimento Revolucionário 8 de outubro (MR-8) e assessor de Comunicação da Comissão Estadual da Verdade, Cid Benjamin, que tem como inspiração o que Nelson Mandela fez na África do Sul pós-Apartheid. Segundo Cid, não deve se criar um clima de revanchismo no país. Para ele, as Forças Armadas deveriam lidar com mais maturidade com as denúncias feitas pela Comissão de Verdade, em vez de se calarem.

“É preciso criar anticorpos para que isso não aconteça de novo no futuro” – completou Cid.

Logo após uma pausa para o coffee break e entrevista com os convidados da primeira mesa, deu-se início a segunda ronda de debates com novos convidados. Desta vez, o tema central das discussões foi o papel da mídia alternativa durante a Ditadura e contou com a mediação do Professor Márcio Castilho.

 

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