Histórias familiares

Leonardo Moura Rodrigues

 

O marido chega a casa. Bate a porta forte, não fala com ninguém. Mãe e filhos se entreolham e também não se manifestam. Verbalmente. Os olhares tensos já foram muito elucidativos. Em suas mentes, muitas perguntas. Será que aquela seria mais uma noite de pouco sono e respeito? Até quando aquela situação iria perdurar? Tudo o que viram foi um homem atordoado adentrando a casa com uma garrafa de whisky nova na mão. Esta era a sua única forma de escape. O diálogo com a família acabara, as opções de lazer e ocupações em geral não lhe atendiam. A mãe da família o chamava de viciado, doente. Era do que ela tentava convencer, a si mesma e a seus filhos. Aquele era seu fardo, dizia ela. Todas as famílias tinham um problema; esse era o deles. Tinha que aguentar a violência oral e física. Ela não era a causa dos problemas de seu marido; era a maneira que ele encontrou para canalizá-los. E, em nome das promessas feitas há tantos anos em um altar, estava condenada a suportar a vida no inferno.

Por tantas vezes saiu correndo pelos corredores com uma vassoura na mão e entrou na casa de algum vizinho que se voluntariaria a ajudar. Só voltava à sua casa quando os berros do bêbado cessassem. E não voltaria da mesma maneira que acordou. Havia um olho roxo, um dedo quebrado, uma roupa raspada. Marcas de tapa, arranhões, o rosto inchado. Tudo porque ele perdeu o emprego. Ela era seu saco de pancada, era a maneira que ele encontrou de lidar com o fracasso. As crianças, traumatizadas, não entendiam por que isso só acontecia com eles e não com seus coleguinhas. Eram instruídas a não contar nada do que viviam aos amigos da escola. A família estava destruída e marcada por medo e traumas. A separação era inevitável.

Mas e as marcas? As físicas saram, com certeza. Já as da memória são carregadas para sempre. Nossa sociedade é repleta de hábitos, práticas, rituais e desculpas esfarrapadas que legitimam as mais diversas manifestações de machismo. Essa história ficcional não passa de um exemplo. Não existe justificativa para a violência doméstica e contra a mulher. Sabemos que não é porque o marido perdeu o emprego, ou porque ficou bêbado, ou porque teve qualquer desconfiança, que também pode perder a cabeça, a razão e qualquer princípio civilizatório para cometer tal ato. Ou não sabemos?

Parece bizarro, em pleno século XXI, as mulheres precisarem de uma Lei Maria da Penha. Não parece verossímil. Não deveria ser aplicável à nossa sociedade, minimamente organizada e regida. A mídia, por exemplo, precisa contribuir, como formadora de opinião e refletora do interesse público, para o posicionamento correto da mulher na sociedade. Precisamos ter protagonistas mulheres em novelas e séries, âncoras femininas em telejornais. As mulheres devem poder ser dominadoras e estar no centro das tomadas de decisão. A representatividade é muito importante. Assim, daqui a algum tempo, talvez não tenhamos mais violência de gênero, ou racial, ou por condições sexuais, todas fantasmas de uma sociedade que parece colocar suas mazelas debaixo do tapete.

Anúncios

Um comentário sobre “Histórias familiares

  1. Pingback: CRÔNICAS | Afasta de mim este Cale-se

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s