O crime de Costa Barros – polícia de costas para o direito dos jovens

Pedro Henrique Lima

 

Domingo, dia 29 de novembro de 2015, cinco jovens decidem comemorar o primeiro salário de Roberto da Silva de Souza, 16 anos, que havia conseguido uma vaga como jovem aprendiz. Carlos Eduardo da Silva de Souza, seu irmão, Cleiton Correa de Souza, 18 anos, Wilton Esteves Domingos Junior, 20, e Wesley Castro Rodrigues, 25 anos resolveram sair em um Fiat Palio branco para curtirem a noite de sábado.

Destino? Parque Madureira. Um local de diversão para os moradores do subúrbio carioca. Roberto e os amigos celebrariam a conquista. O que mais teriam conversado naquela noite? Quais planos traçaram? Não importa. Qualquer meta para o futuro foi por água abaixo quando soldados PMs fuzilaram mais de 100 vezes o veículo em que estavam os rapazes. O jovem aprendiz e seus amigos perderam precocemente suas vidas.
É normal que uma sociedade democrática conviva com uma polícia treinada para a guerra, que enxerga o suspeito como inimigo, viva sob tensão permanente e esteja imersa em um sistema de corrupção hierárquico? Eu apoio o fim da Polícia Militar e não sua reestruturação. Essa prática virou uma cultura do brasileiro. Aliás trata-se de uma herança fortíssima da escravidão, intensificada durante o período da ditadura militar (1964-1985).

De uma forma ou de outra, ainda vivemos sob ditadura. O medo, e ao mesmo tempo, a necessidade de proteção permanente e ostensiva das forças do Estado contra as populações marginalizadas. Parte da população carente sente nojo de policiais que cometem tantas arbitrariedades e, paradoxalmente, respira aliviada quando passa ilesa por uma patrulha em uma rua deserta.

Não foi à toa que o Instituto Datafolha divulgou uma pesquisa em julho que confirma o cenário aterrorizante: 62% dos brasileiros têm medo da Polícia Militar, especialmente jovens entre 16 e 24 anos, justamente a faixa etária dos rapazes assassinados com 111 tiros em Costa Barros, no Rio de Janeiro. A força policial brasileira é a que mais mata no mundo, segundo relatório da Anistia Internacional lançado em 2015. E as maiores vítimas desta “guerra civil” são os jovens pobres e negros¹.

O próprio brasão da PMERJ denota uma postura repressiva, ferramenta de proteção às elites. No seu canto esquerdo, percebe-se o maior símbolo do latifúndio: a cana-de-açúcar; no lado oposto, outra representação da economia oligárquica: o pé de café; mais acima, ao centro, uma coroa, símbolo da monarquia, elite da época em que surgiu a figura do “Barão”. Por último, e não menos importante, duas armas abaixo da coroa, representando a salvaguarda do latifúndio, das elites e, novamente, do latifúndio.

O enredo de Costa Barros foi perfeito para os jornalões e os “Cidades Alertas” de plantão: jovens que não tinham nenhum ligação com o crime, um estava comemorando o primeiro salário, o outro era pai; havia até menor de idade. Não são poucos os brasileiros que, boquiabertos não desgrudam os olhos da TV. Muitos deles se deliciam com a violência, aplaudem policial que mata bandido e depois choram quando inocentes são vítimas dessa mesma pena de morte.

Este tipo de brasileiro parece gostar da violência, mas uma violência seletiva, não contra seus semelhantes. Vale parabenizar o jornal Extra e os veículos de mídia alternativa pela cobertura engajada que faz do caso.

Mas é preciso entender que o padrão de conduta predominante na Polícia Militar do Rio de Janeiro é esse, independentemente de o suspeito ser criminoso ou não. Eu corro esse risco, assim como o menino que faz serviço de vapor (intermediário do comércio de drogas) no bairro. Continuem aplaudindo a conduta de soldados quando a vítima for considerada um “mau-elemento”. Só não venham com ódio quando inocentes morrerem.

¹ Dados do índice de Vulnerabilidade Juvenil à Violência e Desigualdade Racial 2014, da Secretaria-Geral da Presidência da República, Secretaria Nacional de Juventude, Ministério da Justiça e Fórum Brasileiro de Segurança Pública. – Brasília: Presidência da República, 2015.
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