Sonhos desfeitos

Douglas Dayube

 

Em um dia de semana qualquer há pouco mais de dois anos quando saía de casa em direção à faculdade. Fizera o ritual de todos os dias. Saíra com mais ou menos duas horas de antecedência para que conseguisse chegar à UFF próximo do horário da aula. Mas aquele dia não fora normal, e eu descobriria isso poucos minutos depois.

Estava no ponto de ônibus na esquina da rua onde moro quando percebi que esquecera o bilhete único, talvez em cima da mesa de estudos. Sempre deixo lá. Quando estava subindo de volta, vejo alguém gritando. Olho para trás e vejo um policial militar com o fuzil apontado me mandando voltar. Queria me revistar.

Assim o fiz, e assim ele o fez. Após uns 10 ou 15 minutos, voltei para casa da onde não decidi sair mais, pois o tiroteio havia começado. Depois do episódio, fiquei pensando: será que se eu fosse negro, o meu destino teria sido mesmo a minha casa? Será que a revista existiria? Ou será que haveria um corpo negro estirado na favela? Essa pergunta não tem resposta.
….

Novembro de 2015. Passados mais de dois anos do caso, cinco jovens pobres e negros foram mortos por policiais militares em Costa Barros, bem perto da onde eu moro. Na verdade, eles voltavam de um lugar que frequento, o Parque Madureira. Tínhamos muita coisa em comum, mas uma delas, eu tenho certeza que tínhamos sim. E ela se chama sonhos!

Quais seriam os sonhos desses meninos? O que queriam fazer da vida em diante? Tinham vontade de cursar uma faculdade, ser jogador de futebol ou se tornar taxistas. Estes jovens alimentavam sim muitos sonhos, como os milhares de jovens negros e pobres assassinados pela PM que mais mata no país.

Moro numa favela, conheci muitos meninos que como eles morreram porque soldados da PM assim o quiseram. Imagino que eu pudesse ser um deles, mas diferentemente da imensa maioria, eu tive oportunidades financeiras, por ter uma família estruturada, ter tido referências, coisas que muitos deles não tiveram.

Muitos, porém, só levam porrada, preconceito e bala. Todos têm o direito a sonhar, e o fazem, mas poucos têm acesso à oportunidade de transformar sonho em realidade.

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Um comentário sobre “Sonhos desfeitos

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