Memórias da ditadura

Por Maria Clara Vieira

“As confissões do coronel Malhães”, de Juliana Dal Piva, e a análise do repórter investigativo Chico Otávio, vencedor de sete Prêmios Esso, um deles pelo emblemático caso do Riocentro.

Arrancar as polêmicas declarações do coronel Paulo Malhães sobre o destino do corpo do deputado Rubens Paiva, desaparecido em 1971, durante a ditadura civil-militar, foi um dos desafios encarados pela repórter Juliana Dal Piva, que recebeu uma menção honrosa na 36ª edição do Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos pela série que contava a história do coronel e desvendava parte do mistério sobre a morte de Rubens Paiva, parlamentar do PTB, ligado ao ex-presidente João Goulart.

As investigações começaram em 2012, quando Juliana trabalhava no Globo, e foi convidada pelo repórter Chico Otávio para participar de uma matéria sobre a Casa da Morte de Petrópolis – centro clandestino de tortura dos anos 70 denunciado pela ex-guerrilheira Inês Etienne Romeu, única prisioneira a escapar viva do local. Inês morreu em 2015. “Como se tratava de um centro clandestino, não havia uma documentação oficial sobre a Casa da Morte. Pedimos no acervo do Globo uma pesquisa de todas as matérias publicadas desde os anos 70 sobre o caso, e nos debruçamos sobre o depoimento da Inês”, contou Juliana, comparando o início do trabalho ao caso dos repórteres de Boston, cujo primeiro passo foi a solicitação de um “clipping” com todas as matérias publicadas sobre abusos sexuais cometidos por padres.

A equipe, que contava com o repórter Marcelo Remígio, teve acesso ao relatório de uma pesquisa preliminar feita pela Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República sobre a Casa da Morte. O material continha uma lista de nomes de militares e civis que se teriam envolvido com o centro clandestino. Chico e Juliana dividiram então a busca pelos agentes para tentar encontrar seus nomes completos, telefones e endereços. “Também foi um trabalho meio Spotlight”, comparou a entrevistada. “Essas informações não são públicas e nem sempre estão disponíveis em listas telefônicas. Contamos com algumas fontes que fazem esse tipo de trabalho e montamos um quebra-cabeça”, conta Juliana, que também ficou encarregada de se encontrar com a ex-guerrilheira Inês Etienne Romeu.

Depois de muita investigação e boca-a-boca, segundo a repórter, a equipe chegou finalmente ao endereço do sítio do coronel em Nova Iguaçu. “Ele apareceu meio desconfiado. Dissemos que éramos jornalistas que trabalhavam com história e queríamos ouvir o lado dele”, relembra Juliana, que diz ter sido marcada pela declaração do coronel de que “sabia que esse dia ia chegar”. Nas próximas cinco horas de entrevista, Paulo Malhães comentou os procedimentos utilizados pelo Exército, sem assumir sua participação em torturas e assassinatos. Por insistência da equipe, declarou “em off” que o deputado Rubens Paiva havia sido “desenterrado e enterrado em outro lugar”. “Aquilo ficou na minha cabeça”, comentou a repórter. “Não publicamos esse detalhe porque não tinha como checar. Era uma coisa muito imprecisa. Comprei vários livros que tratavam do assunto e fiz pesquisas específicas sobre o deputado”.

Em 2014, quando Juliana já trabalhava para O Dia, a história de Rubens Paiva voltou à tona com a Comissão da Verdade, que convocou uma coletiva de imprensa para divulgar o depoimento do coronel Avólio. Ele dizia ter visto o deputado no DOI-CODI sob os cuidados de um general. Ao ler a matéria, a jornalista identificou a versão de Paulo Malhães e decidiu procura-lo novamente.

“Foram novamente seis horas de entrevista. Lá pelas tantas ele contou da Operação Medianeira, assumindo literalmente que havia matado o guerrilheiro Onofre Pinto e seus companheiros, dizendo que não podia haver outro Rubens Paiva”, lembrou Juliana, afirmando ter “segurado a onda” para não demonstrar que o entrevistado estava indo muito fundo. Malhães, que se gabava de ser quem “consertava” os erros do DOI-CODI, contou ter sido o responsável pelo sumiço do corpo do deputado, enterrado antes no Alto da Boa Vista e em seguida na Praia do Recreio.

“A importância da segunda entrevista”, ressalta a repórter, “é que eu já tinha pesquisado o assunto exaustivamente, e dominava os termos, os nomes dos envolvidos, as versões recorrentes da história. Tive segurança de publicar a matéria não porque acreditava piamente no que ele dizia, mas eram buracos que se fechavam. Só faltava alguém ‘do outro lado’ para confirmar o que se sabia”, explicou Juliana, cujo relato se assemelha à cena de Spotlight na qual o chefe da equipe finalmente confirma os casos de abuso sexual com o advogado responsável pela defesa da Igreja Católica.

A reação da jornalista diante da confissão do coronel também remete à sequência que mostra a repórter Sasha Pfeiffer sendo surpreendida pelo relato espontâneo de um sacerdote acusado de envolvimento com menores. “O trabalho com o coronel foi um exercício do ato de entrevistar. O repórter não pode fazer todas as entrevistas do mesmo jeito. Com fontes problemáticas, que defendem coisas abomináveis, você tem que manter o sangue frio para ouvir sem julgar e extrair a informação. Não me cabia, por exemplo, perguntar se ele se orgulhava ou não do que tinha feito”, aconselhou.

O assassinato do coronel Paulo Malhães um mês após a publicação da série de reportagens permanece cercado de mistérios – um caso que Juliana Dal Piva não se cansa de investigar. Ao menos, a busca realizada na casa do militar na Baixada Fluminense após o crime beneficiou a abertura do processo na Justiça pela morte de Rubens Paiva.

Pela primeira vez na história, o Ministério Público Federal ofereceu ação de homicídio e ocultação de cadáver contra cinco militares, denúncia aceita em primeira instância pelo Tribunal Regional Federal. O Exército solicitou o trancamento da ação, condicionando a continuidade do processo à decisão de três desembargadores, o que resultou em outro episódio histórico presenciado pela repórter. “O primeiro desembargador falou em ‘jurisdiquês’, e só ao final do discurso entendemos que ele estava votando contra o trancamento. O segundo voto foi mais emocionado. O desembargador afirmou que a palavra anistia vem do grego, e significa esquecimento, mas que não é possível esquecer uma coisa que a gente não sabe”, lembrou Juliana, que imediatamente comunicou o resultado ao jornal, antes mesmo da vitória definida pelo voto da terceira desembargadora.

O privilégio de acompanhar uma decisão histórica de perto emocionou a repórter, que critica a postura atual da imprensa de só aparecer quando o assunto parece muito interessante. Repórter que acompanhou a campanha do candidato Anthony Garotinho nas eleições pata o governo fluminense em 2014, Juliana diz ter comprado uma briga no jornal para comparecer ao julgamento. “O que o pessoal da Spotlight fez foi justamente acompanhar uma história por muito tempo e investigá-la do início ao fim. Infelizmente não temos mais infraestrutura para fazer só isso”, lamenta a jornalista, hoje subeditora da Lupa, primeira agência de fact-checking do Brasil, cuja especialidade é checar as informações dadas por políticos em discursos públicos.

Modesta, Juliana Dal Piva evita atribuir a si mesma um papel decisivo na história do país. “Tive uma participação, sim, mas acho mais honesto dizer que me orgulho de ter feito parte do grupo de jornalistas que trabalhou nesse caso desde os anos 1970, que permitindo que ele tivesse os detalhes que tem hoje”.

O papel de agente transformador da história também é parte do currículo de Chico Otávio, repórter do Globo e vencedor de seis prêmios Esso, um deles pela matéria que, em 1999, revelou parte do mistério que envolvia o atentado ao Riocentro (1981). e fez com que os militares reconhecessem o envolvimento no atentado. Ele também ganhou a VI Edição do Prêmio AMB de Jornalismo, pela série “Ligações Perigosas”, o Prêmio Previdência Social de Jornalismo 1998, o Prêmio Cláudio Abramo de Jornalismo 2000, com uma série de matérias sobre o Poder Judiciário Brasileiro, e o Prêmio Abrelpe de Reportagem 2002, além do Prêmio Ayrton Senna de Jornalismo 2001. Veja aqui uma entrevista especial com o repórter concedida ao Cale-se em 2013.

Embora se considere uma “exceção” no que diz respeito à liberdade para trabalhar com pautas exclusivas, devido aos anos de experiência com jornalismo investigativo, o Chico também sofre as consequências dos cortes nas redações. “Não é bom que o jornalista esteja sozinho em matérias com esse grau de profundidade, e está cada vez mais difícil conseguir parcerias. O trabalho em equipe para esse tipo de pauta é fundamental. Nós fizemos isso com o Riocentro e conseguimos fechar um material sólido devido aos esforços de três repórteres”, contou o entrevistado, criticando uma lógica de produção que ele considera “autofágica”. “Nesse ambiente de crise, em que todos querem sobreviver, as pessoas preferem fazer o seguro e tranquilo feijão com arroz. O problema é que quanto mais dia-a-dia, mais os jornais ficam parecidos com a internet, e menos lidos serão. Isso virou uma doença nas redações”, lamentou. Segundo o repórter, não é possível vencer esse ciclo sem “muita disposição para se estressar”. “Como conciliar o tempo do cartório burocrata, dos órgãos públicos nada transparentes e do editor que quer tudo para ontem?”.

Dezessete anos após a reportagem que denunciou a participação do Exército no atentado ao Riocentro – o repórter estava presente na plateia do show –, Chico Otávio considera que, com o advento das redes sociais, a imprensa perdeu parte do seu papel de denúncia. Entretanto, declara-se encantado por um dos novos canais do jornalismo investigativo – o livro-reportagem. Em novembro do ano passado – quando Spotlight despontava nos cinemas – o entrevistado lançou o livro Os Porões da Contravenção, no qual aborda a relação entre a ditadura civil-militar e o jogo do bicho.

Fruto de uma parceria com o colega Aloy Jupiara, a obra está na terceira edição. “Eu decidi o momento em que ia botar o ponto-final na história. Ninguém mexeu, a não ser meu parceiro, o revisor e o editor para dar bons conselhos”, avalia o repórter. Quanto às possibilidades de subsídio a esse tipo de trabalho, Chico é categórico. “Esquece esse negócio de financiamento”, respondeu prontamente. “Reportagem que usa o dinheiro público já é um negócio ruim. Eu queria um livro puro. A editora comprou o projeto e bancou com o dinheirinho dela. É saudável”.

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