Morte em nome da Lei

Por Maria Clara Vieira

Os autos de resistência forjados descobertos por João Antônio Barros, o quinto repórter mais premiado do país.

Se uma pequena nota publicada no próprio The Boston Globe sobre o acobertamento de casos de assédio na Igreja chamou a atenção do recém-chegado diretor de redação Marty Baron, que encomendou a investigação, em 1997 o repórter João Antônio Barros viu a inspiração para uma de suas matérias mais premiadas nas páginas do Jornal do Brasil, que apontava um aumento nos casos de autos de resistência – quando o policial mata alegando legítima defesa. “Ele tiveram a pauta, mas não fizeram a matéria. Isso acontece muito com a gente”, comentou o repórter sobre a situação que também pode ser comparada à cena na qual o editor da Spotlight admite não ter dado a devida atenção à denúncia de pelo menos 20 casos de abuso, recebida enquanto estava à frente da editoria de Cidade.

João Antônio, carinhosamente apelidado pelos colegas de “Joanto”, desconfiou dos números oficiais. “Queria provar que entre os supostos autos de resistência havia execuções. A única forma de fazer isso era olhar os laudos cadavéricos”, contou. Ao receber autorização do então editor-chefe do jornal O Dia, Joanto avisou: “preciso de gente”.

– Já tinha sondado um camarada da Polícia Civil e vi que seria um trabalho desumano. Teria que olhar cerca de 50 mil registros de ocorrência, pois não havia nada digitalizado. Pedi que o jornal contratasse dez estagiários por dois meses, e eles bancaram a conta”, recordou o jornalista, ressaltando que matérias exclusivas nunca são baratas. João Antônio contou ainda com o auxílio das repórteres Albeniza Garcia, que morreu em 2014, Cláudia Lima e Fernanda Portugal.

Definida a equipe, o repórter deu um “curso” para ensinar aos estagiários o que procurar nas dezenas de milhares de registros que haveriam de checar, referentes aos últimos cinco anos de atuação da Polícia. “Na época, não havia a classificação de auto de resistência. Era preciso ler a descrição do homicídio, além de anotar o número do RO, o local para onde o cadáver fora removido e o número recebido no IML, para que tivéssemos acesso ao laudo cadavérico, o número do Batalhão, o bairro e o nome dos policiais envolvidos”. Um esforço semelhante ao dos repórteres americanos que analisaram pilhas de relatórios da Diocese de Boston para identificar irregularidades na transferência de sacerdotes.

Terminada a primeira fase, a equipe se debruçou sobre os laudos cadavéricos solicitados no IML por intermédio do delegado que autorizada o acesso aos registros. O material foi encaminhado para um time de peritos, que identificou características claras de execução em mais da metade dos casos. A análise dos batalhões e policiais envolvidos denunciou a existência de um grupo de extermínio dentro da PM. “Descobrimos que havia verdadeiros matadores, gente que havia participado de mais de 20 execuções. Começamos a pesquisar os casos mais absurdos e ir atrás dos personagens”.

O primeiro capítulo da série “Morte em nome da lei” foi publicado dia 20 de julho de 1997. A chamada no alto da primeira matéria denunciava 699 mortes por policiais nos últimos dois anos. O texto contava a história de algumas das vítimas. “Lembro que um rapaz levou tiros nos dois olhos, e a análise do local mostrou que ele estava ajoelhado. Era simplesmente impossível que o policial estivesse se defendendo”, recordou o repórter, que afirma ter prevenido contra qualquer alegação da PM. “Eu pensava em todas as possibilidades de defesa e ia cercando os caras por meio da apuração”, disse Joanto, que diz ter parado de contar os processos que recebeu a partir do 46º. “Já devo ter mais de 60. Nunca perdi um!”, orgulha-se.

A visibilidade dada aos crimes policiais é considerada por João Antônio Barros o maior legado de sua matéria – vencedora de quatro prêmios jornalísticos, entre eles, o almejado Prêmio Esso. “Passou a haver uma luz sobre o que existia ali. Mostramos na matéria que a esmagadora maioria das vítimas não tinha o menor indício de ter sido bandido. E, diga-se de passagem, hoje se mata muito mais”, lamentou o entrevistado, para quem o trabalho das assessorias de imprensa, que dificultam o acesso a fontes exclusivas, e a falta de investimento dos jornais são hoje os principais inimigos do jornalismo investigativo.

Entretanto, ao longo de seus mais de 30 anos de carreira, Joanto parece ter conseguido “driblar” as dificuldades. Em 2003, o jornalista recebeu o Prêmio Maria Moors Cabor Prize, oferecido pela Universidade de Columbia, em Nova Iorque, e organizado pelos mesmos idealizadores do Pulitzer. Diante da menção de sua classificação como o quinto repórter investigativo mais premiado do país, o entrevistado brinca: “Tive sorte na vida”.

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