OSVALDÃO: a lenda do Araguaia

Rebeca Letieri

Prezado amigo… encontro-me nas matas do Araguaia, de armas nas mãos, enfrentando soldados que pretendem me apanhar vivo ou morto. […] Há mais de seis anos morava nesta região, dedicando-me, honesta e pacificamente, ao duro trabalho de garimpo ou do “marisco”. […] Internei-me na mata, que conheço bem, para combater os inimigos do povo. Quero que o Pará e o Brasil sejam terras livres, onde todos possam trabalhar sem grileiros, sem perseguições policiais e contando com a ajuda de um novo governo, progressista e popular. […] Peço-lhe que transmita a todo o revoltado, a todo inconformado com a situação de pobreza e de falta de liberdade, a todo perseguido pelos poderosos e pela polícia, que será bem recebido pelos combatentes. Aqui, entre os revolucionários, ele poderá se refugiar e lutar. Sou um patriota, um filho do povo. Aspiro ardentemente livrar a nação do cativeiro, do domínio dos gringos norte-americanos e da ditadura. Osvaldo, de algum lugar do Araguaia.

(trecho de uma carta escrita pelo guerrilheiro Osvaldão e apreendida pelos militares. Documento extraído do livro Mata! O Major Curió e as Guerrilhas do Araguaia, da Companhia de Letras, do jornalista Leonêncio Nossa)

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Fotografias resgatas de familiares e amigos de Osvaldão / Arquivo Pessoal

Guerrilheiro é treinado para ser invisível, lutar sem deixar pistas. Refazer a trajetória de um deles nunca foi tarefa fácil. O que nos conta o documentário Osvaldão, dirigido por Ana Petta, André Michiles, Fabio Bardella e Vandré Fernandes, é que um dos líderes do episódio que entrou para a História com a Guerrilha do Araguaia se escondeu tão bem por tanto tempo que, hoje, sua memória se tornou uma lenda. A carta recuperada pelo repórter Leonencio Nossa, que trabalhou em O Estado de São Paulo, é a mesma que abre o documentário Osvaldão, e um dos poucos registros que se tem dele.

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Da esquerda para a direita: Vandré Fernandes, André Michiles, Ana Petta e Fabio Bardella  / Arquivo Pessoal

Para narrar a história desse lendário militante do PC do B, capturado e morto pelos militares em 1974, é preciso mergulhar no tempo e contar a história da Guerrilha do Araguaia. Em 1966, os primeiros militantes do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), entre eles, Maurício Grabois, João Carlos Haas Sobrinho e o negro, engenheiro e campeão de boxe Osvaldo Orlando da Costa, o “Osvaldão”, começaram a chegar à região ao longo do rio Araguaia, na área conhecida como Bico do Papagaio, no norte do atual estado de Tocantins, área pertencente na época a Goiás.

A Guerrilha do Araguaia foi o foco da maior ação das Forças Armadas no sufocamento de revoltas desde a Guerra de Canudos, em fins do século XIX. Durante as ações militares, os agentes da repressão teriam cometido – como em tantas outras ocasiões nesse período – graves violações dos direitos humanos. Estima-se que mais de 50 militantes do PCdoB, considerados desaparecidos políticos, tenham sido mortos por militares entre 1972 e 1975.

“Falar da guerrilha do Araguaia e dos guerrilheiros é uma tarefa muito difícil, pois como se sabe, a ditadura e o Exército fizeram de tudo para acabar com qualquer vestígio destes jovens”, comentou Fabio Bardella, um dos diretores do filme.

Área isolada do resto do país, habitada por uma população humilde, migrantes, agricultores ou garimpeiros, a mata do Araguaia há muito tempo tornara-se uma região de conflitos agrários. Pelas condições da natureza e características sociais, foi escolhida para abrigar o maior foco de enfrentamento rural à ditadura civil-militar, seguindo as orientações revolucionárias de Ernesto Che Guevara e Regis Debray, a partir da experiência bem sucedida em Cuba e que fracassou na Bolívia.

O objetivo daquele grupo era se infiltrar nos entornos do Rio Araguaia, ganhar o apoio dos camponeses, incentivar um levante popular e derrubar a ditadura iniciada em 1964 a partir do sudeste do Pará. A guerrilha foi aniquilada através da Operação Marajoara, após anos de investidas militares frustradas. Poucos fatos na história brasileira são tão cobertos de sigilo quanto essa Operação que apagou os rastros criminosos deste comando militar.

“Quando estivemos lá falando com as pessoas, ainda hoje, elas se sentem inseguras para dar alguma informação sobre o ocorrido. Tudo é muito difícil de conseguir. Os camponeses foram torturados, obrigados a informar o exercito, a seguir a trilha dos guerrilheiros como mateiros. É uma ferida ainda aberta”, acrescentou Bardella.

O Protagonista

Osvaldão foi, dentro daquele grupo, um dos que mais se sobressaíram, tornando-se uma figura mítica da guerrilha, dada a força de sua liderança e, sobretudo, lembrado até hoje por seu carisma. Ele era o comandante militar da guerrilha, o responsável pelos treinamentos e ações de emboscadas, fustigamentos e combates.

Ele é descrito pelo jornalista Leonêncio Nossa, no livro Mata! como “homem risonho, dentes alvos, sempre visto com uma camisa de listras pretas e brancas, do Botafogo”.

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Osvaldão: as duas faces, engenheiro e atleta, se misturam na figura do guerrilheiro  / Arquivo Pessoal

Sua memória é guardada até hoje com carinho por onde passou. “Osvaldão dançava com elegância nos cabarés de Xambioá, encantava mulheres, despertava a simpatia dos homens e atraía as crianças, embora, neste caso, sempre usasse o artifício de oferecer balas e bombons”.

Em todo o filme, da infância à morte do personagem principal (em 1974), a presença da floresta se faz imponente e exuberante. A mata selvagem enaltece a aura de misticismo que envolve o comunista e sua memória.

“Geograficamente, eu fiquei impressionado com a riqueza do sul do Pará e como ainda existem coisas do século passado como coronéis, matadores, justiceiros de terra, oprimidos… Lá a lei do mais forte (ruralista, pecuaristas, extratores) é a que impera. É muito louco pensar que o lugar onde estão uma das maiores jazidas de ferro e outros minérios do planeta, onde o trem da Vale quilométrico não para de tirar riquezas, ainda existam camponeses que vivem assolados pela escassez de alimentos, de direitos sobre as terras. Isso me chocou bastante, é uma região muito conflituosa, rica, banhada por rios enormes, Araguaia e Tocantins. É muito paradoxal”, acrescentou Bardella.

Osvaldo Orlando Costa, ex-jogador de basquete do Botafogo, tinha 1m98 de altura. Mineiro da cidade de Passa Quatro, pai comunista, estudou Engenharia na antiga Checoslováquia. Ainda em Praga ingressou no PCdoB. No final da década de 60, com o endurecimento da ditadura no Brasil, foi para a China treinar táticas de guerrilha. No regresso ao país de origem, em 1967, foi direto para o Araguaia, de onde só saiu apenas em 1974, com 35 anos, morto por militares. O corpo foi colocado num saco de lona verde e amarrado no esqui de um helicóptero que sobrevoou Xambioá e os castanhais, para não haver dúvida da morte do mito.

O documentário, que participou da 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, exibe um grande número de entrevistas de amigos da infância, familiares e pessoas que o conheceram na região do Araguaia, mas não esclarece com profundidade a guerrilha em si, e sua atuação nela, já que depois de sua entrada na mata poucos são os registros que se tem dele.

“Os registros são bem escassos. Esta escassez é o grande motivo por termos optado em deixar o bloco do Araguaia composto basicamente por depoimentos. As imagens que usamos de arquivo são a maioria do Arquivo Nacional e de cinejornais produzidos pela ditadura durante o período”, comenta Bardella.

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Na mata / Arquivo Pessoal

Encontrar os registros de quem passou sete anos dentro da mata, lutando em um dos maiores símbolos de resistência à ditadura, em companhia de tantos outros que também foram mortos, é como encontrar uma agulha no palheiro – assim como as diversas narrativas silenciadas entre 1964 e 1985.

Com 78 minutos, o longa-metragem foi gravado em Passa Quatro, Araguaia e Rio de Janeiro, além de conter imagens exclusivas de um documentário do Praga Filme Pujikovna, que retrata o cotidiano de alunos de várias partes do mundo em Praga, em 1961.

“A ideia de fazer este filme veio quando o Vandré Fernandes e Ana Petta (também diretores do projeto) conseguiram imagens inéditas de Osvaldão quando ele estudou na Checoslováquia, por meio dos amigos Rui e Eduardo Pomar. As imagens foram encontradas na cinemateca de Praga pelo nome de “Encontro na anti-babilônia”. O material se trata de um documentário produzido por Checos, sobre os estudantes internacionais que se encontravam lá. O Osvaldo, figura carismática, é um dos protagonistas do “documentário”. Sendo estas as únicas imagens em movimento dele”, contou o diretor.

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Captura de Tela / Arquivo Pessoal

Para mudar essa realidade opressora, ainda presente nas narrativas cotidianas do país, Fabio Bardella sugere uma reavaliação da educação nas escolas. “Fatos como estes eram para serem ensinados na escola, mas sabemos que não é assim. É necessária reformar esta grade ainda militar que compõe os livros de História. Enxergar o outro lado, refazer este julgamento. As artes, a música, o cinema são ferramentas transformadoras em que as pessoas podem ser tocadas. Então filmes como estes cumprem um papel que os livros em nossa formação não cumpriram. Seguimos agora em busca de outros festivais no Brasil e também fora. Nosso objetivo é exibir o doc em várias plataformas. Exibimos durante as ocupações nas escolas de São Paulo em 2015, cineclubes, coletivos de teatro. E por que não em escolas?”.

Com narrações do cantor Criolo, do ator Antônio Pitanga e da artista Leci Brandão, o documentário Osvaldão ajuda a restabelecer a memória do país e a luta pelos direitos humanos.

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“Homem risonho, dentes alvos: Osvaldão” / Arquivo Pessoal

TEASER do Documentário: https://www.youtube.com/watch?v=rTE5-u_5g1I

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2 comentários sobre “OSVALDÃO: a lenda do Araguaia

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