Sejamos todos feministas

Nos últimos dias, um assunto dominou as redes sociais e grande parte dos programas jornalísticos de todo o país: a notícia de que uma menor de idade foi estuprada por mais de 30 homens em uma favela na Zona Oeste do Rio. Seu corpo machucado foi exibido nas redes sociais por alguns dos criminosos, por meio de fotos e vídeos que, além de expor a vítima, mostravam a frieza e a banalidade do ato praticado por aqueles homens.

O assunto mobilizou pessoas do país inteiro e levantou a questão sobre a CULTURA DO ESTUPRO. Eu acompanhei grande parte dessa repercussão e cheguei a ler comentários que diziam que tal expressão não se aplicava ao Brasil, pois aqui não se defende abertamente o “estupro”. Cabe explicar que a “cultura do estupro” não quer dizer, necessariamente, defender o ato em si, mas um conjunto de valores e pontos de vista naturalizados com relação à mulher que, no final das contas, acaba ou levando à violência sexual, ou justificando-a.

É bom lembrar que faz parte da cultura do estupro a objetificação dos nossos corpos (basta olhar as propagandas de cerveja que nos tomam de assalto diariamente pela TV); a ideia de que devemos nos comportar e nos vestir de “maneira adequada”; o pensamento de que cuidar da casa é nosso dever exclusivo; a ideia de que o sexo não-consensual entre marido e mulher não deve ser considerado uma violência; etc. Poucas semanas atrás, uma revista semanal estampou uma foto da esposa do presidente interino do Brasil, elogiando-a por ser “Bela, recatada e do lar”.

Tais qualidades, defendidas pelo semanário, determinam um padrão de beleza, prescrevem um certo tipo de comportamento e defendem confinamento ao espaço doméstico, ao mesmo tempo em que estampam o mal-estar de nossa sociedade com relação às mulheres que vêm ocupando cada vez mais espaços públicos. Esse tipo de pensamento também faz parte da cultura do estupro, pois acusa como “provocadoras” e transforma em culpadas todas aquelas que se recusam a seguir essa cartilha.

Além de toda campanha positiva que tomou as redes e as ruas, comentários machistas, misóginos, preconceituosos com relação à favela e até de ataque aos direitos humanos começaram a aparecer. Houve gente que, contraditoriamente, começou a elogiar figuras como o deputado federal Jair Bolsonaro (PSC-RJ), que defende “castração química” para estupradores. Sem comentar o “populismo ineficaz” de um projeto como esse, é bom lembrar que esse é o mesmo parlamentar que disse a uma colega de Plenário que ela “não merecia ser estuprada” e que se posiciona contra a educação de gênero nas escolas. Ele também é conhecido por defender a ditadura militar e inclusive seus métodos de tortura, os quais, não podemos nos esquecer, consistiam muitas vezes em estuprar as presas políticas, além de outras barbaridades. A esse respeito, vale conferir o documentário “Que bom te ver viva”, da cineasta e ex-presa política Lúcia Murat, disponível na internet.

Esse triste caso recente nos mostrou como o feminismo é cada vez mais necessário e urgente, pois a cultura da violência contra os corpos femininos começa na diferença entre meninos e meninas que aprendemos desde que somos crianças: como cada um deve se comportar, se vestir, as atividades que cabem a cada gênero exercer, os papéis desempenhados dentro de casa etc. “O problema da questão de gênero é que ela prescreve como devemos ser em vez de reconhecer como somos”, diz a escritora nigeriana Chimamanda Adichie em “Sejamos todos feministas” (Companhia das Letras, 2015, p. 36), livrinho no qual me inspirei para o título desse texto. Certamente a cultura do estupro começará a ser combatida quando deixarmos de prescrever como deve se comportar cada gênero para defendermos a igualdade entre homens e mulheres e, ao mesmo tempo, estarmos abertos para perceber e valorizar a particularidade de cada um.

***Sheila Jacob é ex-aluna do IACS.

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