Uma história que se repete desde Tomás de Aquino

Alda de Almeida

 

Feriadão à carioca, fim de tarde na mureta da Urca e, de repente, surge o assunto sobre o qual as mulheres não querem (e não vão) calar: o estupro de uma garota de 16 anos por um monte de homens. Dizem que trinta. Uma conhecida conta, indignada, que comentou o assunto com um taxista, que respondeu com uma pérola do machismo acima e abaixo da linha do Equador. “Ela mereceu. Essas meninas vão para a favela atrás de drogas e depois reclamam quando acontece uma coisa dessas.”

Na verdade, elas não se queixam. Este é o problema.

O estupro é um crime muito mais comum do que imaginamos, mas o número das mulheres que procuram a polícia para dar queixa é muito pequeno. Por quê? Medo, vergonha, nojo de si mesmas e a certeza de que vão enfrentar perguntas do tipo “você provocou?”

E o que é provocar no vocabulário machista? Beber demais em uma festa, sair com alguém para fumar um baseado, usar roupas muito curtas, muito justas, decotadas. A argumentação para transformar a vítima em culpada é vasta.

Qualquer comportamento que possa parecer desvio à luz do pensamento dominante pode ser usado contra a vítima, provando que ela é uma vagabunda e… mais uma vez mereceu ser vítima dessa violência. Estatísticas mostram ser a maioria dos agressores familiares, namorados ou amigos.

Estamos falando de um discurso prevalecente em nossa sociedade de que os homens não conseguem controlar seus instintos diante de uma mulher “sedutora” e de que as mulheres devem ceder aos avanços masculinos. Ou o cara vai “tomar” à força. Esse discurso me remeteu a um texto de São Tomás de Aquino, teólogo, filósofo e padre dominicano, lido ainda nos tempos de faculdade, e que me impactou profundamente. O teórico do catolicismo medieval dava conselhos aos pais, maridos e irmãos para trancarem as mulheres dentro de casa. De casa só para a igreja e de volta para casa, assim mesmo acompanhadas. Não devíamos nem ser vistas, pois somos fonte de pecado.

O que Tomás de Aquino queria dizer em pelo século XIII?  Quis dizer que podemos até ser belas, mas recatadas e do lar. Você já leu isso? É que o discurso arcaico nos acompanha por séculos e séculos. E as que não se enquadram nesse padrão exibido como desejável? Ao que parece podem ser estupradas, prostituídas à força e até mortas. Afinal fizeram por onde. Não foi o que o delegado perguntou à menina? Gosta de transar, costuma participar de sexo grupal? Só faltou perguntar (pelo menos até onde sabemos) se ela gostou.

Como afirmam os jovens de hoje, o caso é bizarro. E bizarro também do ponto de vista legal. Senão vejamos, o crime apareceu porque as imagens foram divulgadas nas redes sociais e virou assunto da Delegacia de Repressão aos Crimes de Informática. A divulgação virou o crime a ser investigado; não o estupro. A inadequação da delegacia e a do delegado fizeram com que a prisão dos envolvidos identificados sequer  tenha sido pedida. A coisa estava mais ou menos assim: uns garotos resolveram filmar um estupro. O fato em si foi secundarizado.

Esperamos que, com a transferência do caso para a Delegacia da Criança e do Adolescente, a investigação entre no rumo certo, o de um crime bárbaro que deve ser punido como tal. E servir de exemplo para desmotivar outros que tenham a ideia de fazer algo parecido.

Enquanto isso, recomendo à mulherada não aceitar bebida de qualquer um ( a garota foi dopada), andar com spray de pimenta na bolsa e aprender artes marciais. Pode ajudar, mas não vai resolver. O que resolve? A sociedade mudar esse pensamento machista predominante que nos pune sempre, tanto quando abafamos desejos e sonhos para nos enquadrarmos, como quando chutamos o balde e resolvemos viver de acordo com nossa vontade e viramos sempre culpadas.

***Alda de Almeida é jornalista formada no IACS/UFF.

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2 comentários sobre “Uma história que se repete desde Tomás de Aquino

  1. Pingback: A indignação precisa tomar conta das redes | Afasta de mim este Cale-se

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