Uma garota nos Andes ou como a cultura do estupro ultrapassa fronteiras

Malu Muniz

 

São 33, trinta e três anos de vida. Vinte e sete vividos na cidade de Niterói, pouco mais de quatro em Brasília e quase dois anos em Quito, capital do Equador. Sempre estive numa ‘zona de conforto’. Branca, classe média e uma família extremamente acolhedora.  Na cidade que “não tem esquina”, como nós, sudestinos umbigocêntricos nos referimos a Brasília, conheci outras formas de ser/estar no mundo.

Nos primeiros meses de 2011 eram frequentes as notícias sobre estupros naquelas vastas e pouco iluminadas ruas da capital. A volta para casa às 23h significava um risco diário. Tardou para que eu tivesse consciência disso. Certamente aquela ‘zona de conforto’ em que fui criada me fizera um tanto alienada sobre os perigos a que somos expostas numa cultura machista e fundamentalmente marcada pela apropriação constante dos corpos femininos. Seja pelo mercado de trabalho, pelas igrejas, pelas próprias famílias, pelas escolas ou por nossos parceiros vitimados pela cultura que reproduzem: “Homem não chora”; “Aja como homem!”, “Mostra o troféu pra tia”.

Vivendo em Quito, fui (re)descobrindo meu corpo através dos estereótipos construídos pelos meios de comunicação sobre ‘o que é ser uma mulher brasileira’. Por diversas vezes, descoberta pelo meu sotaque num táxi, fui identificada como a “garota brasileña”. A palavra está associada à mulher que samba, que possui fartas curvas e, especialmente, que ostenta uma pele ‘mulata’. Minha branquitude e o corpo magro me excluem do estereótipo ao ponto de  um taxista, certo dia, me dizer que eu tinha pouco corpo para ser brasileira.

Neste país andino – outro estereótipo que exclui a região costeira e amazônica equatoriana –, identifiquei novamente meu lugar privilegiado. E se eu fosse aquela ‘mulata’ que se espera encontrar no Brasil? Identificada por um termo etimologicamente pejorativo, estaria sujeita a ter meu corpo simultaneamente sexualizado e racializado. Ainda mais vulnerável, não acredito que escaparia de viver experiências ainda mais desagradáveis que aquela, num ônibus complemente esvaziado, a caminho da fronteira com a Colômbia, quando o cobrador aproximou-se bêbado querendo “saber mais sobre mim” às 4h da manhã.

Sigo investindo em abordagens pedagógicas. Assim, insisto em esclarecer aos taxistas, ao padeiro ou ao moço do restaurante que “garota” é sinônimo de chica, apenas. “Mulata” remete à mula e, portanto, não é um termo adequado para referir-se às mulheres negras; que estas podem ser sambistas sim, mas também dentistas, jornalistas, médicas, professoras etc.

***

Foram 33. Trinta e três homens que penetraram violentamente o “território-corpo” de uma jovem de 16 anos no Rio de Janeiro. Ela certamente não usufrui da mesma ‘zona de conforto’ social e familiar que me acompanhou na adolescência pelas ruas de Icaraí, bairro nobre de Niterói, minha cidade natal. Impossível não lembrar que aos meus 16 anos eu estava descobrindo minha sexualidade, com toda proteção possível, sob a vigília preocupada, porém generosa de meus pais. Pude viver o passo a passo das lentas e gostosas descobertas do meu corpo, da minha intimidade, do meu prazer. Lembrar e valorizar tudo isso é condição básica para sentir-me empática frente àquela jovem conterrânea; é condição básica para sentir-me humana, pois a violência – física ou simbólica – que cometemos contra outra pessoa desumaniza a nós mesmxs.

Hannah Arendt dizia que a “banalização do mal” é pior do que o mal em si, pois faz este parecer normal e a normalidade permite e legitima as piores atrocidades. Aquela jovem de 16 anos entende bem desta mecânica perversa, que atravessa corpos e ultrapassa fronteiras.

***Malu Muniz é jornalista, formada pela UFF, mestre em Ciência Política e doutoranda em Sociologia. Quando aluna da graduação no IACS, foi uma das idealizadoras e primeira bolsista do projeto de extensão Afasta de mim este cale-se.

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