Uma ponta de esperança

Nara Meireles

 

Quando uma notícia como a do estupro coletivo da menina de 16 anos numa favela da Zona Oeste do Rio de Janeiro toma conta dos noticiários, o primeiro sentimento é o de espanto. “É verdade que alguém é capaz disso?”.

Depois vêm a raiva, a tristeza, a indignação, a solidariedade. E para alguns, as justificativas, o pré-julgamento da vítima, a indiferença. Mas em meio a tantas discussões, à grande repercussão nas redes sociais e à mobilização dos movimentos feministas, a parte boa disso tudo – se é que se pode falar assim – é ver que este segundo grupo está cada vez menor.

Opiniões diferentes existem e vão existir sempre. Isso é, inclusive, saudável. Mas posicionamentos machistas, preconceituosos e a favor da violência devem ser e estão sendo coibidos, muitas vezes transformados. A quantidade de pessoas que defendem esse e outros atentados aos direitos humanos parece ter diminuído com a luta pela conscientização, principalmente na internet. A ideia de a saia curta ser justificativa para um estupro ou a aparente inocência no compartilhamento de vídeos de mulheres nuas por WhatsApp tem ganhado consciência. Debates levantam reflexões importantes para a sociedade.

É uma ponta de esperança ver que a população pode mobilizar-se e caminhar junta em prol de um único objetivo. É confortante ler que mais de dez cidades brasileiras registraram manifestações em defesa dos direitos femininos. Que mulheres, homens e crianças se uniram para combater – ou pelo menos tentar combater – as atrocidades cometidas hoje em dia em todo o país contra as mulheres.

Estamos finalmente percebendo que o problema não é o estupro de Maria ou Joana. Não é discutir se foi um criminoso, se foram cinco ou “pelo menos 30”. O problema é fechar os olhos para as quase 50 mil pessoas que são estupradas por ano no Brasil. O problema é naturalizar um crime nada natural. Definitivamente, não é a Maria. Não é a Joana. Somos todos nós. Somos todos nós que, até hoje, nos calamos e aceitamos tantos tipos de absurdos. Precisamos continuar caminhando juntos.

No fim, uma ponta de esperança.

***Nara Meireles é mestranda do Programa de Pós-graduação em Mídia e Cotidiano da UFF e editora da Globonews.

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