Vamos desconstruir a cultura do estupro

Todos e todas estão sujeitos a se tornarem vítimas da violência. O que o crime de estupro tem de distinto entre os demais atos violentos é que parte da sociedade machista atribui  a culpa à vítima e não ao criminoso. O Cale-se decidiu dar voz a adolescentes de escolas públicas e particulares que estão preocupadas com o tratamento que as autoridades policiais, a mídia e a sociedade dispensam ao assunto. O texto a seguir é de Helena Belém, 16 anos, aluna do Colégio São Vicente, no Cosme Velho, Zona Sul do Rio de Janeiro.

João Batista Abreu

 

Vamos desconstruir a cultura do estupro

Cultura do estupro é o contexto no qual a sociedade normaliza o estupro e outras atitudes machistas. Um caso específico de uma garota de 16 anos que foi estuprada por 33 homens, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, movimentou muitos discursos feministas abordando esse assunto. Muitos negam a existência dessa cultura, porém esse pensamento pode parecer muito equivocado levando em consideração a reação da sociedade a questões de gênero e sexualidade. Por exemplo, em uma pesquisa, 65%  dos entrevistados responderam que mulheres que usam roupas curtas e decotes de noite merecem ser estupradas.

O primeiro passo para compreender o porquê da existência da cultura do estupro é entender que nunca, absolutamente nunca, em nenhum caso, em nenhuma circunstância a culpa do estupro é da vítima. Se uma mulher está andando três horas da manhã, numa rua deserta, apenas de biquíni, ela não merece ser estuprada, ela apenas está exercendo seu direito de ir e vir. O fato de a nossa sociedade ter esse pensamento machista nos mostra o quão forte a cultura do estupro é no mundo em que vivemos.

A cultura do estupro tem sua existência negada por muitos justamente por estar extremamente enraizada (por isso mesmo que se chama “cultura” do estupro). Por exemplo, quando alguém faz queixa de assalto, a pessoa não é questionada, ao contrário das mulheres vítimas de estupro. Quando uma mulher sai de casa com roupas curtas, ela “está pedindo”. Quando ela se relaciona com vários homens, ela é “fácil”, quando se relaciona com poucos, está “se fazendo de difícil”. O machismo está presente nas menores atitudes, como tratar uma mulher de forma mais delicada, pois elas são “frágeis”, ou um “elogio” direcionado a uma mulher na rua, o que torna-o mais difícil de ser percebido e, portanto, mais difícil de ser combatido.

Outro assunto polêmico sobre a cultura do estupro é a visão da mídia sobre as mulheres. Para muitos, um comercial de cerveja no qual várias mulheres loiras, brancas, magras estão de biquíni, segurando a bebida e fazendo caras e bocas para os homens é um comercial nem um pouco problemático. Porém, para uma pessoa desconstruída, esse comercial mostra estereótipos e objetificação da mulher, machismo, “gordofobia”, entre muitos outros preconceitos.

Esse é o objetivo do feminismo que hoje reúne muitas jovens mulheres em coletivos em colégios e na vida: desconstruir as pessoas. Desnaturalizar a cultura do estupro e o machismo que estão tão socialmente enraizados. O processo de desconstrução é constante, ninguém nunca está totalmente desconstruído e a cada segundo surgem novos pensamentos que devem ser desmoralizados. Todos os dias, o feminismo luta contra a cultura do estupro.

***Helena Belém, 16 anos, aluna do ensino médio, integra o Coletivo Feminista do Colégio São Vicente de Paulo, no Rio de Janeiro.
***Ilustração de capa: Ju Amora

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