Dom Paulo Evaristo: o sacerdote dos oprimidos

Se existem sacerdotes na Igreja católica no Brasil que merecem o tratamento suntuoso de “Dom”, certamente Paulo Evaristo está entre eles. Catarinense de Forquilhinha, este franciscano de 95 anos ordenou-se padre em 1939, aos 18 anos. Estudou na Sorbonne, onde se graduou em Filosofia, e trabalhou como jornalista. Fez trabalho pastoral na periferia de Petrópolis e, em 1966, tornou-se bispo auxiliar de São Paulo. Logo depois, o papa Paulo VI o nomeou cardeal de São Paulo. A posição firme de Paulo Evaristo durante a ditadura civil-militar é um exemplo de coragem e resgate do papel da Igreja como defensora dos que sofrem. A cada domingo, os sermões do cardeal na missa rezada por ele na Catedral da Sé traziam lições de humanidade, denunciando muitas vezes as torturas praticadas por cafajestes de farda nos porões do Doi-Codi. Digo “cafajestes de farda” porque torturadores não merecem ser chamados de militares, muito menos de servidores públicos. Os sermões eram transmitidos ao vivo pela Rádio Nove de Julho, pertencente à Arquidiocese de São Paulo. Ecoavam como uma das poucas vozes na direção contrária ao “milagre brasileiro”. Em outubro de 1975, Dom Paulo e o rabino Henry Sobbel protagonizaram uma das atitudes mais corajosas durante a ditadura, por ocasião do assassinato do jornalista Vladimir Herzog, na época diretor de Jornalismo da TV Cultura, nas celas do Doi-Codi. O comando do 2º Exército montou uma farsa alegando que Vlado havia se enforcado na cela. A farsa era tão grotesca que sequer levava em conta que a altura da janela onde ele teria pendurado a corda era inferior ao tamanho do corpo do jornalista. Um mês após o assassinato, todos os grandes jornais publicaram o resultado do inquérito, confirmando a farsa. Arns e Sobbel deram uma lição aos donos de jornais. Sobbel recusou-se a enterrar o corpo de Vlado no setor reservado aos suicidas, como recomenda a tradição judaica. Os dois celebraram um culto ecumênico na Catedral da Sé no domingo seguinte ao crime, como uma espécie de libelo contra a escória que mandava nos órgãos de segurança do Segundo Exército.

Em 2003, eu entrevistei Dom Paulo no Largo de São Francisco, em São Paulo. Foram 30 minutos de conversa cronometrados. Já aposentado, ele me mostrou sua carteira da Associação Brasileira de Imprensa, número 25, fazendo questão de dizer com orgulho que era jornalista. Que Deus abençoe este homem que passou 76 anos vestindo batina, mas que demonstrou mais coragem e caráter do que muitos que só vestem calça.

João Batista de Abreu

*Foto da capa: CPDoc JB

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