Quando chegar o momento

Filme de Luiz Alberto Sanz sobre Maria Auxiliadora Barcelos, a Dora

publicado por Gabriel Vasconcelos* no site Ultrajano dia 18 de agosto de 2017

 

“Além de constituir o relato mais completo de que tenho notícia sobre a guerrilheira, o filme é uma peça paradigmática do cinema militante, porque não se detém ao personagem alegórico e adota estratégias de forma e conteúdo raras para o seu tempo”

Há dois anos, Paulo Nogueira (DCM) escreveu artigo comovente sobre como descobriu tardiamente Maria Auxiliadora Lara Barcelos, a Dôra, no documentário Brazil: A Report on Torture (1971), dos norte-americanos Haskell Wexler e Saul Landau. Indicação de sua filha, o filme foi realizado no Chile e reúne depoimentos sobre a tortura de integrantes do grupo de 70 militantes tro cados no sequestro do embaixador suíço pela luta armada na virada de 1970 para 1971.

Entre os “Setenta” estava a “jovem médica, bonita e articulada”, por quem Nogueira disse ter se apaixonado. Fisgado pela altivez com que Dôra denuncia as violações do regime militar, o jornalista fez rápida busca na internet para saber como ela estaria hoje. Descobriu, então, a sua tragédia. Cinco anos após aquelas filmagens, em junho de 1976, Dôra se atirou nos trilhos do metrô de Berlim Ocidental, pondo fim à própria vida. Tinha apenas 31 anos e sofria de depressão aguda.

Bem conhecida da militância por direitos humanos, a história penetra lentamente na memória coletiva. Gerações como a do jornalista e a de sua filha têm se deparado com Dôra em trechos de filmes, trabalhos acadêmicos, reportagens e perfis de vítimas da ditadura. Em 2010, durante congresso do Partido dos Trabalhadores, a última presidente eleita do país, Dilma Rousseff, homenageou a companheira de VAR-Palmares em discurso emocionado.

Ainda assim, chama atenção o desconhecimento do público sobre o filme Quando chegar o momento (1978), realizado pelo cineasta e amigo de Dôra Luiz Alberto Sanz.

Assim como ela, Sanz aderiu à luta armada (VPR), foi preso, torturado e banido como um dos “Setenta” para o Chile. Em 1973, após o olpe de Augusto Pinochet, enquanto Dôra seguiu para Bélgica, França e Alemanha, Sanz foi para a Suécia. No país escandinavo, trabalhou como estivador até conseguir um cargo técnico na cooperativa de cineastas Filmcentrum.

Como demonstrado na segunda parte do filme, Sanz teve sorte. Em geral, os exilados brasileiros só tinham acesso a atividades pouco intelectuais, porque suas formações não eram reconhecidas na Europa. Além disso, uma minoria conseguia acessar a universidade e voltar a estudar. Sem uma bolsa, precisavam trabalhar para sobreviver. No caso das mulheres, o trabalho mais comum era o de faxineira, como relatam as entrevistadas Célia Bona Garcia, em Paris, e Sandra de Souza, em Estocolmo.

Trabalhando com cinema, Sanz conheceu o sueco Lars Safstrom. Sensível à causa latino-americana, ele topou viabilizar Quando chegar o momento por meio de uma produtora que mantinha com o irmão. Menos de três meses após o suicídio, em setembro de 1976, o documentário começou a ser pensado junto a Reinaldo Guarany. Também exilado, Guarany foi o último namorado de Dôra e personagem quase onipresente no roteiro.

Além de constituir o relato mais completo de que tenho notícia sobre a guerrilheira, o filme é uma peça paradigmática do cinema militante, porque não se detém ao personagem alegórico e adota estratégias de forma e conteúdo raras para o seu tempo. É o caso do autor-personagem, que aparece diante das câmeras fazendo perguntas e construindo, ele mesmo, os fatos a serem filmados.

Em outras palavras, Sanz contrariou certa tendência dos cineastas políticos ao subjetivar Maria Auxiliadora em toda a sua história de fibra e dor, em vez de só mostrá-la como representante de um grupo maior, pretensamente homogêneo. Por outro lado, fez um filme moderno: sensível à fala das mulheres, esteticamente irrepreensível e formalmente próximo ao que Eduardo Coutinho faria cinco anos depois com Cabra Marcado para Morrer (1984) e, depois, Michael Moore levaria ao extremo a fim de popularizar o gênero.

Apoiado em arquivos filmados de Dôra, cartas escritas por ela e depoimentos de outros asilados, o filme conta a trajetória da militante desde a origem em Antônio Dias (MG) até o suplício em Berlim, esmiuçando as causas de sua depressão: embora tivesse ingressado na concorrida faculdade de medicina da Universidade de Berlim, ela continuava a ser perseguida, encarada como uma subversiva perigosa.

Durante a Copa do Mundo de 1974, na Alemanha, foi obrigada a comparecer três vezes por dia à polícia, o que prejudicou sua frequência no curso de alemão pago pela Igreja Evangélica. Caluniada na imprensa por membros da Democracia Cristã, foi processada por entrada ilegal no país, sendo defendida pela Anistia Internacional. Depois, em um contexto de crescente paranoia do Estado diante da intensificação de ações de grupos de extrema esquerda, como a Fração do Exército Vermelho (RAF, na sigla alemã), teve a circulação restrita. Foi proibida de sair de Berlim Ocidental ou mesmo morar em determinadas zonas da cidade. A suspensão do direito de ir e vir foi o gatilho definitivo para a depressão.

Um dos trechos revela sua paixão pela ginecologia e pela psiquiatria, especialidades que pretendia seguir. Neste ponto, parte de seus escritos são lidos, revelando toda a sua potência intelectual e reiterando a reflexão de gênero que o filme sutilmente propõe.

Diz Dôra: “Segundo Freud, a mulher é um homem castrado. O macho é soberano. Mas Freud ignora a origem da supremacia do macho. Engels mostra que a consciência da mulher não é definida unicamente pela sexualidade. Repete uma situação que depende da estrutura econômica da sociedade. O homem torna-se proprietário da mulher quando, na divisão do trabalho, a propriedade privada aparece. O destino da mulher está ligado ao socialismo”.

Com duração de 61 minutos, o filme foi pré-exibido em 1978, no XI Festival Mundial da Juventude e dos Estudantes, em Cuba. Depois, foi ao ar no Canal 1 da TV Sueca, às 20h do dia 30 de agosto daquele ano, uma quarta-feira. Bem recebido pela crítica, foi um sucesso de audiência. Liderou o ibope da noite a ponto de ser reprisado, dias depois, em pleno horário nobre. O título, conta Sanz, é homônimo a um verso da canção Apesar de você, de Chico Buarque.

Por óbvio, devido à censura do regime militar, ficou completamente desconhecido do público brasileiro por muitos anos, até que foi exibido pela primeira vez no país em 2014, durante a mostra “Arquivos da Ditadura”, no Centro Cultural da Justiça Federal (RJ). No ano passado, com a ajuda de seu filho, Sanz liberou o filme para o público na plataforma Vimeo. É uma obra importante, do tamanho da amizade de Dôra e Sanz.

***Gabriel Vasconcelos é formado em jornalismo pela UFF e colunista de cinema no site Ultrajano

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