Os protagonistas desta história IV

A seguir publicamos depoimentos de alguns ex-bolsistas do projeto Afasta de mim este cale-se na ocasião do II Congresso Internacional sobre Competências Midiáticas

João Pedro Soares

Participar do “Cale-se” foi uma das experiências mais ricas da minha graduação em Jornalismo na UFF. Junto com outra bolsista, ingressei no projeto logo em meu primeiro período na faculdade. Tivemos a oportunidade de retomá-lo após um período de inatividade e, sob orientação, produzir conteúdos relacionados à temática da memória e direitos humanos. Publicamos importantes reportagens e entrevistas que, embora estivessem alocadas no site de um projeto de extensão da universidade, repercutiam para fora de seus muros. O alcance de nosso trabalho nos mostrou de imediato a importância daquilo que fazíamos.

Dentre várias lembranças que guardo desse período, a mais impactante diz respeito à cobertura de uma audiência pública organizada pela Comissão Estadual da Verdade do Rio em agosto de 2013. Na ocasião, o ex-major Valter da Costa Jacarandá foi interrogado pelo então presidente da CEV. Após ouvir relatos de tortura de ex-militantes que foram prisioneiros políticos da ditadura – inclusive algumas vítimas dele próprio –, Jacarandá confirmou a prática de crimes humanitários durante o período publicamente. Ali, tive a certeza de estar vendo a história ser escrita, com o privilégio de colaborar para a construção dessa narrativa.

As discussões a respeito do projeto, além do próprio processo produtivo, impactaram profundamente na minha forma de pensar e praticar o jornalismo. Neste ano, trabalhei por quatro meses na rádio CBN, a mais importante do país, antes de sair para uma oportunidade internacional. Meu trabalho se destacou justamente pela cobertura de pautas relacionadas às temáticas dos direitos humanos e da memória. Em minhas reportagens, expus situações de total desrespeito à dignidade humana e às liberdades individuais observadas no Rio de Janeiro.

Em síntese, o Cale-se foi fundamental para moldar minha formação jornalística e me mostrar, desde cedo, a importância do trabalho do jornalista como escritor da narrativa histórica. Pensar que a minha produção interfere na forma como o público irá interpretar o passado e o presente me faz perceber a enorme responsabilidade que temos nessa profissão. Além disso, a oferta aos estudantes da possibilidade de ter contato com as pautas que norteiam o projeto desde cedo na universidade, em um momento de ataque brutal e deliberado à defesa dos direitos humanos no Brasil, é mais que uma conquista acadêmica. Trata-se de um necessário e elogiável ato de resistência.

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