Os protagonistas desta história

A seguir publicamos depoimentos de alguns ex-bolsistas do projeto Afasta de mim este cale-se na ocasião do II Congresso Internacional sobre Competências Midiáticas

Malu Muniz

No ano de 2005, quando já se passavam 30 anos desde o assassinato do jornalista Vladmir Herzog nas dependências do DOI-CODI de São Paulo, recebemos a proposta do professor João Batista para que os alunos produzíssemos um conjunto de reportagens revisitando o dia 25 de outubro de 1975. Não voltaríamos à cena do crime. Visitaríamos o espaço-tempo em que estavam alguns atores diversos. A ideia era reelaborar e reativar memórias de um dia que, por diferentes razões, e em diferentes lugares, marcou a vida de pessoas que sequer conheciam pessoalmente o jornalista torturado e morto pelas forças de repressão do regime militar. Este já estava em seu período de desgaste e abertura – muito lenta, gradual e seletivamente segura.

Ao coincidir com investigações pessoais que eu realizava sobre jornalistas militantes no espaço prisional, em particular durante o período da ditadura militar, o trabalho ultrapassou as fronteiras da sala de aula, da Universidade, e do tempo. O conjunto de reportagens deu origem a um livro que foi distribuído gratuitamente dentro e fora de espaços acadêmicos.

Atentas às realidades cotidianas, percebemos a importância de trasladar aquela abordagem aos tempos atuais, quando o inimigo social já não era o comunista, o “terrorista”, mas sim pobres e negros, que habitavam um ‘não-lugar’, onde o Estado chegava apenas em sua faceta mais violenta e repressiva. Voltamo-nos para a triste ausência-presente vivida pelas Mães de Acari, em busca de seus filhos desaparecidos; atentamos para as vidas fronteiriças de jovens moradores de favelas, classificados, categorizados, racializados, discriminados. Mas também resistentes com uma pequena rádio comunitária instalada na Vila do João, parte do Complexo da Maré.

Afastar o silêncio nos convidava a aproximar-nos, romper fronteiras sociais, econômicas, raciais. Se houve um tempo em que falávamos em “dar voz aos sem voz”, aquele presente nos ensinava, desde a prática jornalística, que o desafio era outro. Desde nossos espaços privilegiados, numa universidade ainda mais branca e elitista, era urgente horizontalizar, transversalizar e interculturalizar nossas palavras. Era preciso incluir novos métodos e até mesmo outros verbos, para alcançar novas práticas e epistemes desde a Comunicação a outras áreas de conhecimento. Ainda é uma tarefa pendente.

Passada uma década, os rumos da política institucional nos mostram que deixamos muito trabalho por fazer, nossa dívida com o passado é imensa, gigantesca. Não apenas o passado ditatorial, que invade o presente cada vez que ocorre uma ação policial na Maré ou em qualquer comunidade pobre e majoritariamente negra do país. Nossa dívida é com o passado da Diáspora negra, que se faz presente em uma sociedade extremamente desigual.

O caminho da extensão universitária é, por fim, abrir as portas da Universidade, permitir que ela seja ocupada por discursos mais diversos; que nossas aulas se deem no ‘campo’, com o ‘campo’, desde o ‘campo’ de apuração/ investigação; que abdiquemos do lugar de perguntadores, passando a socializar o direito à interrogação com outros sujeitos e sujeitas.

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s