Marielle: a ficha que demorou a cair nos jornais do Rio

publicado por Pedro Aguiar, Jornalista e doutor em Comunicação pela UERJ, Especial para objETHOS, em 16 de março de 2018

A grande ficha. Ilustração: Laerte.

Enquanto a vereadora carioca Marielle Franco, do PSOL, era assassinada com quatro balas disparadas por algum dedo covarde, às 21h30 da quarta-feira, 14 de março, os jornais da região metropolitana do Rio de Janeiro fechavam suas edições do dia seguinte. Um assassinato de vereador numa capital de estado já não é pouca notícia. Mas essa vereadora, em particular, que se dedicava justamente a denunciar a violência indiscriminada de policiais e outros agentes do Estado contra a população pobre, afro e periférica, não podia ser morta em circunstância banal. Os primeiros indícios de execução – nove tiros, uma sobrevivente, testemunhos de um emparelhamento – já tinham saído naquela mesma noite. Se havia algum momento para gritar o clichê “Parem as máquinas!”, era aquele.

Clichê, por sinal, é termo que vem da indústria gráfica e designa justamente o molde em chumbo usado para imprimir livros e jornais. Cada versão de uma folha diagramada para imprimir precisa de um clichê; por extensão, cada versão da mesma edição de um jornal é chamada de um clichê diferente. O primeiro clichê é sempre uma versão “provisória” da edição do dia; o segundo, o terceiro e os subsequentes são os que valem, na prática, e circulam mais na praça onde o jornal está sediado.

Pois os jornais cariocas e fluminenses fechados durante ou logo depois do assassinato de Marielle chegaram às bancas e aos assinantes confinando essa notícia a cantinhos da primeira página ou, no máximo, em certos casos, a uma importância secundária. Poucos deram ao fato o tratamento de manchete, ou seja, da notícia mais importante do dia anterior.

Entre as exceções, estiveram os dois principais jornais populares da cidade, do mesmo dono: O Dia e Meia Hora, ambos em que foto, título e chamada ocupavam a maior parte da capa em negativo num box. O Extra, do Grupo Globo, também deu o maior destaque ao crime, mas apertado, acima da dobra, com “Este Mengão bonito de ver” e um seriado de TV. Mas o Expresso, compacto para classes C e D do mesmo conglomerado, enquadrou Marielle no canto inferior esquerdo, com cerca de 1/9 da superfície dedicada ao resultado do jogo do Flamengo.

Atual diário de referência na cidade (o que alguns consultores chamam de “quality paper”, termo inexistente na gringa), O Globo pagou o mico de ter seu primeiro clichê nas bancas da zona sul sem nenhuma referência ao crime. Nada, em absoluto. O segundo, de fato, deu alto de página com foto aberta. Mas, no meio da dobra, a manchete do dia – a rigor, o título de maior corpo (ou “tamanho de fonte”, pra quem nasceu digital) – era “Fundo público financia leilão por deputados”.

O Jornal do Brasil impresso, recém-ressuscitado para disputar o público A e B com o papel dos Marinho, deu a metade direita do alto – espaço nobre, na ordem de leitura visual – para o assassinato de Marielle, mas acreditou que a notícia mais importante do dia era “Queda de braço no STF”.

Entre os gratuitos, a edição carioca do Metro deu uma manchete achatada no pé pela foto aberta de Stephen Hawking, físico britânico morto na véspera (de causas naturais), e o Destak manchetou Marielle sem foto, ilustrando a capa com Flamengo e o novo filme da personagem Lara Croft.

Nas cidades em torno do Rio, o jornal O Fluminense, de Niterói, encolheu Marielle numa chamada de três linhas, título sem texto, à esquerda, abaixo de um calhau pedindo anúncios. Já o jornal O São Gonçalo, do segundo maior município fluminense em população, nem isso: não houve menção alguma, em sua primeira página, à vereadora assassinada. A mesma ausência se deu na Baixada, nos jornais Hora H e Jornal de Hoje, ambos de Nova Iguaçu, que privilegiaram fotos de assassinatos locais.

Subindo a serra, a ausência repetiu-se na Tribuna de Petrópolis, na Tribuna de Petrópolis, e no A Voz da Serra, de Nova Friburgo. Tampouco o Diário do Vale, de Volta Redonda, deu qualquer coisa sobre Marielle em sua primeira página de quinta-feira. A bem da verdade, há que se considerar que jornais do interior, geralmente, fecham em horário bem mais cedo. Isto não impediu, porém, a Folha da Manhã, de Campos dos Goytacazes, que é mais longe da capital, de dar uma chamada para o crime à direita, abaixo da dobra.

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Se a velha e surrada cantilena de que o jornal impresso não precisa se preocupar em dar as últimas notícias para não desperdiçar esforços em “concorrer com a internet” ainda faz a cabeça dos editores, então as redações estão no caminho certo. Mas, a julgar pelo contraste entre as edições de quinta e de sexta, há algo de muito distante entre as relevâncias atribuídas ao fato pelas redações e pela sociedade. Enquanto as primeiras notícias sobre o atentado fatal eram publicadas nos portais e replicadas em mídias sociais, pessoas – militantes, eleitores, cidadãos comuns e seres humanos que têm empatia e não perderam a sensibilidade – começaram a sair de casa e ir para o local do crime e para as vigílias que se montaram no Centro, na Lapa, na Maré e em outros pontos da cidade. Quando o dia amanheceu e os jornais que desdenharam Marielle chegaram às bancas e passaram por baixo das portas – magros que estão –, uma pequena multidão já se concentrava na Cinelândia.

E a multidão foi crescendo. O ato, ganhando volume. Os tuítes e retuítes e compartilhamentos se espalharam pelos celulares e chamaram o povo de volta para o lado de fora. As irmãs de gênero e os irmãos de cor da vereadora, a quem ela defendia prioritariamente, as vozes inauditas das favelas, trabalhadores, eleitores e leitores, editaram na prática uma primeira página bem diferente. Outra manchete estava dada fora do papel. Se o público-alvo do que resta do impresso são as classes C e D, então faltou um grau básico de empatia e conhecimento do público para entender que havia sido arrancada deles mesmos a voz que mais gritava em seu nome. E, se os dois ou três jornais que ainda tentam alcançar a elite não perceberam, foram os filhos dessas classes A e B (privilegiados que são de poder faltar aos estudos ou ao trabalho) os primeiros a sair às ruas, a tomar as praças e a dar a devida dimensão à tragédia: o assassinato de Marielle Franco foi a notícia do dia, da semana, do mês, e foi um crime aterrador que ofuscou qualquer outra pauta.

Foi só então que a ficha caiu.

Vale lembrar…

Para os que nasceram pós-milênio e só conhecem o sentido metafórico da expressão, “cair a ficha” remete aos antigos orelhões, telefones públicos pagos com fichas metálicas – moedas com ranhuras específicas para encaixar na fenda do aparelho. Pelo mecanismo padrão, a ficha era depositada provisoriamente numa cavidade e, só depois de completada a ligação, caía por um duto e ativava o pagamento. Se a linha desse ocupada ou não fosse atendida, a ficha caía para um receptáculo aberto e podia ser recolhida de volta. Mas, frequentemente, a ligação falhava e a ficha caía mesmo assim, dando prejuízo ao usuário.

Problemas assim eram comuns na época da telefonia analógica, e certas empresas estaduais – todas públicas, antes das privatizações dos anos 1990 – eram campeãs de reclamações num nível de invejar Oi, TIM e Claro. Talvez a de pior fama tenha sido a Telerj, justamente do Rio de Janeiro, que, na época em que era presidida por Eduardo Cunha (ele mesmo), chegou a ganhar um site dedicado com carinho por usuários: EuOdeioaTelerj.com.br – uma das primeiras sensações da web brasileira, “meme” avant la lettre.

A empresa fluminense de telefonia era execrada por seus usuários por ter como modelo de gestão uma combinação entre ineficiência, desconexão com o público e uma firme surdez para com as reclamações. Não era apenas o fato de que as ligações caíam de repente, iam parar em engano ou davam “linha cruzada” (você que tem menos de 25 anos: pense numa conversa telefônica em que vários áudios de WhatsApp tocam simultaneamente; era isso). Era, somado a tudo isso, provavelmente o mais desastroso serviço de atenção ao consumidor que a história da administração já registrou. A Telerj dava sempre caixa postal para os clientes.

Talvez uma espécie de “Síndrome de Telerj” esteja acometendo a imprensa carioca, fluminense e, por que não?, brasileira. Ao longo da quinta-feira, dia 15, as manifestações, os protestos e os atos de solidariedade que tomaram conta de algumas das principais vias das capitais e metrópoles do país mostraram que a sociedade reconheceu no assassinato de Marielle Franco o pior crime político da história recente do Brasil. O Jornal Nacional da TV Globo, que desgraçadamente ainda é tomado como referência de pauta em inúmeras redações pelo Brasil afora (que só fecham depois do “boa noite” de Bonner), teve mais tempo para captar o zeitgeist das ruas e fez uma edição à sua altura, na quinta. Deu o tom da cobertura. O tilintar da ficha caindo calou forte. E os aquários que tinham deixado a notícia para cantinhos e chamadas abaixo da dobra tiveram de correr atrás do prejuízo no dia seguinte.

Na sexta-feira, 16, O Globo surrupiou o lema do povo na rua e tacou-o na manchete, em caixa alta: “MARIELLE PRESENTE”, sem vírgula para adjetivar a vereadora, e não como o vocativo do grito de luto das esquerdas. O Extra dessa vez derrubou a diagramação e não deu nada além de Marielle na capa, graficamente linda. O Dia, exceção da véspera, seguiu a mesma estrutura de diagramação. O Meia Hora repetiu o box, acrescentando uma fitinha negra de luto sobre a logomarca do jornal. O Metro cobriu-se com uma impactante foto do protesto de quinta na Cinelândia. O Fluminense reconheceu, atrasado, que era um “Atentado contra a democracia”. Até o Hora H e o Jornal de Hoje renderam-se à pauta única. E o JB cobriu a sua primeira com um artigo de página inteira, “Últimas palavras”, escrito pela própria Marielle no mesmo dia de sua morte e encaminhado ao jornal pela assessora sobrevivente meia hora depois do crime.

Em muitas redações onde o impresso se integrou ao online, impera a estratégia editorial de investir no digital como plataforma para notícia fresca e no impresso como análise e comentário. O problema da falta de destaque ao crime horripilante, no entanto, parece ter menos a ver com a dinâmica jornalística e mais com um desprezo para com o público afetado pelo assunto. Os jornais tinham a pauta. Deu tempo de rodar o segundo clichê. Em alguns, até o primeiro. Podiam ter derrubado a diagramação inicial, ainda que não houvesse, na noite de quarta, apuração suficiente para mais que uma página interna. A primeirona continua sendo a medida da importância dos fatos sociais. É o termômetro do que a imprensa quer pautar na sociedade. Ao dar as costas para o seu próprio leitorado, o jornal corre o sério risco de tornar-se dispensável, inócuo, inútil como um orelhão da Telerj.

Ineficiente, desconectado do público e surdo às reclamações.

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Em tempo…

Alguns jornais e veículos tiveram o cuidado de omitir o nome da assessora de imprensa de Marielle Franco que sobreviveu ao atentado, testemunha principal do crime. A identidade dela foi preservada, por mais que não se deva subestimar a capacidade de bandidos em investigar por conta própria quando têm intenção perversa. Até por um honrado coleguismo, preservar a assessora que é testemunha crucial de um crime ampla repercussão era um dever ético até que ela mesma decida se quer dar entrevistas, dar a cara a tapa e revelar-se publicamente – ou entrar para um programa de proteção a testemunhas. O Jornal Nacional afirmou que a identidade não foi revelada, mentindo conscientemente (e dignamente) quando àquela altura já havia circulado o nome da sobrevivente em todas as redações.

Mas outros colegas derraparam na ética. A Veja, da qual já não se espera muito, tascou o nome no lide de uma sub-retranca. Mesmo o El País Brasil, que costuma tomar cuidados, errou neste ponto. A Agência Estado fez o pior estrago ao incluir o nome em despacho distribuído para todos os veículos que são seus clientes. A Agência Brasil, da EBC sob intervenção, fez a mesma lambança – e não corrigiu. O JB Online pisou na bola muito feio, e tanto o reconheceu que depois editou o texto para tirar o nome do ar. O ressurreto JB impresso não repetiu o vacilo e omitiu o nome da assessora no papel, mesmo trazendo hoje um artiguete na página 6 que a menciona especificamente, contando os bastidores do artigo que preenche a primeira página.

Erraram feio os que o fizeram, mas o erro obviamente não está na conta dos repórteres que assinaram as matérias, mas sim no dos editores que tomaram a decisão final. Faltou ética, faltou sensibilidade e faltou noção.

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