Longa vida ao Seu José

por José Sérgio Rocha*

Lá vem ele, o vovô tronchinho, mantendo a rotina de sempre. De manhã, faz suas orações. Agradece a Deus por estar vivo e por tê-lo mantido, mais um dia, a salvo de pessoas cruéis que se divertem agredindo idosos como ele.

Seu nome de batismo ninguém sabe, nem ele mesmo deve se lembrar, tantos foram os codinomes que precisou usar para garantir a própria integridade, vivendo sempre entre dois mundos.

Num desses mundos estavam seus companheiros, amigos leais, parceiros nas mesas de sinuca, nos bordéis, nos velhos bares e restaurantes cariocas. Um dos que gostava mais ficava na Rio Branco e tinha a mais famosa parede azulejada do artista Bravo, mostrando o realismo fantástico de uma praia tranquila e deslumbrante sob o céu de um azul clarinho e tendo o Cristo Redentor de um lado e o Vesúvio do outro, unindo o golfo de Nápoles e a enseada de Botafogo no mesmo cenário encomendado pelo proprietário.

– Tenho saudades do velho Paisano, pena que veio abaixo – confessou um dia.

Todos são gentis com ele. Já tentaram ajudá-lo a entrar no simpático bar-restaurante onde às vezes almoça, mas ele sempre sinaliza que não precisa de ajuda e dirige-se até a mesa que costuma ocupar sozinho, onde ninguém o incomoda, mesmo conhecendo em detalhes sua história triste.

Como todas as pessoas bondosas e de passado transparente, ele adora contar os bons e maus momentos que passou, os perigos que enfrentou, as decepções, a aflição que sentia quando não conseguia cumprir sua missão de vida: livrar o Brasil de indivíduos maus, somente interessados em desonrar a nossa bandeira.

Um dos ouvintes confessa que até passou a gostar do velho, mas neste caso trata-se do testemunho parcial do garçom que o serve há muitos anos e, mesmo nunca tendo recebido gorjeta, foi narcotizado pelo ambiente onde convivem homens e mulheres que podem ser identificados à distância pelo bafo de álcool.

O confidente me conta a parte que sabe da vida do velho solitário abandonado pelos amigos. Os amigos, na verdade, não o deixaram, apenas morreram.

Ele, com cerca de 90 anos, é o sobrevivente de tantos acontecimentos que nos entristeceram durante toda a vida, lendo os jornais, vendo a TV, ouvindo o rádio noticiando sequestros e barbaridades cometidos pelos terroristas nos bons tempos dos governos militares.

Tempos que, graças a Deus, parecem estar voltando.

Se voltarem, Seu José (um dos nomes que usou na vida) seria, sem dúvida, um alvo.

Alvo de muitas homenagens carinhosas, apesar das decepções que sofreu tendo sob sua mira o conhecido líder estudantil e sendo impedido de assassinar “aquele filho da puta”. Ou tendo atirado na militante que um dia alcançaria o poder que nenhuma mulher teve e não acertando “o coração daquela vadia de merda”. Mesmo tendo perdido seu próprio carro, usado no sequestro do deputado desaparecido até hoje, “que infelizmente não fui eu que matei”.

Todos sabemos de tudo o que Seu José já aprontou na vida, mas nós o tratamos como um vovô, um velhinho, um homem de 90 anos, que leva uma hora para arrastar-se 100 metros, que sofre com a idade e a velhice.

Não somos como ele. Queremos que a vida que Seu José se prolongue ao máximo, toda noite lembrando daqueles que traiu e tiveram as vidas roubadas por ele.

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*jonalista

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